terça-feira, 28 de dezembro de 2010

PARA SEMPRE


Quando a juventude apossou-se dos meus sonhos,
ouvi uma musica vinda de longe, uma linda melodia,
e ela dizia... sussurrava impiedosamente,
atormentava o meu dia,
punha dúvida nas minhas emoções,
me sacudia,
seus versos em reversos fez de mim espera,
fez do meu querer silencio, da minha angustia...
quimera.
E a letra traiu a minha inocência... enganou o meu coração,
diz que o amor machuca,
fere e depois se transforma em solidão.
Receei sucumbir ao abandono, ficar ao desalento,
esfriar a carne nas madrugadas e ao vento.
Mas... um dia o destino, jogou no meu colo,
atirou nos meus braços, aderiu na minha pele,
e fez passar para dentro do meu peito em esplendor,
uma louca bailarina... algumas borboletas azuis,
e tudo isso chamou de: amor.
E assim tenho vivido... abandonei o medo de amar,
danço sempre em devaneio,
e salto profundo nas minhas vertigens,
porque além da procura, busco alucinadamente o que anseio.
Hoje sou mais desejo, mais delírio, aprendiz em desvairar.
Ando às vezes vasculhando a alma atrás de cicatrizes... de vestígio,
de algum estrago que o amor causou, e nada encontro, nada a olhar.
Presencio tão somente um refugio de mim mesmo,
onde preservo, guardo
nutro todo o amor
que cintila, brilha
por você...
e para sempre.

Ari Mota

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

UM PRESENTE PARA MIM


Andei distribuindo coisas, presenteando amigos e amores,
brindei com o amarelo esplêndido do ouro,
e o brilhante reluzente das pedras e flores.
Abracei em noites de festa e beijei em madrugadas de desejos,
celebrei ciclos, solenizei esperanças,
aplaudi a pirotecnia das noites em brilho,
brindei ao bater das taças a procura de ensejos.
Comemorei em cobiça e apetecido, e em busca... fui atrás da alegria,
e em euforia comovi em êxtase o mudar dos tempos.
Dancei valsa à meia noite, beberiquei vinho em fantasia.
E mesmo assim e embriagado... voltava sozinho.
Eram tempos... de vazios, de procura.
E presentear coisas, era como se fosse conquistar afeto e carinho.
E em busca... procurava a mim mesmo.
Mas, um dia... após uma ventania... que até chorei,
apercebi que as raízes da minha alma estavam expostas,
tive que escorá-las, ampará-las... e a replantei,
a cravei forte dentro do peito,
borrifei delicadeza e a umedeci com gotas de sutileza.
E desde então, passei a presentear a mim... todos os sentimentos.
Renasço em todas as manhãs, em todos os olhares,
não vivo de ciclos... vivo de hoje... somente do agora.
E todos os dias... amanheço em festa, em contentamento,
doei a mim mesmo, coragem para ser feliz.
E o destino, como se não bastasse, também me presenteou:
sempre colho rosas vermelhas, por onde vou,
sempre borboletas azuis cantam para mim,
e uma louca bailarina... baila comigo,
e em juras disse-me, que é por amor,
e até o fim.

Ari Mota

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

REPAGINAR O FIM


Regressei em revisão às paginas da minha história,
e percebi que não houve extravio e todas estavam lá.
Bem que... umas já amareladas tinham resto de solidão,
outras vazias... estampavam em suplica, sofreguidão.
Encontrei, algumas com resíduo de incerteza,
ainda umedecida de lagrimas que escaparam da alma,
mas regaram meus dias, e tudo se fez beleza.
E fui folheando uma a uma.
As paginas da meninice... continham inocência,
tolices, mais eram repletas de sonhos,
despertava a descoberta, provocava êxtase onde havia dúvida,
desmentia a volta, porque acreditava que tudo seria partida,
incitava a insolência, e tudo era atrevimento, de forma desmedida.
Tempos de insensatez, travessura, descuido e aventura.
E fugazes foram os anos... cresci, tive que fazer minhas escolhas,
amadurecer as pressas, correr contra as intempéries, os temporais,
adaptar-me ao rigor da existência, da indelicadeza do cotidiano,
da rudeza dos homens, da distancia dos desiguais.
E as paginas foram sendo viradas, relembradas.
Uma... de tão intensa, que doeu o peito, encontrei os ausentes,
verteu soluços do que passou, saudade dos que não estão presentes.
Uma até... roubou-me o riso, arrancou-me a graça,
meus desacertos, meus erros, meus fracassos,
e consegui rir de mim mesmo... porque tudo passa.
Regressei em retrospectiva para repaginar o meu existir,
quis reparar alguns enganos,
restaurar abraços esquecidos,
refazer caminhos que não terminei
recuperar olhares perdidos.
Quis repaginar o meu existir, e não foi possível,
o destino proibiu alterar a minha história, a deixou inacessível.
Hoje... só posso escrever o meu fim, com todo o meu fulgor,
com toda a minha loucura,
meus devaneios,
meu amor.

