terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O XAMÃ E O POETA



Acordei assustado...
vinha de dentro do peito uma batida que não era do meu coração,
uma batida cadenciada, de repente... senti uma dor imensa na alma,
dor de saudade, sentimento perdido no tempo, perdido em outras vidas.
Entendi ser sons de atabaque num ritual afro em noites enluarada,
depois achei ser sons de Taiko em madrugadas de neve, em terras nipônicas,
senti um vento gelado trazer entre nevoas, sons celtas em noites chuvosas,
depois confundi com a suntuosa cadência do Olodum, em dias de sol.
Na verdade minha alma, deixou escapar sons de outras existências,
maravilhei-me com aquele tambor em minha alma...era meu lado primitivo.
O tambor dava-me acesso através do ritmo à força da vida... ao meu principio,
através dele viajei por outros mundos, era uma ponte entre a terra e as estrelas,
e o caminho que me permitiu viajar no centro do mundo, no coração da mãe-terra.
Nas minhas descobertas, me achei em um Xamâ, em busca de resposta, de amor.
Aquele som vinha do passado, época de procura, de busca, de desencontro, de dor,
vez por outra uma lagrima brotava lá de dentro da alma... era de saudade,
amores desfeitos, olhares perdidos, camas vazias, noites silenciosas e frias.
Os tambores... as vezes soam dentro da alma, uma angustia surge nos olhos,
vidas passadas, escondidas, nutrem um som imaginário no meu peito.
Em pranto volto a mundos imaginários, vidas desconhecidas, sem nome.
De guerreiro tornei-me um escritor.
De selvagem transformei-me em lucidez.
De primitivo tornei-me sonhador.
De Xamã virei poeta...

Ari Mota

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

LOUCURA



Se uma linda canção te acordar pela manha, levante sorrindo.
Mas, se ao lado de sua cama, uma bailarina louca, te convidar para dançar,
e se seu quarto for tomado por um bando de borboletas... todas te olhando,
e na transversal um arco íris cobrir sua cama... toda desarrumada,
e sua voz embargada, não conseguir dizer não... não se assuste.
Isso é loucura...
Somos acometidos vez por outra desses devaneios, dessas doces fantasias.
Mas, não estranhe tais aparições, são coisas da alma... ela brinca conosco.
Nos leva a sonhos absurdos, mundos imaginários, sensações diferentes,
faça o que nunca fez, entregue-se a loucura, estenda os braços...
levante para o sonho, sinta o perfume da insensatez... só por um dia.
É um presente que sua alma lhe oferece, ela tem visto seus combates,
isso tudo, é pra quebrar a sua sisudez, você perdeu o sorriso, o brilho,
esqueceu a alegria no bolso do seu paletó, no último cabide do guarda-roupa.
Tem saído para viver um dia lindo de sol, com guarda chuva e galocha.
Mas, dance, se preciso um dia inteiro, e será aplaudido por todos,
pelo menos eu e as borboletas vamos espiar aquele beijo maluco,
que vais roubar daquela bailarina louca...ame, apaixone-se...
Toda paixão tem um pouco de loucura, e toda loucura é uma doce paixão.
Enlouqueça só por um instante, dance para a vida...dance para você.
Surpreenda o mundo com sua alma enlouquecida, estamos enfastiado de almas enfurecidas.
Viva uma loucura... uma unica vez...



Ari Mota



domingo, 3 de janeiro de 2010




Hoje encontrei um amigo... tem um semblante austero, aparência sóbria, mas é um menino,
e ele relatou-me sua doença...está na sétima quimioterapia, adoeceu o corpo... não
 a alma.
Tem suportado o tratamento, como um bravo guerreiro, e o conheço de tempos,
e sei de sua extrema coragem, teve longos combates, jamais sucumbiu as cobranças
 da vida, 
e jamais receou recomeçar seus dias e suas noites, e sempre defrontou as
 adversidades,
trava uma batalha a cada segundo... tem pactuado com sua alma...nunca um abandonar o outro.
Na sua pureza existencial, na fragilidade momentânea, confessou-me estar com medo,
entende que sua fé não é do tamanho que necessita para atravessar esse temporal,
tem percebido ondas gigantes bater em seu barco, e o casco frágil pode não
 suportar,
suas velas já rasgadas pelos vendavais pode não impulsioná-lo ao final da viagem,
e que sua bússola vez por outra tem rumos alterados, desaparece o norte... o
 porto.
Hoje encontrei um amigo... tem uma fé incomensurável e não sabe, desconhece.
Quando se diz não possuir, é na simplicidade reforçar o ter na plenitude.
Sua fé é do tamanho do seu silêncio, teve uma vida reta, pautou sempre na verdade,
o universo certamente conspirará na sua permanência entre nós.
E sua jornada terminará, somente quando chegar o fim, e o fim pode ser sempre
 amanhã.
Portando, não consegui ter muitos adjetivos, verbos ou substantivo, para com ele.
Sua fé, embora questionada é do tamanho da sua alma... e sua alma é imensa.
sua vida é o agora... ele docemente vive o hoje... com fé.

