sábado, 31 de dezembro de 2011

PLANO DE VÔO PARA A ALMA


Bom mesmo... foi que inventaram a magia do tempo,
e depois, colocaram dentro dele o extraordinário fenômeno... viver,
e não conseguiram dimensionar a fugacidade da sua existência,
nem a ilusão de que ele não existe,
ou que nada faz, para tudo acontecer.
E assim... embriagamos-nos no engano da espera,
remasterizamos nossos desejos em renovação,
reformamos nossas vontades, e começamos tudo outra vez,
como se tudo fosse ser diferente,
sem talvez iludirmos com o abandono, com a solidão,
e na descoberta... ver que tudo é pura quimera.
Mas, que venham... novos tempos, vamos começar de novo.
E em êxtase brindar os ciclos que chegam e que vão,
e construir um plano de vôo para alma,
encher o tempo de esperança,
e olhar para si mesmo... com mais confiança,
e sempre tomar uma outra direção.
E na dúvida... saltar, atrás de nossas verdades,
sem temer o caos absoluto e este mundo contraditório,
fugir sim... das ideologia, sem fugir de si mesmo,
planear um pulo para dentro, sem negar o descaminho,
voar como se acima do Himalaia estivesse,
mesmo sozinho,
a procura da ousadia de ser livre,
e a coragem de ser feliz.
E depois... planar acima do vôo contemplativo de um Condor,
e em rasantes enlouquecidas,
aterrissar dentro de nós mesmos,
e desvestir o que de tímido,
esquecido,
temos
de
amor.

Ari Mota

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

REINVENTAR OS ELOS COM A ALMA


Quando a dúvida enroscar nos seus sonhos,
agarrar nas suas vontades, como se fora sufocar o grito,
e depois encarcerar o salto, desnortear o vôo, inibir os desejos,
fazê-lo ficar aprisionado no ceticismo de si mesmo,
na incerteza de continuar,
e atemorizado descrer na luta, apequenar-se no combate, e ficar aflito.
Talvez...
tenha que ressurgir... e emergir do nada que tens, e que carregas,
e aceitar que se perdeu na imensidão do medo,
no vazio visceral que renegas.
Você que quis nascer para o mundo...
esqueceu de desabrochar para si mesmo, nascer para dentro.
Agora, terás que brotar em delírios e ter coragem de ser feliz...
e ser você.
Às vezes o que falta é nascer para nós mesmos.
E... há que se ter o vértice para dentro,
e abandonar a exteriorização do intimo, do essencial,
do entranhável, do profundo que se tem pelo existir, e se encontrar.
E em silencio, reinventar os elos com a alma.
Reaparecer em aventura, atrever-se ao risco, brincar de ilusão.
Recriar os acasos, dançar com a dúvida, e rebentar de emoção.
Viver tem que ser um acinte ao medo,
uma provocação ao temor de tudo acabar.
Viver é bailar a beira de um penhasco,
é reedificar os tombos, sacudir as lagrimas... e continuar.
E depois... reconfigurar as perspectivas, e prosseguir.
Crer em si mesmo, na esperança... ter um novo olhar.
E em equilíbrio, reatar os elos com a alma,
e arrancar do peito toda a amargura,
todos os ressentimentos,
e amar.

Ari Mota

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A INTENSIDADE DOS SENTIMENTOS


Há... os que o procuram uma vida, desatinam na escolha,
desvairam na busca, perdem-se nas madrugadas.
E às vezes em desespero, e em desalento,
soçobram no vazio de si mesmo, do próprio sentimento,
e fingem contentamento na frieza estúpida das baladas.
Humilham-se na ilusão do encontro, no avolumar da solidão,
e voltam... dilacerando a calma, em estreiteza... em desilusão,
continuam sós... e em desejos.
Querem um afago, um amasso no portão... e beijos,
precisam de um olhar, de um toque na pele, de rosas vermelhas,
de um declamar em delírios, de um desvario, e de uma flor.
Depois pedem um suspiro enlouquecido, e um corpo aquecido,
uma melodia que verseja emoção, e que fale de amor.
Mas... às vezes ele chega como uma brisa descomprometida.
Invade a alma, aloja-se num canto em quietude,
vem como se fosse perpetuar no tempo, e em brandura.
Agarra de forma visceral em nosso existir, vira ternura.                                      
senta ao nosso lado e toma nossas mãos... em solitude,
permanece em risos pela vida afora.
Outras vezes chega manso... fica ao nosso lado em calmaria,
e depois vira tempestade, ventania,
e vai embora.
E isso, é a temporalidade do amor.
O estado interino de sua efervescência,
o que de fugaz é sua passagem, sua existência.
Em tal caso... não o viva de forma eterna,
mas, enquanto dure... o sinta com toda a intensidade,
com todos os poros, com todo o capricho...
E antes que se finda, e antes que se desabe.
Apenas o tenha com todo o sentimento,
antes que ele acabe.
É preciso ter coragem para amar...
brincar de amor.

Ari Mota

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

NÃO EXISTA COMO SE NÃO TIVESSE GENTE DENTRO DE VOCÊ


Quando descortina a vida... ela vem carregada de nada,
cruza os braços e espera o nosso combate,
fica ali na espreita, fria, nos olhando... indolente.
E o destino joga em nosso colo, o medo.
Uns correm em desespero, outros o encaram,
uns perdem, outros o domam, ou o amansam por uma vida,
e seguem, em frente.
Mas, há os que permitem o seu triunfar, perdem a calma,
a coragem para ser feliz... esvaecem o alento,
o desassombro que permeia na fúria do inusitado, do vento,
e sofrem de solidão de alma.
Não ousam iluminar a si próprio e vivem em desassossego,
faltam-lhe ajustar o foco, em si mesmo,
despejar luz sobre a negrura visceral,
resplandecer em contentamento,
refletir sua verdade num feitio textual.
E luzir para fora, antes de ir embora.
Talvez, faltam-lhes, preencher este vão que carregam no peito,
este vazio que prospera, este olhar fútil que se adultera,
esta inércia que inibe o reconstruir de cada derrota,
e a indolência em desistir na primeira queda,
este medo de refazer o caminho, e redescobrir uma nova rota.
Talvez tenham que aceitar estes sismos, estes tremores inexplicáveis,
esta sofreguidão querendo saltar em soluços, esses tropeços existenciais.
Talvez o que lhes faltem, é romper em ousadia e acontecer,
olhar para dentro, e lá de amor... preencher.
Destilar simplicidade, não ser multidão, não ter no olhar rudeza,
amar o silêncio, as pessoas... e falar somente em beleza,
e nem se achar que em tudo... é o epicentro.
Não exista como se não tivesse gente dentro...
nem amor,
em você.