Ari Mota

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

INSPIRAÇÃO

Já vivi outras tantas vidas,
mas o destino as lançou no esquecimento,
não me lembro de nenhuma delas... fugiu-me da lembrança.
Não consegui... inspiração para esculpi-las nas estrelas,
nem entalhá-las no horizonte, nem estampá-las ao vento.
Foi me permitido apenas a emoção de viver esta que estou atravessando,
e em segredo, em sussurros, disse-me que tudo seria efêmero,
e que a fugacidade do existir iria interromper o riso,
cessar os desejos, calar a voz, suspender os beijos,
e tudo findaria inesperadamente, e tudo seria impreciso.
E assim... apenas com a emoção da descoberta, e o desejo de querer,
insisto... teimo em ser feliz, faço do instante incerteza,
embriago-me da duvida, e faço dela beleza,
destemido brinco com as vicissitudes, com o acaso,
sou mais hoje... que amanhã, sou mais o agora,
sou mais silencio, sou mais olhar, sou muito mais o que extravaso.
Já vivi outras tantas vidas... e sei como são tênues as horas, frágil o tempo,
não me permito o desassossego da ausência, nem a inquietação do vazio.
E em resiliência ofusco a negrura do medo, a melancolia da solidão,
ilumino minha alma todas as manhãs, em inocente inspiração.
Perpetuo minha essência na arte de construir versos, de fazer poesia,
eternizo-me em palavras, em sensações... em magia,
refugio-me em noites frias dentro de minha própria alma,
inspiro-me... em sempre ter coragem para ser feliz, sem provocar dor.
Já vivi outras tantas vidas... talvez em conflitos, talvez em imensa calma,
mas esta... decidi vivê-la melhor...
vivê-la por amor.

Ari Mota

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

CARINHO

Hoje envelhecido...
percebi que a minha vida não me foi um imprevisto,
nem o destino um acaso.
Embora sendo o meu existir uma súbita viagem,
um segredo, um desconfiar e às vezes uma dúvida,
em miragem,
tive tempo de sondar minhas emoções, e aprender com elas.
Quando jovem me faltou carinho, afago, abraços,
e na descoberta, e como aprendiz, e antes da solidão,
propus oferecer os meus chamegos, rendi-me a brandura
prestei em caricias meus beijos, e a pele em ternura.
Fiz do toque minha primeira forma de carinho,
e em cortesia afaguei a face, sequei a lagrima,
não deixei ninguém sozinho.
Usei minhas mãos para acarinhar meus amores,
os acalentei em meu peito, e lhes ofereci flores,
e nada foi ilusão.
O tempo passou... o carinho me fugiu das mãos,
mas, os perpetuei no olhar.
Passei a contemplar tudo com mais leveza,
encaro as perdas com mais resiliência,
e antes de tudo... faço do meu existir mais beleza.
O carinho que ainda tenho na pele,
o tenho mais intenso no que encaro, no que vejo,
sou mais meiguice, sou mais desejo.
Hoje...
Todo o meu carinho alojou-se dentro da minha alma,
Inda... abraço, todos os meus amores.
Inda... contemplo tudo com ternura.
Mas, hoje... o carinho é para mim mesmo,
porque eu me amo
em loucura.

Ari Mota

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

NÃO EMBRUTECER A ALMA


Não esquivei dos caminhos, nem procurei atalhos,
minha trajetória foi em sol de meio-dia.
Suportei o desgaste do improvável, o medo da incerteza,
o descaminho da duvida, e o pavor do vazio.
E tudo foi crescimento... dilatava-me no silêncio,
difundia-me nos refúgios, fui mais recolhimento,
que revelação.
E sem os aplausos... fui quietude... contemplação.
Tornei-me aprendiz de mim mesmo...
Aprendi que às vezes não dá tempo para retardar os adeuses,
e de nada adiantaria colocar rosas nas despedidas,
elas são energias na vida, e quase nada valem nas partidas.
Aprendi não embrutar à alma antes do amor,
e que... não poderia paralisar o segundo, nem comprar o tempo,
para abreviar a dor.
E se um dia tiver que ir embora... em vez de ausência...
deixe saudades.
E que o afeto possa ser mais forte que o orgulho,
e que não fique preso ao ontem,
nem refém de lagrimas já vertidas da alma,
e que eu possa em vez de oferecer desequilíbrio,
distribua calma.
E que o destino me permita repartir todos os sentimentos...
menos a solidão.
E que no palco da vida possa ensaiar todas as emoções,
e apresentá-las em verdades, sem ilusões.
Aprendi... aprimorar o olhar...
e não embrutecer a alma.
Hoje ando colhendo flores,
espiando as borboletas, reconhecendo rosas,
cuidando dos meus amores.
Virei poeta...

Ari  Mota

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

CALMARIA


Vislumbrei achar que tudo seria fácil, calmaria,
e que brisas, vindas do sul trouxessem aromas de alfazema,
e as ventanias recendessem sândalos em alegria.
Devaneei em espera, como se a perspectiva fosse iludir a vida,
e a aparência em disfarce fosse uma mascara pegada a alma.
Fingi alegria, simulei emoção, dissimulei afeto em alucinação.
Fantasiei-me de outros, e não de mim mesmo, fui ilusão.
Enganei-me, e em desacertos cometi algumas tolices,
mais tudo coisas da meninice...
E tudo passou como uma tempestade, resiliente que sou,
catei todos os cacos, recolhi todos os fragmentos,
colei os pedaços, recompus os sentimentos,
lavei a alma, arranquei do peito toda a dor,
abandonei os discursos, fiz do olhar franqueza,
do abraço beleza, da declaração um ato sem temor.
Fiz silêncio onde tinha ausência, e me encontrei.
E hoje envelheci... sem cair em desuso,
fiquei seletivo... às vezes ando só, e comigo mesmo, recluso,
sem estar em solidão, existo em calmaria, em mansidão.
Falo comigo, em noites de isolamento, me chamo,
grito o meu nome, berro para dentro a procura de eco,
e para mim, sempre é todo dia, e nunca estou sozinho,
nem quando me passam e me deixam a beira do caminho.
Vislumbrei achar que seria fácil... e tudo vivi, e tudo aconteceu.
Hoje é o meu tempo de calmaria, nada ficou, nada se perdeu.
Quando me pedem coisas, corro ao jardim e ofereço flores,
quando indagam meus afetos,
suspeitam dos meus beijos,
duvidam dos meus abraços... olho com ternura...
para todos os meus amores.
Vislumbrei redimensionar o meu existir em calmaria,
e o fiz... com todo o esplendor,
e hoje tenho coragem de viver em alegria,
e amor.

