sexta-feira, 2 de setembro de 2011

DESCONFIGURAR A ALMA


Quando pela madrugada, a insônia acomodar-se... ao seu lado,
e lhe vier fazer companhia, e de súbito encontrar-se sozinho,
olhando para a tela fria de um computador,
e a solidão encostar como uma amante desvairada no seu ombro,
assentar descomprometida em seu colo, em desalinho,
afagar seu rosto e confidenciar que te ama,
e lhe chamar de amor,
pode e deve entrar em desespero, se não suportar a dor.
Solidão é sentir o que não mais existe, é presenciar a ausência,
às vezes de si mesmo.
Mas, se uma lagrima rolar fase abaixo, num mergulho visceral,
e o soluço incomodar o silêncio que você precisa,
e um ardume brotar peito afora, dilacerando a calma.
É hora de desconfigurar a própria alma,
revisar o que assimilou, construiu, conceituou.
Tente historiar o próprio existir,
óbvio... terás que voltar, sondar o passado.
Remover... magoas, ressentimentos,
repaginar os sonhos, desmistificar os medos, e voar.
Pode ser para dentro... dentro de você mesmo, e te encontrar.
Tens na verdade... repartido seus vazios com os outros,
e agregado os deles... aos seus caprichos,
tens acessado a impolidez virtual, e as neuras coletivas,
e aceitado a estúpida descortesia dos que querem nortear seu rumo,
seus vôos.
Remova todo e qualquer resíduo de incerteza,
e ao desconfigurar a própria alma, por analogia,
formate-a criando uma nova interface, entre você e seu destino,
talvez lhe falte o risco de substituir a rudeza,
e ter um olhar para o mundo e para você mesmo, com mais delicadeza.
A fugacidade do tempo pode transformar tudo em agonia,
e sozinho... na madrugada, olhando em solidão para o monitor,
talvez, e possível é, olhar para a própria alma,
e colocar nela... mais,
amor.

Ari Mota

4 comentários:

MARIANGELA BARRETO disse...

Oi Ari,

Desconfigurar a alma na melancolia profunda da tua poesia, é resgatar a chama gêmea perdida nos sonhos desfeitos,para acalentar o coração, afastando a agonia, iluminando o aqui, o agora eternamente.
E somente com amor isto é possivel,porque solidão,como eu a vejo, é principalmente ausência de si mesmo,o verdadeiro desamor!

grande abraço,
Mariangela

Denise disse...

Concordo com nossa amiga Mariangela, a solidão [de alma] é um vazio existencial que denuncia a ausência de si mesmo como Ser consciente de Si.
A transformação ocorre em nós desde o dia da nossa chegada até o último da existência terrena - e ainda assim, talvez não estejamos prontos...

Mas para manter o teu jeito incrível de falar do desenvolvimento evolutivo do nosso Ser, essa revista ao passado sana os conflitos internos a partir da compreensão e desapego de tudo aquilo que é necessário. Essa integração do Ser nos coloca face a face com a realidade que somos, e aí o sentido se desenha com clareza e imensa serenidade. Caminho longo e bem difícil, mas como nunca estamos sós na caminhada...bem-vinda sejam as lições!

Um ótimo fds pra vc, querido.
Bjo

Sonia Pallone disse...

Nas madrugadas, todas as imagens se reconstroem com as tintas de um novo dia... Beijo grande, querido Ari, tenha um lindo final de semana.

claudete disse...

Você é um herói de si mesmo se consegue neste momento fitar a tela do computador, a composição desta bela reflexão é a prova incontestável da sua capacidade de reconstrução. Amei Ari!