Ari Mota

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

ABRIGO


Se a rudeza da rua, o incomodar em aflição,
e olhares autômatos passarem ao seu lado,
como espectros em solidão.
Não se assuste, são... desatinos da multidão, extrema cegueira,
assemelham-se no vil, no mísero olhar de desdém,
na desimportância de existir.
Igualam-se no vulgar, no comum dos homens.
Mas os concebam... assim: nem menores, nem maiores,
vieram para ofuscar suas próprias verdades,
e fazerem luzir suas infinitas mentiras.
Estão passando por aqui... apenas, por um acaso,
não vieram para evoluir.
Foram aprisionados pelas crenças religiosas,
e pela esperteza maquiavélica do sistema,
e das políticas mentirosas.
São desesperanças coletivas, de fácil logro e enganos,
amam coisas, moedas, rubis, ficaram... desumanos,
e não estão e nem são livres.
Mas... não se atormente com tudo isso, faça diferente.
Não se esqueça de criar na alma um refugio urbano,
onde você possa entrar todos os dias em calma,
e abrigar ali os seus sonhos, e devaneios,
e em silêncio... brincar de quietude,
e em sossego, teimar em ser feliz,
com todo o destemor
e depois...
olhar para o mundo com carinho,
e para você mesmo,
com amor.

Ari Mota

domingo, 20 de novembro de 2011

PEDAÇOS DA MINHA ALMA


Pensei,
antes de partir... e antes dos adeuses,
deixar um pedaço do meu coração,
e depositar ao lado do seu, em solidão.
Depois achei que era muito pouco,
relutei... e resolvi deixar um beijo ardente na boca,
mas, fugaz era o tocar dos lábios, um enlace banal.
Resolvi abraçar-te como nunca abracei,
com todo o corpo, um toque visceral,
logo vi que talvez... fosse ainda ficar vazios,
como ir sem ficar, como ficar sem partir.
Tive que pactuar com o destino a minha ausência,
ir embora, sem deixar de existir.
Não teve jeito... virei poeta,
coloquei nos versos, pedaços de mim, pedaços da minha alma,
passei a ficar nas palavras, em cada expressão,
do desespero da partida, ficou a certeza da despedida.
Estou calmo e tudo hoje me aquieta,
não estou em desassossego, nem sou mais inquietação.
Só assim, pude te olhar em silêncio,
e tudo hoje é calmaria.
Continuo te amando até o fim... em demasia.
Pensei, antes de partir... deixar um pedaço da minha alma.
Não consegui... a deixo por inteiro com todo o esplendor,
se um dia sentir a minha falta,
dentro dela,
ainda tem
 amor.

Ari Mota

terça-feira, 15 de novembro de 2011

UM DIÁRIO NA ALMA


Depois de tanto tempo, de tantos tropeços, já quase no final,
achei escondido num canto da alma, um diário da minha vida,
fui folheando paginas, revendo as incertezas do acaso... que vivi,
umas com rabiscos de inocência, outras em branco,
outras nem tanto, virei em risos às tímidas,
amarrotei as atrevidas,
mas... não teve jeito, parei nas que traziam traços de desespero,
inda encharcada de temporal,
umas, tinham em esboço, em resumo... vestígios de sonhos,
folheie as que estampavam letras trêmulas de medo,
até que, encontrei em uma delas: um pedido de socorro.
Confesso... tentei passar a borracha em algumas, apagar,
e impossível foi o passado refazer... repaginar.
Mas, na verdade tudo foi... o melhor dos meus ensaios,
das minhas tentativas, foi ali que me tornei o que sou...
pura teimosia,
cresci para baixo, enraizei-me, aprendi a não ferir a mim mesmo,
suportar as ventanias.
Como o tempo tem me furtado o fulgor do riso,
tatuado rugas na pele, descorado o cabelo, e irá um dia me enganar.
Tenho vivido intensamente, sem fugir dos recomeços,
das travessias.
Poucas são as paginas que ainda me restam... somente eu vou relatar,
e restam poucas para o fim.
Tenho em capricho... bordado cada letra, cada sentimento,
cada expressão,
ando desenhando em detalhes o que me resta, em caneta nanquim.
Antes todos tinham acesso ao meu diário, patrulhavam o meu andar,
hoje só eu nele escrevo, faço dele o meu olhar.
Como não envelheci destilando magoas, suporto os abandonos, a dor,
as perdas inevitáveis... e danço em alegria com a solidão.
Hoje no meu diário, transcrevo o que vivo:
Suavidade e calma, busco leveza para a alma,
e amor.

Ari Mota

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

DESAPEGO

Custou... mas, aprendi,
apanhei descomedidamente do destino.
Por vezes até me esfolei ao chão, sem ferir.
Machuquei sem sangrar, e quase fui embora sem partir.
Quando andava de namoro com a juventude... fui colecionando coisas,
a mochila me pesava às costas, incomodava o andar.
O suor vertia-se para dentro... e por um triz, não afoguei a alma.
E não teve jeito... tive que ter coragem para jogar fora os excessos,
e outras tantas coisas... abandonar.
Mas foi pouco... quase nada, inda tinha que redefinir o fardo a carregar.
Um dia, quando envolto a dimensão da minha própria quietude,
percebi que não tinha mais nada para deixar pelo caminho,
e mesmo assim, pesava-me... existir.
Transportava ainda, um passado em desassossego, e o futuro em pavor,
arrastava pela existência... sobras de ressentimentos, e me sentia sozinho,
e inda na mochila, restos de dor.
Mas... eu já estava atrás de mim,
faltava-me desapegar dos meus medos,
e não mais fazer dos meus sonhos... segredos.
Fui pedir carona para a vida, e ser feliz.
E ela me confidenciou em delírios... viver só o hoje, em demasia,
desgarrar-me da estupidez, do disparate da avidez,
desapegar das coisas, e que nada eu levaria.
Desde então... nada carrego, só vento... calmaria.
Na minha mochila tenho umas receitas de amor,
devaneios... poemas... um olhar de esplendor.
Desapeguei de tudo, só não desapeguei de mim,
hoje só tenho na mochila... um par de asas,
sou livre de todas as amarras,
sou assim.