Ari Mota

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

UM ANJO CHAMADO SOLIDÃO


Todas as vezes que a solidão tomou meu braço,
reclinou sua face no meu ombro, querendo colo,
reclamando chamego, e querendo minha companhia,
gritei ao vento...
o mundo estava ocupado, as pessoas apressadas,
absolutamente só, transparente, ninguém me ouviu.
Resiliente que sou, fiz dela companheira,
segui seus passos, e muitas das vezes o seu caminho,
partilhei estradas, horizontes, segredos,
e ela vagueou ao meu lado como uma sombra,
importunou-me como uma aparição.
Acordamos... um não ingerir no existir do outro.
E assim, ela vive ao meu lado,
não esvazia minha alma, nem esgota minha essência,
não me traz desassossego, nem cerceia minhas vontades,
não me inquieta, nem me provoca medo,
não me perturba, nem eu a ela.
Trocamos sempre olhares de respeito, nunca de desdém,
finjo que ela não existe, e ela também.
Na verdade dispo-me da solidão em dias de loucura,
mas, visto-a em manhãs de lucidez.
Acostumei tanto com sua presença, que a chamo de anjo,
a transformei em meu silêncio...
em quietude,
na minha calma.
E antes que a solidão rebele-se em dor,
finjo que ela é um anjo,
e amor.

Ari Mota

sábado, 27 de novembro de 2010

A ALMA EM GUERRA


O mundo talvez esteja em guerra, e homens em conflitos,
sua rua em desordem, sua cidade em chamas,  
calçadas vazias... praças em solidão,
vidas aos gritos.
Tudo é desarranjo, desconcerto, imensa confusão.
Os olhos em desespero... buscam ternura, vagam em desalinho,
procurando abrigo, respostas, procurando um caminho,
em sofreguidão.
São dias de tormenta, vendavais, noites em desalento,
que tudo passa, muda e atravessa o tempo.
São instrumentos de evolução, transformam o humano,
aperfeiçoa corações,
em sofrimento.
Mas não é ainda a pior das guerras:
a que aniquila o sonho, obstrui os vôos, impede os saltos.
Porque a pior delas... esconde, disfarça em medos,
dentro de sua própria alma.
E isto é guerra...
E é preciso que crie uma estratégia para invasão,
planeje os combates, ataque em noites de silêncio,
assalte em madrugadas de ocupação,
e que tudo seja para vencer os conflitos existenciais,
os inimigos utópicos, os medos imaginários.
Que possa invadir sua própria alma, e aniquilar os confrontos pequenos.
Que resista, persevere, tenha resiliência aos reveses do destino,
e não permita guerras íntimas, desconforto de alma,
ausência de coragem, e não tenha medo de ser feliz.
E quando olhar o mundo e deparar com os seus horrores,
não atemorize, ofereça flores.
Prepare sua alma para defrontar com a intolerância,
com a indiferença, a arrogância,
se um dia, em companhia, chegar a dor...
possa oferecer
amor.

Ari Mota

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

MEDITAÇÃO


Tive períodos de impaciência,
provoquei celeridade no tempo,
quis rapidez, tentei urgenciar a minha vida.
Na percepção a defini efêmera, no existir... de curta duração.
E quis tudo as pressas, tudo ao mesmo tempo, tudo na emoção.
Quando a juventude fez-me companhia, tudo foi transitório,
pareceu-me breve o riso, fugaz a brandura, passageiro o amor.
E assim... velozes foram os beijos, os toques, finito os desejos.
Houve momentos que fui lacônico, os demais só discursei,
e de tão repentino, de tão superficial, fiquei comum, trivial.
Tive períodos de inquietação, provoquei desespero nas horas,
quis adiantar os amanheceres, antecipar os tremores,
sofrer antes da dor, abandonar os amores.
Mas, tudo passou... sobrevivi ao rigor da pressa,
a ligeireza da marcha, as intempéries do caminho,
e na descoberta e sozinho,
encontrei o tempo da delicadeza,
fiz de mim reflexão.
Garimpo nas profundezas da alma... essência.
Nas entranhas da carne, argumentos.
Cavo profundamente e de forma visceral, minhas verdades.
Embrenho para dentro de mim, atrás dos meus medos,
negocio sua saída, os arranco um a um, como um guerreiro.
Hoje... envelhecido, não tenho mais pressa,
deixei de ser corredeira para transformar em lago profundo.
E sem segredo... medito desmedidamente,
todos os dias, em busca...
de uma consciência
que continue abastecendo 
minha alma
de amor.

Ari Mota

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

HOJE ESTOU MELHOR QUE ONTEM


Quando volto o olhar para o passado,
encontro-me em pedra bruta, rústico,
tempos de ausência... falta de raciocínio, coerência,
estradas tomadas de túneis, curvas infindáveis,
época... das dúvidas, das incertezas, da falta de caminho,
procurava um acesso à alma, um despertar, um desprender.
Era bravio nas emoções, tímido no afeto, severo no soluço,
áspero no abraço, rude nas lagrimas, ríspido nas respostas,
exigente nas coisas,
sentenciava como relâmpagos em noites de tempestades,
sem fluência... caminhava sozinho.
E percorri todas as estradas que o destino me concedeu,
andei ao léu, vaguei pelos sonhos, pelas veredas utópicas,
dei ensejo às vontades, aos desejos e nada aconteceu.
Busquei minha verdade em outros braços, em outras narrativas,
quis para mim o existir dos outros,
em retrospectivas,
comparei... confrontei... quis tudo igual, em simetria.
Na descoberta... vi que nada era possível, tudo era utopia,
e antes que a solidão me fizesse companhia,
caminhei em busca do fulgor da quietação, do sossego da alma,
do silêncio que me acalma,
de mim mesmo.
E desde então, no mais veemente encontro,
deparo-me...
corrigindo-me, acertando-me, sucessivamente.
Melhoro todos os dias, prospero a cada amanhecer.
Desprendo dos medos, tenho todas as emoções,
o soluço e as lagrimas já não são mais segredos.
Abraço... em demasia, faço silencio nas perguntas,
desapego... das coisas, já não julgo em teimosia.
Diferencio-me em cada principiar de dia,
faço tudo ficar melhor,
faço tudo ser
amor.