Ari mota

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

UNS CELEBRAM O DIA DOS MORTOS, EU... O DA VIDA.

Demorou muito tempo... quase uma vida.
Disseram-me que tudo finda, desaba em nada, termina em coisa alguma,
vira partículas de terra seca, poeira ao vento... frivolidade.
E que depois de tudo, o tempo apaga o que se construiu,
e arrasa o que se edificou em brandura, o que se fez em candura,
e a fugacidade das horas, iria um dia me destruir,
e o destino em descuido me abandonar,
desprezar o meu existir.
Confesso... corri em desespero, pensei que iria desaparecer,
como uma ventania, achei que viver era quase se acabar.
E assim... fui restaurando as minhas virtudes, o meu acontecer.
Rompi paradigmas, e abri um portal na própria alma,
e ali deixei entrar leveza, finura no olhar em delicadeza.
E nada mais me abalou, aprendi a olhar o mundo com perseverança,
e descrer de todas as verdades.
Passei a enfrentar o destino em silêncio.
E fazer da vida uma arte que se desenha em uma tela invisível.
E pactuei com o tempo... descortinar-me em equilíbrio,
e me permitir caminhar sobre a fronteira da superação e da esperança,
amar em demasia... a todos, à noite, as flores, o dia.
Isso é viver... é existir eternamente.
Viver... é motivo de pasmo, é um estranho estremecer.
E não consegui aceitar que depois de tudo... restava apenas o fim, morrer.
Mas, sou resiliente...
Procuro claridade e inteireza para os que passaram em minha vida,
e plantaram amor.
Estes jamais sucumbem ao esquecimento, morrem.
Somente viajam para viverem outras vidas, com todo o esplendor.
Obvio... que fica um vazio, e quase me acabo de saudade.
Eu os felicito pelo convício que comigo tiveram,
a alegria que em minha alma deixaram,
a vida que comigo viveram, e as batalhas que comigo travaram,
das tentativas que fizemos, e das vezes que sempre achamos a saída.
Uns celebram... o dia dos mortos,
eu... o da vida.

Ari Mota

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

CONSTRUIR A SI MESMO


Se a voracidade da conquista um dia for embora,
e as coisas que amealhou ficar ofuscadas, perderem o brilho,
e o que edificou ao longo da caminhada o entediar em aflição,
causar desprazer, e desenhar vazios no olhar,
e tudo perder a graça, transformar em inquietação.
Se todas as vezes que o crepúsculo lhe vier fazer companhia,
procurar em vão o horizonte, e se ver sentado à beira do caminho,
acompanhado... apenas e tão somente, dá ausência de si mesmo,
e depois... um nó brotar garganta adentro e sentir sozinho.
E mais tarde... bater um cansaço... querer, talvez sumir, talvez fugir,
e em desassossego, o expor lhe incomodar, do mesmo modo o existir.
E, além disso, descobrir-se... achar os seus desacertos,
aperceber suas atitudes em deselegância,
o encarar que ainda tem... de indolente,
e sua frivolidade em arrogância.
Ainda, dá tempo de mudar...
Talvez...
Só... tenha construído coisas, esqueceu de construir a si próprio.
Nada edificou dentro da alma, colidiu com sua inabilidade,
andou vagueando, colecionando futilidade.
Mas, como inda tudo está um vão... ermo, vastidão.
Sacie-se de silencio, farte-se de sentimentos,
coloque ali ternura, plante ali um jardim,
convide umas borboletas azuis, faça amigos,
dance em demasia, em alegria.
Ainda dá tempo de regar corações,
ser feliz, viver todas as emoções.
Faça diferente... não dê uma coisa, uma jóia,
apanhe dentro de si mesmo, da alma... uma flor.
Se não conseguir ter mais que isso... para presentear,
tenha apenas... para os outros...
um olhar de amor.

Ari mota

sábado, 15 de outubro de 2011

ILUMINAR A PRÓPRIA ALMA


Óbvio será...
não permitirem romper a escuridão de si mesmo,
iluminar a própria alma,
afoguear o seu candeeiro e sair clareando o seu caminho.
Visível também será... o encarcerar do sonho, o impedir do vôo,
o podar do grito, não consentir o seu brilhar sozinho.
Haverão de restringir os saltos, provocar o medo, o que acalma,
e definir que o seu retiro, o seu isolamento... é pura solidão.
Será... arremessado, as estatísticas, ao homem massa,
irão mapear o seu trajeto, esculpir o riso em dor,
lagrimas em pingente, em objeto.
Depois, em nome de um ceticismo descabido:
proibir o arder do amor,
e o enlouquecer da paixão.
Mas... é preciso ter coragem para ser feliz, até o fim,
mesmo quando os outros... detestem –  vê-lo assim.
Transgrida, desobedeça aos paradigmas, acenda a sua luz interior,
diferencie, distingue-se... da multidão.
Depois... brilhe... dance com sua liberdade, em cortesia,
ria, olhe o mar, obedeça as loucuras que chegam em alegria,
ou refugie-se, na mais alta... das montanhas,
e salte por cima dos abismos imaginários, ame em demasia.
Corra, sinta o vento... pressinta você, a sua intrepidez,
cintile harmonia, destile sensatez.
Toda luz vem do equilíbrio da alma,
do olhar que suaviza, das mãos que tocam em calmaria.
Devolva em mansidão o que lhe ofertam em gritaria.
Evidencie o seu luzir para o mundo, para o universo,
seja uma referência, um lenitivo,
para o desespero dos que vivem na escuridão.
Seja um norte, em noites de ventania.
E ao meio de uma tempestade, seja... um farol.
Ilumine-se por dentro, e resplandeça para fora,
ilumine a sua estrada, e a dos que vagam em indecisão.
Revele-se em amor,
exista...
como o sol.

Ari Mota

domingo, 9 de outubro de 2011

RETOCAR OS SENTIMENTOS


Quando menino, achei que a vida iria me ofertar a direção,
e que era só seguir um roteiro, ou trazer no bolso, um manual.
E fiquei ali na esquina do tempo... a espera de um destino,
inequívoco foi, que só encontrei ventania, temporal.
Tive que agarrar aos desafios, as desventuras, ao recomeço,
fui me acomodando ao desconforto da perda, da solidão,
fui me aquietando a invasão do tempo, ao sumiço da juventude,
e tudo foi crescimento, aprendi a tirar da vida o que ela não oferece,
arranco dela... os meus ensaios, as minhas tentativas,
provo todos os sabores, enxugo às vezes... todas as lagrimas,
engulo em silêncio as minhas derrotas,
e emudeço com minhas vitórias,
são meus exercícios, minha vicissitude.
Sei... que me foi à robustez do corpo, e sem prantos,
quando nos entardeceres, um vazio rompe de dentro,
atormentando a calma,
e o peito embrutecido apercebe um vão despegar a alma,
e um vácuo quebrantar em desassossego e me furtar à quietação:
Retoco os meus sentimentos, jogo fora outros tantos,
e depois... abro outros caminhos, outros horizontes,
ando desprendendo das vaidades, despregando das coisas,
substituindo valores, redefinindo o fim... os amores.
Retoco tanto o que tenho por dentro, reinicio-me a todo momento.
Garimpo dentro de mim coragem para ser feliz,
caminho ao acaso em busca de equilíbrio, sensatez.
Retoco os meus sentimentos, os corrijo em demasia,
hoje sou menos desespero... mais calmaria.
Ando retocando, reinventando os meus afetos,
e como aprendiz... sei que a grandeza da vida são os detalhes,
hoje já não busco sem prudência os aplausos,
nem a fugacidade da evidência, do glamour,
nem tão pouco, os altos píncaros... sou mais planície,
ando em devaneios com a singeleza.
Retoco os meus sentimentos em busca de beleza,
e amor.

Ari Mota

domingo, 2 de outubro de 2011

FUGAZ É O TEMPO

Sentado naquela rua descalça, nos confins das gerais,
despercebido, não conseguia mensurar a fugacidade do tempo,
quase que efêmero foi à meninice, quase que me fugiu o sonho.
Mas, um dia em metáfora, sentado na plataforma da estação,
esperando o trem... fiz dele a minha vida.
Espiava as chegadas em risos, os abraços precisos,
os beijos ardentes, os afagos comoventes, o choro de emoção.
Depois, abalava-me com as partidas: os adeuses, as lagrimas perdidas,
as dores, os vazios de alma... as renuncias em solidão.
Mas, tudo aquilo era um fascínio, um encantamento,
deslumbrava-me, era um insólito salto, uma linda travessia,
alucinava-me o ir embora, o desconhecido, outro vento.
Mas de tudo... o que mais me tocou, bateu fundo,
esmurrou a alma em desespero... não foi chegar, nem partir,
não foi nem a tristeza dos acenos, nem o silencio do olhar,
nem a ternura do encontro, sentindo a distancia acabar.
Na verdade, já menino, e na descoberta... sem se iludir,
e no sentido figurado, a maior desilusão,
é não conseguir chegar a tempo, perder o trem na estação.
Óbvio, foi que tive que arrumar as malas e seguir o meu caminho.
Sempre estou chegando, sempre estou partindo,
às vezes e sempre chego sorrindo, muitas... parto sozinho.
Mas, são viagens, são tentativas, cresço a todo o momento,
aquele trem, aquela estação... foi mais que um passado.
Hoje... não espero o destino me conceder nenhum prazo,
antecipo até as minhas emoções, sou feliz hoje.
Estou sempre pronto, chego primeiro sempre,
abro a porta da minha alma, e antes que entre o ódio, coloco ali amor,
instalo equilíbrio, antes que descortine... desespero,
sorriso antes que manifeste a lágrima, beleza antes da estúpida rudeza,
se não posso dar coisas, ofereço uma flor.
E assim aquele trem, não só me ofereceu carona,
direcionou o meu destino, o que trago por dentro.
Passei a amar em demasia o que me resta e o que sou.
Sei que sou um poeta tímido, meio que ultrapassado,
faço poesias, versos sem rima, falo de amor, para não chegar atrasado.
Ando saltando profundamente,
em cima dos abismos, onde escondo os meus medos,
e tudo é esperança, nada são descrenças.
Ainda assim... corro tanto, atrás de vida, de exemplos, do que tenho,
aceito o que é meu, e dos outros nada desdenho,
nem as diferenças.

Ari Mota

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

AS ESTAÇÕES DA ALMA


Um dia espiando a vida, procurando respostas,
ao meio das incertezas da meninice.
Deparei com um espectro sentado ao meu lado.
Segurava em minhas mãos, era pura meiguice,
olhava-me ternamente,
pura, um virginal abrigo, doce, inocente.
Quieta ficou ali... como se me roubasse o desespero,
e me revestisse de calmaria.
Caminhamos por dias, anos até... em silêncio.
Abraçava-me em noites de solidão, e eu a ela,
arrancou do meu peito o medo, e dos meus olhos a agonia.
Um dia disse-me, que se chamava: alma,
e que seria para sempre minha companheira.
Um iria necessitar do outro num processo cíclico do existir,
e que a coragem seria até o fim, nossa energia.
Eu e ela pactuamos... suportar os temporais, resistir.
Em uma tarde, nesses dias de recolhimento, de refugio, sozinho,
ao meio da natureza, e por analogia,
e na descoberta, vi... que também em mim sucede as estações,
e tudo se renova, se recompõe, se revela em beleza, e outros caminhos.
E desde então, fiz dos meus invernos um retiro existencial,
arquivo minhas vitórias, brinco com minhas derrotas, medito em remanso,
olho a vida com mais ternura, é o tempo que aqueço a alma,
e com ela... em devaneios, danço.
Quando chega o outono, vou colher os sonhos que plantei em demasia,
varro as folhas secas, recolho os frutos que caíram com a ventania.
Mas, vê que aproxima o verão, e como adquiri coragem para ser feliz,
corro na chuva, nos vendavais... abraçado com minha alma e a alegria.
Todas as estações são fundamentais, cresço por dentro,quando elas passam,
mas... só uma me fascina, me alucina, me acelera.
Encontro as borboletas de flor em flor,
bailarinas loucas... dançando na praça, com toda a graça,
em desejos... a procura do amor,
são tempos da sedução, dos ninhos em construção,
da primavera.