Ari Mota

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O ÚLTIMO DIA DO AMOR

Quando jovem... amei em pedaços,
em partes,
em gotas,
em momentos...
Planeei ser eterno, constante,
e em tempo nenhum atingir o fim,
tive pressa, realcei o disfarce, o instante,
e desmedido quis todas as emoções só pra mim.
Tudo me tocou ao ritmo, e ao descompasso da fugacidade,
desviei-me do aconchego, afastei-me dos abraços,
beijei diversas bocas, dormi em varias camas,
acomodei em colos inertes, em almas estranhas.
Beberiquei gotas de fingimentos,
lagrimas dissimuladas de gratidão.
Tive momentos prazerosos, amores de curta duração.
E tudo foi pouco...
faltou-me a cumplicidade com tempo, com o amor.
Mas o destino, em desatino e magia, eterna loucura.
Colocou no palco da minha vida, uma louca bailarina,
que em fantasia, se faz mulher, se faz menina,
e com toda a avidez de afeto, com toda a sinceridade em ternura,
transforma tudo em contentamento, a todo o momento,
com todo o esplendor.
Hoje... envelhecido,
amo por inteiro,
ao todo,
com toda a intensidade, e tudo.
Tenho tido êxito em lograr o destino,
o iludo todos os dias, o seduzo todas as noites,
“ele acredita que meu amor terminará somente amanhã”
E assim sigo minha trilha:
Amo somente hoje, desmedidamente.
Como se amanhã... fosse o último dia
do amor.

Ari Mota

terça-feira, 16 de novembro de 2010

LICENÇAS E DESCULPAS


Quando a voracidade da juventude fez-me companhia,
atropelei o meu próprio silêncio.
Apressei-me no grito, no gesto, fiz do olhar atrevimento,
afoiteza na conquista, arrojo na descoberta.
Aventurei-me no inusitado, encorpei vaidade,
quis ser mais veloz que o vento.
Quando a inconstância balizou a fugacidade do risco,
e a ousadia ritmou o percorrer, fiz do manifesto um atacar,
demasiadamente... sangrei almas, debilitei sonhos,
usei da franqueza, quando podia amenizar a critica,
renunciei a paradigmas, achei-me singular.
E o existir cobrou-me postura, atitude de alma,
o destino pediu-me que amenizasse o julgo, o supor.
Evoluísse na compreensão, habilitasse na inteligência,
tivesse... mais altura, mais volume, mais intensidade,
quis de mim amor.
E que pedisse mais licença que desculpas.
Quando a serenidade da velhice fez morada em minha alma,
fez-se calma, quietação no andar,
fiz do silêncio uma arma, da contemplação um costume.
Hoje... ao por do sol... peço licença à vida, para continuar,
peço licença à partida... para mais um pouco ficar.
Hoje, deixei em desamparo as desculpas, e sem culpa,
peço licença ao existir... e que me suporte mais um pouco,
com minhas verdades...
peço licença a vida, para amar mais um tanto.
E que eu possa ainda oferecer flores,
em devaneios,
em teimosia,
aos meus
amores.


Ari Mota

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

INVENTARIANDO A VIDA


Quis o destino, um inventário da minha vida.
E em retrospectiva regressei ao passado,
fui perambular em devaneios aos trechos que atravessei,
nas veredas que me perdi, no imprevisto do acaso,
no improviso do gesto e nas circunstâncias que me achei.
Voltei...
Encontrei escondido dentro da alma, três grandes momentos.
Minha meninice, sonho infantil.  
Minha inebriante juventude, mais que dúvida... inquietude.
Minha reta final, rugas na alma, calma... quietude.
voltei...
Fui catalogar coisas... e vi que quase nada tinha.
Tive que listar em metáforas outras riquezas,
deparei com emoções, outros sentimentos, belezas.
Da infância, que ainda na lembrança, pouco listei:
um pião de corda, um estilingue, uma bola de gude.
Da juventude, que ainda resta-me alguma atitude:
sonhos em disparate, desatino nos combates, e vigor.
Da velhice, que me é o tempo da descoberta:
da lucidez que desperta, do luzir de um pensador.
Fui inventariar a minha vida, catalogar as minhas coisas,
e de tão pouco, não coube em uma linha,
de tão ínfimo, não tive coragem de imprimir,
de tão pouco, de quase nada, nada posso dividir.
Fui inventariar a minha vida, catalogar o meu existir,
de tão belo, de tamanha primazia, que em risos, em ufania,
descobri que tinha todas as riquezas, preciosidades em afetos,
cataloguei intensa convivência em alegria.                                             
Hoje... depois que o tempo redefiniu a minha alma,
pude inventariar a minha vida, e tudo é deslumbramento,
a transformei em esplendor...
não consegui ter coisas... nada tenho...
só amor.