Ari Mota

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A AUSÊNCIA DO SONHO DEGENERA A ALMA


Se fores acometido por um vazio estranho,
e uma desorientação invadir o seu existir...
E perdido achar que lhe subtraíram o tempo, o espaço,
e depois... não encontrar o horizonte e dele se distanciar.
E como se não bastasse romper de dentro uma estreiteza,
uma irritabilidade permanente, quase não agüentar,
e um desespero aflitivo, uma impaciência sem igual,
fazer tudo tornar-se tormento, um infinito temporal.
Saiba, não é ausência de fé... mas de sonho.
E entre eles... existe um abismo que os separam.
A fé não traduz a sua absoluta verdade, nem sua essência,
apenas e tão somente... uma crença,
em outros princípios que não são os seus.
Sonhar... é com se retirasse da alma a robustez da vida,
a energia que manifesta, que libera a consciência,
a coragem de não interromper o caminho.
Sonhar... é querer ter coisas,
sem ficar aprisionado na materialidade delas,
ter êxito sem escravizar-se aos títulos,
nem exibir-se com as honrarias.
Sonhar... vez por outra, aperta o peito, em solidão,
nas madrugadas, e sempre... morre-se de medo, de frio,
querendo um colo, um afago,
sentindo a brandura da carne, a morbidez da noite,
e o andar sozinho.
Sonhe... todas as fantasias, até as impossíveis,
não fique sentado na calçada do seu mundo,
esperando ao acaso, o destino lhe ofertar a sorte,
nem o trem do sucesso, parar para você subir.
Fundamental é exercitar os sonhos, se sacudir.
Só ele, manterá a sua originalidade,
o fará renascer a todo instante,  
e não morrer fragmentado de outros.
Quem sonha retarda a dor,
reconstrói as emoções, aprimora os desejos.
Talvez, falta-lhe... sonhar em demasia,
quem incorpora o sonho aos seus caprichos,
está... a um passo das suas conquistas.
Não espere... salte profundo nos seus ensejos,
a ausência do sonho degenera a alma,
desconstrói o amor.

Ari Mota

terça-feira, 13 de setembro de 2011

TEMPORAL

Foi como um temporal,
quase que imperceptível,
vivi quase que sem perceber o sentido da luta,
as batalhas foram assustadoras,
os dias passaram sem inicio e sem fim,
as noites mal dormidas... foram para descansar o corpo,
a alma necessitava de repouso, e eu não percebia.
As pessoas passavam como o vento, quase nem as notei,
o mundo mudou diante dos meus olhos, e não o vi.
As horas eram minhas terríveis inimigas, eu tinha pressa,
afoito quis mudar o mundo, as pessoas.
Atormentado dizia sim aos outros, e não a mim.
Atropelei as minhas vontades, tropecei nos meus desejos,
abri janelas que sempre me mostravam o nada,
e fechei portas que me levavam direto ao meu coração.
Caminhei por becos, vielas, avenidas e sempre a procura,
foram tantas as caminhadas,
esqueci... de encontrar comigo mesmo,
e de repente o meu eu necessitava de uma companhia,
que por incrível que pareça era o meu equilíbrio,
que eu não conhecia.
E quando o tempo iniciou a pintar meus cabelos,
a minha alma apareceu reclamando moradia,
percebi que não era a temível velhice,
mas docemente a experiência... batendo em minha porta,
e como uma eterna inquilina, apossou-se do meu ser,
e como numa entrega... fez-se dona da minha vida.
São quase 60 anos,
pode ser uma vida ou apenas o inicio dela,
mas a vontade de estar em quietação,
é indubitavelmente o que aprendi nesta inevitável existência.
Hoje... danço enlouquecido ao meio dos temporais,
salto livre... embriagado das dúvidas que ainda tenho,
e sem medo.
Brinco em devaneios com as ventanias,
sem jamais sentir-se no abandono, sozinho.
Parei o tempo... sou calmaria,
espio a solidão da noite e a minha.
Não tenho pressa, nem o fim me assusta.
Quando os temporais chegam dilacerando a alma,
resisto... insisto, cresço por dentro, sem ruir,
teimo em ser feliz,
amo existir.

Ari Mota

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

GENTILEZA


Se... um vazio em desesperança, continuar apertando o peito,
como se arrancasse do olhar o brilho, do andar os sonhos.
Se... tiver que provar o sabor do desespero e vigiar o riso,
e depois engolir a seco a solidão... perdido e não saber aonde ir,
não conseguir contemplar a maravilha que é... ser feliz, existir.
Talvez...
Será preciso... descobrir que tudo é finito,
e antes, que tudo acabe, tudo pereça sem você perceber,
deva sair... e olhar as pequenas coisas, a beleza comum,
imergir em uma nova maneira de viver.
Conceber o dia... com mais poesia,
descobrir que além do arco-íris tem... também alegria,
e ter um olhar gentil para o mundo, para você.
Saiba, sua abordagem diz tudo sobre o seu caráter.
Só por um dia... pare o seu mundo:
Mas, antes de apear-se dele, deixe nele algumas coisas:
E que sejam... só coisas, nada mais.
Abandone o relógio, a agenda, a voracidade financeira,
a impetuosidade do consumo, a soberba social.
Deve até esquecer algumas esquisitices, a sua chatice,
a sua infinita psicopatia que esconde, e acha que é normal.
Depois...
Dispa-se... das vestimentas, desvestida as máscaras,
desfaça os disfarces... saia com os pés descalços pelo mundo,
abra a carne e arranque dela a sua alma, retire-a deste casulo.
Faça-a, fluir desvairadamente ao infinito de você mesmo,
encontre-se, antes que perca a lucidez.
Ouça docilmente as pessoas, uma musica, sinta cada instrumento,
perceba um pássaro no jardim, e todos... cada gesto,
inclusive os seus... ria dos seus excessos, beleza incomoda,
a ausência dela também... mas ria... ria,
ria demasiadamente, brinque com a sua timidez.
Mas, se porventura fugir o sol, conte os pingos da chuva,
se não cair a neve que tanto gosta, observe o vento que toca sua pele,
maravilhe-se com o botão, mas deslumbre com o desabrochar da flor,
encante com as crisálidas, mas enlouqueça com o voar das borboletas.
Quando voltar ao seu mundo real, mude.
Coloque nele gentileza... um bom dia... um muito obrigado.
Experimente o amor.

Ari Mota

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

DESCONFIGURAR A ALMA


Quando pela madrugada, a insônia acomodar-se... ao seu lado,
e lhe vier fazer companhia, e de súbito encontrar-se sozinho,
olhando para a tela fria de um computador,
e a solidão encostar como uma amante desvairada no seu ombro,
assentar descomprometida em seu colo, em desalinho,
afagar seu rosto e confidenciar que te ama,
e lhe chamar de amor,
pode e deve entrar em desespero, se não suportar a dor.
Solidão é sentir o que não mais existe, é presenciar a ausência,
às vezes de si mesmo.
Mas, se uma lagrima rolar fase abaixo, num mergulho visceral,
e o soluço incomodar o silêncio que você precisa,
e um ardume brotar peito afora, dilacerando a calma.
É hora de desconfigurar a própria alma,
revisar o que assimilou, construiu, conceituou.
Tente historiar o próprio existir,
óbvio... terás que voltar, sondar o passado.
Remover... magoas, ressentimentos,
repaginar os sonhos, desmistificar os medos, e voar.
Pode ser para dentro... dentro de você mesmo, e te encontrar.
Tens na verdade... repartido seus vazios com os outros,
e agregado os deles... aos seus caprichos,
tens acessado a impolidez virtual, e as neuras coletivas,
e aceitado a estúpida descortesia dos que querem nortear seu rumo,
seus vôos.
Remova todo e qualquer resíduo de incerteza,
e ao desconfigurar a própria alma, por analogia,
formate-a criando uma nova interface, entre você e seu destino,
talvez lhe falte o risco de substituir a rudeza,
e ter um olhar para o mundo e para você mesmo, com mais delicadeza.
A fugacidade do tempo pode transformar tudo em agonia,
e sozinho... na madrugada, olhando em solidão para o monitor,
talvez, e possível é, olhar para a própria alma,
e colocar nela... mais,
amor.

Ari Mota

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A CORAGEM DE SER EU


Quando o brilho da meninice espelhava avidez nos meus olhos,
preparei-me para a guerra, para os conflitos sem fim.
Bem que minha coragem foi e é fruto das espadas que afiei,
bom mesmo foi que apenas temperei o corte, as afinei para a luta,
mas nunca as utilizei na incisão insana, nem sangrei a carne,
somente as guardei dentro de mim.
E por um bom tempo... fiquei indefeso,
vivi escondido em uma rua descalça... na solidão das gerais.
Temia... me perder se ultrapassasse a esquina da minha rua,
em cautela voltava sempre correndo... o inusitado me atemorizava,
presumia em alucinação ser vencido pelo caminho, que extenua.
E em desespero fazia do medo um refugio, do meu quarto um abrigo,
fiquei apavorado com o mundo, com a avenida desconhecida,
com a praça esquecida, com os becos adormecidos e outras vicinais.
E assim o destino um dia me empurrou ao acaso, em descortesia,
não tive outra saída, arranquei de dentro... toda a agonia.
E na descoberta, vi que de bárbaro nada tenho, sou apenas um poeta,
combato apenas com a escrita, uma gramática discreta.
Quando o ofuscar da meninice foi embora,
e o existir, esfolou-me a alma, arranhou o sonho,
fiz de mim um crescer, um ser que se aprimora.
Tudo foi muito lento, mas, aprendi que vencer é a arte da teimosia.
Atrevido, tive um olhar para fora, em demasia,
depois, ternamente olhei para dentro... de mim, delineei outros lugares.
Saltei os muros que moderavam os meus vôos, e inibiam os meus olhares.
Avistei outras existências, novos paradigmas e maravilhei-me com tudo,
rompi o temor de me perder, joguei fora as armas, o escudo.
Eu, que quando menino temia me perder na própria rua,
já fui um cidadão do mundo... hoje, tornei-me um ser universal.
Envelhecido, aprendi a amar o que sou,
ter a coragem de ser eu,
como não ficarei aqui para sempre,
de mim... só o amor será imortal.

Ari Mota

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

ANGÚSTIA

Se ao descortinar do amanhecer...
Sair provocando magoa no riso, sisudez no olhar,
e desaperceber a essência das coisas e das pessoas, entristecer.
E em vez de pasmar ao desassombro do existir,
maldizer a vida que se renova a cada despertar.
E em êxtase não viver o instante, como se fosse o último,
e em súplica, só pedir... em vez de agradecer.
Talvez...
Quando, ao sair de casa... não apercebeu que na esquina,
alguém lhe espiava,
na espreita, tomou-lhe o equilíbrio em assalto,
esvaziou-lhe os sonhos, esgotou a sua intrepidez.
E hoje... se notar um vão abrir e deixar um buraco no peito,
e um nó brotar garganta adentro, deixando tudo estreito,
pode ser um atentado, ou a solidão agarrando-lhe em altivez.
Saiba...
Certamente, você foi acometido pelos reflexos das tuas angústias,
feriu, ulcerou em silêncio a alma,
do sol fez escuridão... do destino, desilusão.
Não conseguiu separar o choro das lágrimas,
nem o passado do presente, soluçou desmedidamente.
Não musicou o pranto, nem dele fez uma melodia,
nem as lágrimas... transformou em brisa, em alegria.
Abandonou o combate, não teve coragem de ser feliz,
ficou no abandono de si mesmo.
Estreitou-se na ousadia, no recomeço, no medo de errar,
não suportou as pancadas que o destino iria um dia lhe entregar.
Se ao descortinar do amanhecer...
Uma inquietação lhe vier fazer companhia... isso é angústia,
dói sem ferir, machuca sem sangrar, nasce sem parir.
E não terás outra saída, a não ser... iludir a própria vida,
rir em demasia, renunciar aos perigos em fantasia,  
saltar no abismo das incertezas... com todo o destemor.
E depois... ouvir os bem-te-vis, voar com as borboletas azuis,
dançar com uma louca bailarina, olhar a todos e tudo com carinho,
e para si mesmo...
com amor.