Ari Mota

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

ABRIGO


Mesmo com toda a aridez do existir,
com toda a rispidez da convivência entre os homens,
com toda a aspereza do olhar,
do intratável preconceito,
da rigidez da intolerância,
e a severidade do desprezo.
Você possa...
e procure não sucumbir à voracidade do subjugar,
nem a avidez da conquista, tampouco a impetuosidade do dominar.
De tudo isso... só não permita,
e não deixe fugir das mãos que semeiam,
do peito que sonha, dos olhos que colhem...
o evoluir.
Não proíba, não impeça as transformações que brotam,
que emergem de dentro como desejos.
Não proíba, nem vede os anseios, nem pode as asas do seu voar.
Não proíba o seu grito, nem estanque o suor da sua dúvida,
nem a fantasia do encontro, nem a vontade de amar.
Que de tudo isso... sua metamorfose espelhe excelência,
que passe por aqui... como missionário de si mesmo,
incumbido de encontrar sua própria verdade, sua essência.
E que...
reserve um canto, um ângulo, uma esquina dentro da sua alma,
e a preserve,
faça ali um abrigo,
um refúgio.
E que não deposite ali... nem ressentimentos,
nem magoas,
nem coisas,
nem medos.
Que possa armazenar apenas o acaso em ternura,
o talvez em loucura,
e as vicissitudes que acometem... quem ama.
Que neste refugio possa abrigar dos temporais,
o amor.

Ari Mota

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

MAGIA

Pareceu-me efêmero o destino,
pareceram-me tão somente épocas de instantes.
E assim resisti, sobrevivi...
O tempo intentou imputar-me a inércia, o desuso,
escapei à indolência.
O tempo enrugou a alma, cobriu de flacidez a carne,
mas não conseguiu vencer o sonho,
escapei à indiferença.
Reinventei o fascínio do começo, o impulso do princípio,
fiz de mim... iniciação,
reinicio-me todas as manhãs,
em rituais mágicos, em soberba alegria,
encanto-me com o despertar, com o romper do dia.
Evoco luz, atraio calmaria,
brisa silenciosa,
purifico a intenção, asseio as palavras, alinho a emoção,
acometo-me do prazer pelo ínfimo, nele encontro grandeza,
quebro o encanto da ilusão, harmonizo-me com a solidão,
e em segredo vou escapando das minhas incertezas,
e abandonando pelos caminhos, todos os meus medos.
Sou guardião da minha própria alma,
mago de mim mesmo.
Reinicio-me todas as manhãs, em pura magia.
Procuro desmedidamente o equilíbrio, a sabedoria,
sou um crescer, um aumentar, um aprendiz em teimosia.
O existir concedeu-me a coragem para ser feliz.
Reinicio-me em todas as manhãs,
derramando, transbordando pelo chão...flores
em fantasia,
em feitiço,
em magia,
para os meus amores.

Ari Mota

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O BEIJO


Em constante procura...
percorri o meu existir no desejo do toque,
na súplica de um beijo.
Fitei tantas bocas, contemplei tantos lábios,
ensaiei tantos encontros.
Aflito reclamei tantas fantasias, beijei no escuro do cinema,
escondido... depois de um poema,
Em desespero... em agonia, beijei nos bares, nos botecos,
beijei bocas embriagadas... em pandarecos,
beijei bocas indiferentes, solitárias, amarguradas, inocentes.
beijei bocas vis, acanhadas, preparadas, desinfeliz.
beijei bocas estúpidas, desesperadas, abandonadas, e feliz.
beijei dançando na chuva, na praça, no banco do jardim,
na cama, no chão, ao vivo... em cores, ao som de um bandolim.
Beijei bocas escandalosas, nervosas, proibidas,
desnecessárias, inibidas.
Beijei bocas gostosas, frias, indolentes, atrevidas.
Beijei tantas bocas...
E nada sobrou... sequer um gosto, um sabor,
sequer a leveza do olhar, sequer a pureza do amor.
Mas um dia... o destino em capricho, atirou-me... em seus lábios,
minha alma em festa, saiu.. em seresta,
e bailei ao som das mais românticas cantigas,
colei meu rosto na mais aveludes das peles,
e como um traiçoeiro... fiz-me de posseiro,
e furtei-lhe a doçura do beijo.
Beijei todas as bocas... em todos os bailes,
em todas as camas, ao despertar do sol, ao pôr da lua,
mas só uma...
deixou-me essência,
a sua.

Ari Mota

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

TALVEZ UM DIA EU VOLTE


O destino tem me provocado a não parar...
Continuar meus combates, seguir em devaneios com meus sonhos,
atravessar minha jornada, construir caminhos, insistir, perdurar,
lutar em competência, desafiar o inusitado, estremecer de medo,
travar peleja, fazer-se de rijo e temer somente em segredo.
E assim o fiz, e assim tenho existido,
planto ousadia...
Decolo em vôo nas noites de tempestades,
e aterro em manhãs de solidão.
Sou mais partida do que chegada,
parto em duelo às vezes com o mundo, às vezes comigo mesmo,
fomento... guerras existenciais em nome da minha verdade,
disputo um vão, um lugar vazio dentro da própria alma,
travo lutas íntimas em nome da minha liberdade.
Hoje não posso cessar o meu percorrer,
nem afugentar-me do talvez,
aventuro-me em saltar sobre os abismos da dúvida,
com toda a minha destimidez.
Parto... pelo prazer de recomeçar,
pelo deleite do novo, a delícia do verdejante.
Vou... umedecer de aragem fresca, abraçar em desejos novos olhares,
beijar outras bocas, amar em novas camas, outra amante.
Mudo... pelo gosto da distancia, pela singular volúpia da descoberta,
e tudo tem sido muito intenso, raro, descomunal,
torno-me maior nas partidas,
nos adeuses,
nas despedidas.
Dói o peito, dói à alma, fica um vazio visceral.
Mas, quando renuncio ao ficar... pelo ir embora,
levo sempre... amor,
na mesma intensidade que deixo.
Talvez um dia eu volte.