Ari Mota

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

UMA PROPOSTA PARA AS DORES DA ALMA


Nada adiantará destilar as dores da alma... para o mundo,
imprescindível é desfilar com pertinácia o seu destino,
suporte este ardor que passeia dentro do peito, querendo sair.
Pode ser uma angustia descomprometida... um medo sem medida,
uma saudade de outra vida, uma vontade de fugir.
Se, contudo... nada adiantar, não a estampe no rosto,
nem a distribua... nem na cama, nem na rua.
Pode até afogá-la no próprio choro, ou esconde-la no próprio pranto,
mas, jamais a atire ao vento, ou a banalize em desencanto.
Que tenha todas as dores, e que sejam instrumentos do crescer,
e que fiquem ai dentro, nessa sua consciência íntima, até morrer.
Nada adiantará... destilar ao mundo suas dores, elas são suas,
talvez seja preciso... e tão somente,
fazer do silêncio um refúgio, da solidão um abrigo,
e que você mesmo... encontre uma saída.
Desvincule-se dessa massa débil que vaga sem saber aonde ir,
repartindo em caprichos seus desarranjos, seus desconcertos.
Basta... estanque esse seu desespero,
abandone essas mascaras invisíveis presas à cara,
desaposse dessa morbidez de alma, dessa tristeza no andar,
despoje essa insolência que carregas no olhar.
Há que se diferenciar dos outros... não necessita ser o primeiro,
nem carregar um selo de autenticidade... basta ser verdadeiro.
O mundo não quer saber das suas dores, ele aguarda suas propostas.
O universo te observa, te olha com fervor.
Proponha um novo caminho, reinvente os sonhos,
uma nova reengenharia de si mesmo,
destile harmonia, reenvie singeleza... equilíbrio.
E para os que te olham com desdém,
fita-os demoradamente, e em silencio... vá embora,
mas, antes... devolva-lhes um sorriso
de amor.

Ari Mota

sábado, 6 de agosto de 2011

DELÍRIOS DE UM POETA


Às vezes me desvisto dessa lucidez...
Dispo-me da embriagante ilusão do tempo, e te procuro.
Às vezes te olho... e te vejo menina,
outras vezes te busco, e te espero.
Não sei conceber-me sem você... que me fascina.
Ando sempre à procura daqueles momentos de loucura,
que guardei na alma e ficou perpetuado na foto envelhecida.
Sinto falta da doidice juvenil, dos desatinos da juventude,
da postura atrevida.
Tempos de devaneios...
Transpunha todas as barreiras e iria ao seu encontro.
Saltaria em dúvida... e em todos os abismos,
em busca do inusitado, dos meus desejos,
e depois... a procura dos seus afagos e dos seus beijos.
Eu sei, são delírios de um poeta em solidão.
São palavras soltas ao meio de tanta emoção,
não consigo voltar... nem viver esta aventura,
ficou difícil tomar em meus braços, o seu encantamento.
Tive que entender a distancia que nos separa,
redefinir a sua ausência.
Hoje tenho a sua presença apenas num espectro, em uma figura.
Às vezes te olho, e te vejo menina, que passou como o vento.
Outras vezes te busco, e te encontro em outro formato.
Às vezes me desvisto dessa lucidez... e a descubro,
em desvario, vagueando nos meus sonhos,
ou estampado na tela fria de um monitor ingrato.
Entre eu e você existe o tempo que nos afasta,
e a frieza estúpida de um retrato.
Mas, tudo é alucinação de um poeta,
que anda aqui dentro, dentro da alma, dentro de mim.
Mas, não tenha medo,
te amo...
mesmo assim.

Ari Mota

domingo, 31 de julho de 2011

O DIREITO DE ERRAR


Confesso errei em demasia... provei muitos desacertos,
enganei-me em diversas encruzilhadas, me perdi em diversas estradas.
Quase fui vencido pelo abandono dos sonhos, quase desisti de mim.
Mas, todos os erros estavam revestidos de inocência,
e eu na verdade...  só procurava os acertos.
Houve um tempo, que não compreendia os meus erros,
em fúria... tive uns ataques de loucura,
andei desdenhando o meu próprio andar,
não suportava o desencontro, o desassossego... a desventura.
Por vezes, inventei... redesenhar os meus vôos e vivê-los sem fim,
saltei algumas vezes em desespero, em busca de respostas,
desconhecia o meu direito de errar.
Tentei até uma nova reengenharia para o meu caminho,
o que eu queria era delinear uma nova trajetória, e voltava sempre sozinho.
Nada suavizou as quedas, continuei destilando os meus sacrifícios.
Um dia despertei assustado, minha alma em solavancos, gritava,
mas, como tudo passa... até o meu desalento virou calmaria,
resiliente, assumi os imprevistos do meu existir, entendi toda a agonia.
E cai-se muitas vezes, levantam outras tantas, são as tentativas do viver.
Também pudera, a vida é acometida de ensaios... não conseguia entender.
Só depois de envelhecido que percebi o quanto ensaiei, caí e levantei.
Fiz dos meus erros, alicerces, fundamento... fui me construindo,
passei a ser eu, a conceber tudo como crescimento,
hoje venho edificando o meu equilíbrio, o meu rumo,
ando aperfeiçoando os meus gestos, os meus saltos,
falo com candura, olho com brandura,
mudo as palavras, dito-as de forma amena, sem mudar o sentido,
não agrido, nem firo, nem ofendo os que erram como eu,
sustento a calma.
Errar... legitima o risco e enaltece a alma.

Ari Mota

segunda-feira, 25 de julho de 2011

OS NÃOS DO MEU CAMINHO


Quando deparei com o mundo,
inda escondido nas Minas Gerais dos meus sonhos.
Confesso, a timidez fazia-me companhia,
assustei com o tamanho do caminho, com a longa estrada.
Acanhado, muitas vezes escondia... temia expor a natureza da minha alma,
corri dos convívios, quase fiquei insocial, em agonia.
Carregava espanto nos olhos, desespero no riso,
mas pudera, eu era diferente, atrevido... já fazia as minhas escolhas.
Nunca aceitei o segregar social... sempre fui livre no que verbalizo.
Visível foi... que tudo aconteceu com mais rigidez,
mas, quando o destino despejou em mim os nãos do existir,
achei que não suportaria o peso, quase fui à queda... superei em solidez.
Queriam imprimir a negativa do vôo, e cercear minhas vontades,
vi que todos vigiavam a todos, para que ninguém sobressaísse dos demais,
como sempre tive um olhar para dentro, e de mim mesmo,
sobrevivi aos vendavais.
E assim assisti que tudo não era permitido, fui bombardeado pelo proibido,
recebi tantos nãos, que um dia resolvi conhecer o inusitado,
era essencial que sonhasse, soubesse o barulho do tombo.
Até que um dia encontrei uma única asa caída ao chão,
tomei distancia para o salto, e fui... mesmo ouvindo o não,
de tudo, algumas coisas ficaram: ousadia e solidão,
depois... bem depois dos combates... sobrevivi e aprendi:
Que... para os pessimistas o não é um destino,
para os otimistas o não é um sim.
Mais, para os que transcendem o medo do não,
tudo é puro estímulo, desafio.
A vida é uma provocação.
Fui viver...