Ari Mota

terça-feira, 26 de outubro de 2010

A GAROTA E A MULHER


Fui passear em memória, ao passado...
procurava apenas contemplar o que vivi,
reencontrar o esplendor da beleza,
a sutileza da juventude, a vivacidade do olhar.
Fui revolver o passado... bulir com o tempo,
não a procura, nem em busca de coisas,
nem ao encontro do que perdi,
mesmo porque... tive que jogar fora os excessos,
deixar pelo caminho os ressentimentos... magoas que senti,
pesos em demasia que no peito trazia... só para sofrer.
Fui de encontro ao tempo... da juventude,  
da ingenuidade do beijo,
da inocência do abraço,
da limpidez do gracejo, do bem querer.
Caminhei ao acaso, para rever nosso caso... que se fez amor.
E que de resto encontrei, em desvario... fiquei,
nossa praça vazia, nosso cinema em agonia, nosso jardim sem flores,
nosso passeio sem rumo, nossa ilha... sem amores.
Voltei à procura da menina moça, da garota da minha rua,
que ainda em noites de devaneios, sozinha reaparece... insinua.
Fui... bulir com tempo.
E em suspiro, dei-me casualmente com a lembrança,
e em delírios, foi-se a travessa menina,
a inquietante garota, a virginal criança.
O tempo fugaz... efêmero como uma ventania,
metamorfoseou a garota em mulher,
de frágil se fez beleza, de doce se fez leveza.
Fui... bulir com tempo,
minha alma... quando depara com a garota,
a olha com amor,
quando o faz com a mulher,
também.

Ari Mota

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

PERDER E DESISTIR


Inusitadamente o destino bateu em minha porta,
abordou-me, querendo uma entrevista.
Em desespero pensei fugir, escapar... desaparecer.
Trazer outra vez o pretérito, suscitar o tempo vivido,
remanejar do esquecimento... o esforço do combate,
o vigor das batalhas, o suor da solidão, as noites frias,
as duvidas que se apossaram em assalto... da minha alma,
das vezes que perambulei pelas calçadas a procura de horizonte,
das vezes que vaguei desmedidamente, mais que além da descoberta,
em caça, e em desespero... aos acertos, tentando construir pontes,
aventurando-se no novo, no inusitado, no incomum... no risco.
São segredos que nem mesmo eu sei contar, dar testemunho.
Não... não permitiria  este intento, esta ousadia, e como não bastasse.
Indagar-me: Qual a diferença em perder e desistir?
O destino ficará sem a minha resposta...
Fui um colecionador de derrotas, perdi demasiadamente,
mas, finquei, enraizei dentro do peito... sonhos.
E fiz deles... o meu caminhar, o meu existir.
E em tempo nenhum, e em nenhuma vez sequer... desisti.
Não consegui responder tal questão... não há diferença,
há um abismo que os separam.
Todas as vezes que perdi... tive coragem para superar.
Todas as vezes que a desistência rondou-me... tive medo.
E minha vida aconteceu assim... fui crescendo,
nunca temi perder, temia desistir.
Temia perder o sonho,
perder o amor.

E você...

Qual... a fase da tua vida?
Quais são seus medos? 
                 
Perder?
           Sonhar?
                      Desistir?                  
                                   Amar.?           

Ari Mota

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A JANGADA


Minha morada é de frente para o mar...
Muito embora... esteja a 260 km dele... eu o imagino,
e sua brisa vem passear todas as noites em minha pele,
chuviscar em minha alma,
sua aragem brinca de orvalhar meus cabelos,
em desalinho,
e seu azul vem luzir em meus olhos,
esplendor, delírios, e calma,
suas ondas em fúria e em estrondos,
me desperta em todas as manhãs e me acalenta ao sol,
em vespertino.
E em devaneios lanço minha jangada e saio a navegar,
vou pescar ilusões,
arremessar a minha rede em busca de sensações,
sou pescador de sentimentos.
Navego em temporais, em imensas ondas que me sacodem,
derruba-me a bússola, tira-me o norte,
faz-me perder na negrura da noite, sem medo da morte.
E tudo isso me fascina, o mar é duvida e desatino.
Em metáforas... sou jangadeiro errante,
amante do inusitado, do inesperado alento.
Resisto às tempestades, os vendavais repentinos.
E iço velas em jangadas invisíveis, fujo da solidão lacerante.
Sou jangadeiro em desvario, pescador em desafio,
busco travessias, saio ao mar em busca de aventura,
e faço dele o meu existir, uma procura.
Mas... tudo isso é pura fantasia de poeta,
que pesca emoções,
que pesca em mares revoltos:
a sutileza do riso,
a ternura do abraço
a leveza do encontro.
Saio todas as manhãs em minha jangada,
no mar dos meus anseios.
Pesco amor...
Para lhe dar.

Ari Mota

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

RESGATE


Se ouvir um pedido de socorro vindo de dentro do peito,
ouça em silêncio os gritos em desespero, a ofegante busca,
talvez sejam ecos da própria angustia,
reflexos da própria impaciência, da eterna aflição,
mas, pode ser o destino lhe convocando para transformá-lo
em socorrista de si mesmo.
Ao longo do existir, houve alguns desmoronamentos com o seu andar,
e suas atitudes soterraram dentro da própria alma... sentimentos.
E ficaram isolados pela rudeza do cotidiano,
verteram-se em ressentimentos,
e permaneceram ilhados pelo desamor.
E tudo o que tinhas de belo e puro,
toda sua delicadeza com o outro,
toda a sua brandura com as diferenças,
e toda sua suavidade no olhar,
perderam-se nas entranhas da duvida e mínguam em prantos,
desfalecem em solidão,
enfraquecem de medo,
e sozinho estremece na escuridão dos vazios.
E em vão espera ajuda, implora uma mão.
E a vida em desafio, em resiliência,
o convoca para transformar-se na mítica ave que renasce das cinzas... Fênix.
E fazer de ti... um superar, ressurgir, reaparecer,
reaprender a conviver com as verdades e consigo mesmo,
e em jubilo resgatar todo o amor que ainda resta soterrado dentro da alma.
Portando...
Resgate... o sonho... o afeto, o você que você soterrou,
o amor que escondeu.

Ari Mota

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

CRIANÇAS E BORBOLETAS

Quando a maturidade fez acampamento em minha alma,
passei a ver o existir de outro ângulo,
aclarou-me que atravessei toda minha existência por analogia,
e abraçado com a incerteza,
fiz da duvida um cismar eterno, nostalgia.
E na descoberta, tudo que ouvi, tudo que li... duvidei,
veio-me a memória que em todas as histórias que escutei,
em quase todas desacreditei.
Fiz desconfiança nos discursos... dos homens,
no seu olhar insolente, no seu desfilar em desaforo,
na sua infinita deformação da verdade,
no desvirtuar da decência, na ausência de choro.
O avistei ávido de mando,
sedento de cinismo,
coberto de mentiras.
Quando a maturidade fez acampamento em minha alma,
escapei dos que querem subjugar meus devaneios,
fazer-me menor, constranger meus saltos, meus vôos,
e meus delírios.
Hoje...
Abono como companhia... umas borboletas azuis,
uma doce e louca bailarina,
e crianças... que em metáfora... as concebo,
como se fora um diamante já lapidado,
reluzente,
com suas facetas refletindo o brilho da vida,
a beleza da inocência,
a pureza do existir,
e falando de amor.

Ari Mota

sábado, 9 de outubro de 2010

CONTEMPLAÇÃO

Meu existir, fugaz como uma ventania,
foi levando-me a eternos instantes.
E tudo durou,
e tudo aconteceu,
e tudo virou circunstancias.
Os temporais perduraram noites, e arrastaram-se pelos dias,
tornaram-se desmedidos momentos,
e em ocasião fez-se tormenta, encharcou a roupa, esfriou a carne,
sacudiu a alma... quase morri de medo.
E um dia... não tinha mais para onde correr, fugir, fingir... esconder.
E em desesperação, perdido...
Refugiei-me... dentro de mim mesmo.
E era tanto silêncio, tamanha quietude... que de calmo,
tornei-me sereno,
quietei-me em soluço,
repousei-me em contemplação.
Hoje amarrotado pelo tempo, esfolado pela experiência,
inda sonho... inda brinco de menino, inda fantasio-me de poeta.
Contemplo o existir... com toda a intensidade.
E o destino brindou-me com sentimentos e palavras,
e em devaneios... inda apercebo o murmúrio de uma lagrima,
que rola face abaixo de saudade.
Inda espio a toada breve de um sorriso,
em alegria pelo regresso, pelo encontro.
Contemplo a sutileza do olhar, a pureza do gesto,
a leveza da verdade.
Contemplo os que têm coragem de ser feliz.
Contemplo o amor.

Ari Mota
 

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A CHAMA


Um dia a circunstância expulsou-me do conforto,
e o destino repassou-me o dirigir, entregou-me... a estrada vazia,
fez de mim navegante em abandono,
doou-me o horizonte, e ofereceu-me o inesperado como endereço,
concedeu-me a vontade, o juízo da escolha...
a prudência do olhar e a certeza de ser fiador de mim mesmo.
E tudo, foi desmedido... fui deixando pelos caminhos fragmentos,
fui sangrando inocência, lastimando em choro a solidão.
Foi o tempo em que a rudeza dos homens esbarrou com minha
pureza de menino.
Comedido calejei a alma, para suportar a indelicadeza,
e em resiliência acendi dentro do peito esperança,
e fiz dela uma chama, um fogaréu descomunal.
E como se não bastasse, tornei-me senhorio do veemente fogo
do meu existir,
E passei em vigília, e em zelo... regrar suas chamas,
fomentar suas labaredas,
estimular sua intensidade.
Passei a reger a minha travessia, e não mais vaguear ao acaso
e nem errante, perder-se nos devaneios dos meus sonhos.
E o destino fez de mim guardião, acautelo-me para manter
a chama acesa.
A protejo... dos temporais e das ventanias,
a chama que carrego... arde,
queima
de amor.

Ari Mota

sábado, 2 de outubro de 2010

O BERÇO


Quando despontei para o existir deparei com a magnificência
dos que viviam em meus limítrofes.
Destilavam em pompa seus aparatos... e em abundância,
desfilavam fartura, cuspiam moedas
e a imponência do poder.
Apercebi que uns construíram seus impérios,
outros tantos se tornaram herdeiros,
e muitos subtraíram em destreza dolosa, em astúcia insana,
o que nunca lhes pertenceu.
E assim alcancei alguns entendimentos,
e em controversa ficaram as duvidas, e em suspeita a desconfiança,
brotou um cismar,
e um presumir de que tudo poderia ser apenas castelos de areia,
neblina ao vento.
Tenho em hipótese que a conquista de coisas pode na fugacidade
do existir,
tornar-se pouco diante da extensão do destino.
E diante de tudo isso, alterei o rumo, o foco e a direção,
agreguei em meus sonhos... outros valores de conquista.
E docemente passei a construir meu império...
dentro de minha própria alma.
E desde então, a nutro com esperança, avanço com coragem,
persevero na exaustiva lida... em ser feliz.
E tudo, tem sido sucessivos momentos de transformação,
sou sempre o novo que desponta e descubro.
Não consegui construir impérios de coisas,
somente de afeto e ternura.
Nem me deixaram nada como herança,
somente retidão e honradez.
E tímido não subtraí de outrem... matéria ou numerário,
somente abraços e beijos.
De tudo restou-me amor
e berço.