Ari Mota

quinta-feira, 21 de julho de 2011

ALÉM DAS ESTRELAS


Quando o fulgor da inocência brincava com os meus sonhos,
eu já dispunha de um olhar para as estrelas,
minha ingenuidade já indagava quem as acendia em noites de luar.
Perplexo sentia o sopro do conhecer, ávido queria saber,
e tive que abandonar as mentiras, o ceticismo que queriam me sujeitar.
Vivi espiando o infinito, andei a procura dos segredos celestiais.
E assim cresci olhando para os céus... em observações,
memorizei alguns nomes, sei... até onde ficam as constelações.
Mas... tudo era pouco, e eu necessitava de muito mais.
O universo é uma grande morada, viagens astrais,
eu que sempre acreditei na raça humana,
não poderia desdenhar outras raças celestiais.
Sei que lá estão, ou que podem até estar chegando,
vivem ali depois do firmamento... e é conceitual,
não são delírios, nem tão pouco devaneios de criança,
creio na sua existência, embora saiba da sua distância.
Apaixonei-me pelas estrelas, e pelo que tem depois,
como não fui navegador para tê-las como referência,
nem astrônomo para estudá-las, tê-las como ciência,
virei aprendiz de poeta... e nelas fui passear,
em espanto e na descoberta, vi que não estamos sozinhos,
pretensão se estivesse...
Hoje e depois de tudo, já tomado de lucidez envelhecida,
falo de moradas além das estrelas, de raças que desconheço,
sou princípio, espaço paralelo, partículas de ousadia, começo.
Quando faço vigília no universo sei que já partiram,
não... não estão atrás de nossa tecnologia, nem de nossa riqueza material,
nesta área somos até primitivos,
buscam outros valores... que ficaram esquecidos,
eles tornaram-se autômatos, esvaziaram a alma, mecanizaram a emoção,
esqueceram a essência do afeto, a graça do riso,
a sutileza do olhar, o embriagante perfume da flor.
Outras raças... além das estrelas estão chegando,
querem embriagar-se de todos os nossos sentimentos,
estão vindos em busca de algo, que lá... já extinguiu,
e que ainda, aqui... em ruína, encontram:
Amor.

Ari Mota

domingo, 17 de julho de 2011

A ÚLTIMA PRECE

Eu que no princípio e por vezes, e em súplica... em prece, pedia ajuda,
eu que alterei tanto que até a alma quase soçobrou desnuda,
eu que me agarrei ao destino, e nele acreditei,
e não tive outra maneira... nem bruta, nem amena,
de viver as experiências que passei,
e as vivi intensamente... óbvio que teve e foram noites de agonia.
Mas, tudo teve seu curso, fluiu aos solavancos,
sobrevivi as prolongadas tempestades em busca de calmaria.
Com o decorrer do tempo tive que sintetizar a minha vida,
podei as intemperanças que rondavam os meus caprichos,
abreviei... os discursos que falavam de enganos,
recopilei as minhas verdades e redefini os meus planos.
Fiquei seletivo, aperfeiçoei-me nas escolhas,
encurtei os desesperos, restringi os medos, conjecturei os riscos,
condensei na alma o meu grito, sem perder a voz no que acredito.
Eu que assustava com o imprevisto, passei a aturar os combates,
suportar a exaustão do caminho, e a desilusão dos debates.
Eu que no princípio e por vezes achei que era só pedir, implorar.
Abandonei a espera... a fatigante condição de vítima,
coloquei na estrada a minha ousadia, e saí... meio que sem destino.
Evidente que fui ao chão... varias vezes, em desatino,
mas escapei a inércia, resisti às derrotas, ao descaminho.
Sobrevivi as minhas próprias dúvidas, a mim mesmo.
Estou no tempo da brandura, da instigante quietação,
hoje o meu existir já não é um tropeço,
de tudo que decorreu, foi-me o tempo do pedir,
neste instante, só agradeço.
Fiz de mim candura, do meu olhar mansidão.
Todos os dias... como não sei, se é o derradeiro, oro em gratidão,
faço minha última prece... por que tudo valeu, sinto-me alentado,
faço minha última oração,
e de uma única palavra:
Obrigado.

Ari Mota

domingo, 10 de julho de 2011

ELEGÂNCIA


Quando a juventude acariciava os meus sonhos, e era tempo de aprender,
saí em desespero e em busca de elegância.
Cismei que a encontraria no encanto do porte ou na maneira de trajar,
até usei os adornos da moda, desfilei com as tendências da época,
alonguei-me na gíria, alterei até a maneira de falar.
Mas tudo era sazonal, fugaz como vento,
e eu necessitava de algo que durasse por mais tempo,
e que perpetuasse na minha postura, no meu existir.
Poderia ser... uma vida, talvez,
ou apenas residir para sempre dentro da minha alma, em solidez.
Não tive êxito, não consegui ser reflexo de alguém,
precisava ser eu, senhorio das minhas vontades, do meu aguerrir.
Mas, um dia... no mais puro acaso, na mais linda descoberta,
e como o tempo se esvai...
passei aperceber os gestos, o olhar de ternura, de amor... do meu pai.
E eu que não o compreendia, e nem o percebia... o via, como solidão,
descobri que a sua elegância... residia no seu silêncio, na sua mansidão.
Ele falava com os olhos, expressava com brandura,
seus movimentos eram de um maestro, ouvia todos com doçura,
orquestrava as relações, recebia a todos no singular... até os desiguais,
nunca o vi... vociferar em rancor descontentamento, nem ódio,
tinha um sorriso maroto quando não concordava, ia embora em quietude,
ouvia as histórias dos mais velhos, e também os devaneios da juventude.
Era gentil em demasia, era tomado de simplicidade o seu dia,
jamais tolheu os vôos individuais, nem a franqueza de expressão,
retribuía o riso, era solidário na dor, sua elegância estava na atitude.
Tinha apreço pelos desvalidos e deferência aos que viviam em solidão,
viveu assim, ao meu lado... tinha um olhar de gentileza,
em tempo nenhum o vi fazer perguntas pessoais, ou outra indelicadeza.
Vez por outra achava que pertencia a uma nobreza,
era um cavalheiro, não dava para confundi-lo com outro, era distinto.
Era sublime a sua alma... olhava-me ternamente... com calma.
Eu que procurei elegância... a recebi como herança.
E aprendi, que se não conseguir ofertar uma flor:
abrir uma porta, um sorriso.
Ser mais tolerante... elegante com a vida,
falar mais de amor.

Ari Mota