Ari Mota

terça-feira, 28 de setembro de 2010

EQUILÍBRIO


Por tempos recorri a instrumentos para atingir coerência no meu
existir.
Vaguei desmedidamente a procura de harmonia para o meu
andar.
Busquei alternativas para ordenar meus passos
e identidade absoluta para poder sonhar.
Corri aos livros, aos mestres zens, as literaturas de auto-ajuda.
Fui meditar com os monges budistas,
andei descalço no Tibete,
e toda a sabedoria me chegou sem palavras,
ouvi em silencio o sermão da flor,
e arranquei do peito todo o ódio,
todo o meu rancor.
E como tudo não bastasse, inda me enveredei nas minhas vidas
passadas.
E tudo transcendeu... revelaram-se mundos, e tudo se tornou um,
e fiz do corpo apenas um domicílio espiritual.
E tudo foi muito pouco...
Inda, tendi as tradições xamânicas e recuei no tempo,
e em cânticos dancei com todos os ancestrais... em devaneios,
fui areia, pedra bruta, pedra filosofal.
Mas, certa noite, sozinho... percebi um vazio no peito,
um ardume, uma veemente vontade, uma busca.
De todas as emoções que tive... uma me faltou,
ou foi pouco, ou de tão ínfima que não a percebi.
E relutei tanto na procura... obstinei-me tanto no encalço,
que a encontrei dentro de mim.
Procurava EQUILÍBRIO... o encontrei em abraços com minha alma,
falando de amor.

Ari Mota

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O MEDO É UM VÍCIO

Quando dei meus primeiros passos deparei com minha primeira
queda.
Fui ao chão sem saber o que era desabar, estatelei no solo sem
conhecer o pavor do tombo,
sem chorar.
Ergui-me... e em gritos, e em zelo correram em minha direção,
arrebataram o meu primeiro andar,
minha primeira aventura solo, o meu primeiro vôo,
pelas estradas do caminhar.
Fizeram da minha criancice um cismar de medo,
um revelar do proibido, uma negação ao livre.
Tudo não podia... e então andei em quimeras escondendo-me
de fantasmas.
E em fantasia ideava lendas que em espanto me entristecia.
Passei a temer o inusitado, escondia-me dos olhares,
afastava-me dos abraços... fugia dos amores,
fizeram do medo minha companhia.
Hoje, depois da brancura dos cabelos,
da enrugues da pele, e da sensatez dos atos,
rompi em descoberta,
e sei que na verdade tudo foi para cercear meu bater de asas,
e inibir meu alarde aos próprios desejos.
Esconderam de mim que o medo é um vício,
e que fui tomado pelo receio do recomeço,
da estupidez da queda, da ausência, do abandono.
Mas, tudo transpassou como uma ventania,
e pactuei com minha alma... sobreviver à este vício,
e fizemos do existir um exercício de coragem,
e dos reveses do destino... crescimento.
Hoje dos vícios que carrego:
um está em evoluir desmedidamente... todos os dias,
e o outro é ser feliz e amar em demasia.

Ari Mota

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

TATUAGEM


Nosso amor tem sobrevivido todo este tempo,
todos estes temporais,
e mesmo assim, eu queria que ficasse para sempre,
e sempre eu ainda acho pouco,
preciso que permaneça mais um tanto,
algumas vidas a mais.
Já o coloquei dentro de um coração feito a canivete
naquela arvore da praça.
Depois docemente fantasie-me de poeta e o depositei para
dentro de um poema tímido,
de um verso ingênuo,
de uma rima descabida.
E naquela noite sussurrei em prosa, e o perpetuei no infinito.
E na madrugada seguinte... em delírios, o gravei nas estrelas.
E quando o sol se fez, convidei milhares de borboletas azuis
e saímos cantarolando todo o meu amor por você.
E tudo foi muito pouco,
preciso perpetuá-la em todo o meu existir...
Pensei... deixá-la tatuada na minha pele,
mas, efêmero lugar... e já envelhecida.
Não teve jeito,
a tatuei na alma.

Ari Mota

sábado, 18 de setembro de 2010

QUANDO O AMOR TE INVADE


Não teve jeito, não consegui esconder...
a porta já estava entre aberta, a te esperar.
Cansei da aridez das emoções,
dos desertos que crescem dentro de minha alma,
do meu andar.
Chega de transitar com a solidão,
abrigar em meu peito sofreguidão... empurre a porta sem bater,
pode entrar.
Vou me aventurar, deixar-me seduzir pelo inesperado,
viver estes abalos, que chegam de dentro, como se fora um canto,
como se fora uma ópera de dois enamorados,
como se fora versos de um poeta apaixonado.
E se o imprevisto me vier fazer companhia,
e trouxer a tiracolo a delicadeza, e em mimos me abraçar com leveza,
vou pedir que além de tudo isso... também me ame.
Porque hoje... espalhei rosas vermelhas pela casa,
e fui ao bosque... e convidei milhares de borboletas azuis,
para enfeitar nossa festa, e cantarolar coisas de amor,
e espiar maliciosamente nossos lençóis.
Não teve jeito... a porta está entre aberta, é só entrar.
Tenho insistido em ser feliz e não posso viver tudo isso,
sozinho.
Separei o que de vazio eu tinha, para ocupá-lo, completá-lo,
e que seja de você.
Como não sei o sabor do vinho, vou me embriagar de orvalho,
como não sei os passos de um dançarino, vou sambar no meio da sala,
como não sei ficar sem você, fiz-me poeta... para revelar meus desejos,
declarar meu silêncio, e tornar publico meus beijos.
Hoje resolvi fazer de mim... alegria,
e de você... amor.

Ari Mota