Ari Mota

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

SUPERAR



Há em você um corpo e uma alma, zele por eles com toda a intensidade.
Se fores exercitar em uma academia, o faça com desvelo, cuide-se,
como não temos uma para a alma, sugiro que a leve para o silêncio,
acredito ser o melhor lugar para resguardar tamanho tesouro.
O corpo e a alma, operam simultaneamente em nossa existência, é a nossa vida.
Em 1984, nas olimpíadas de Los Angeles, a maratonista Gabriela Andersen,
deu-nos exemplo disso, ela detinha a sintonia entre corpo e alma,
em um dado momento da corrida, o corpo esmoreceu, foi ficando pelo caminho,
seu corpo subjugou-se ao calor, sua perna direita endureceu, não suportava mais,
e como se não bastasse seu braço esquerdo pendia molemente ao seu lado.
Os espectadores e eu ficamos perplexo, o corpo pedira ajuda a alma,
vimos com regozijo um socorrer o outro, a alma carregou o corpo até o final.
Ela certamente não venceu a corrida, mais bravamente chegou... foi mais que uma vitória.
Portando para superarmos as adversidades de nossos dias, do nosso cotidiano,
os combates que travamos, nossos recomeços, nossas derrotas e vitórias,
temos que sistemicamente manter corpo e alma, um amando o outro, eternamente.
Temos que alimentá-los substancialmente, em essência e desejos.
Exercite seu corpo, mantenha sua alma em silêncio, um sempre ajudará o outro.
E você irá superar os obstáculos que a vida vai lhe impor.
Supere... de corpo e alma.
Verás que entre querer e o limite, existe uma fronteira tênue entre corpo e alma.
Superar... não é só vencer... é estar em todos os combates... é existir.


Ari Mota



quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

UM NOVO CICLO




Tem um novo ciclo aproximando de sua existência, não desvie dele,
é hora de deixar os bastidores e se apresentar no palco da sua vida.
Há espectadores na platéia, o teatro não está vazio, haverá de ter aplausos,
não desperdice a chance de brilhar para o mundo, para a vida.
Há dentro dessa alma valores invisíveis, talentos ocultos, pura magia.
Não deixe a pagina da sua história em branco, rabisque nela sua essência.
Faça uma assepsia na sua alma, a reboque, pinte-a novamente, renove-a,
jogue fora os entulhos que guardou, os ressentimentos que ficou.
Há um novo ciclo chegando, restaure os seus amores, reinvente seus abraços,
refaça os sonhos, os caminhos, tudo esta dentro de você, de sua alma.
Tenha um novo olhar sobre sua trajetória, sobre seus anseios e planos.
Abandone todo e qualquer sentimento de medo, de indecisão.
Dê um ultimato as incertezas, é preciso ter coragem para ser feliz.
A fugacidade da sua vida não lhe permitirá permanecer na duvida,
insista...faça de sua passagem por aqui, algo maravilhoso, esplêndido.
É agora...
Não basta ser diferente... o universo o quer melhor.
Feliz...

Ari Mota
 





terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O MEU SILÊNCIO



Tenho percebido uma quietude maior de minha alma,
parece que uma nevoa silenciosa cai sobre mim.
O meu eu, foi tomado pela solidão da própria existência.
Estou em paz...
O meu grito transformou-se em um leve sussurro, só eu me escuto.
Estou em conversa comigo mesmo, com minha essência.
Estou em silencio...
Gritei, pelos quatro ventos, ninguém me ouviu, não obtive eco.
Renunciei ao murmúrio do mundo, ao vozerio das pessoas, calei-me.
Decidi viver sem ter ressonância dos conflitos imaginários, sem conjecturar.
Abandonei a avaliação das coisas e pessoas... pela infinita contemplação.
Vivo com os olhos, contemplo o sol no nascente e no poente, espero a lua chegar.
Percebo as crianças que passam, rosas vermelhas que brotam, e a beleza do mar.
Tomei caminhos de consciências e ideais libertários, fiquei livre...
Abstive da interferência demasiada no destino e caminhos que não eram os meus.
O meu silêncio só não é maior, porque ainda, e vez por outra, ouso um ruído,
são ondas de sangue que pulsam, tangem dentro do peito, querendo viver...
Vivo de forma intensa... todos os meus sentimentos, sou aprendiz de mim mesmo.
Abraço enamoradamente minha alma, bailamos no salão da vida, apaixonadamente.
Passei a viver em silêncio...
Só pra me encontrar...

Ari Mota

domingo, 27 de dezembro de 2009

UMA LINDA MULHER




Em retrospectiva, convivi com quatro gerações de lindas mulheres,
todas com belezas distintas, valores de época, e sonhos de amanha.
Umas só banhavam-se, outras o faziam com perfumes, outras já eram perfumadas.
E elas despontavam pela vida, como uma flor que desabrocha no mais lindo jardim.
Traziam o sorriso enigmático da feminilidade absoluta, riam pra mim.
Mais entre si... encontrei abismos invisíveis, existências diferenciadas.
A primeira geração foi minha Avó, passou entre nós como parideira, chocadeira,
teve muitos filhos, eram tantos tios que não sei o nome de todos, são muitos.
A segunda geração foi minha Mãe, a via sempre como lavadeira e cozinheira,
sabe fazer seus quitutes como ninguém, são doces inigualáveis, saborosos.
A terceira geração foi minha esposa, mãe exemplar, tem seus filhos entre as asas,

os amam com tamanha intensidade, que os incomoda, os sufoca... e eles adoram.
A quarta geração é minha filha... não tem nada das demais, é ela e seus sonhos,
no intimo feminino quer filhos, quer amá-los, alimentá-los e não dispõe de tempo.
Independeu-se... escolhe seus amores, tem seu próprio vôo, seu próprio andar.
Encontra-se na fronteira do poder masculino, sabe decidir, escolher, comandar,
sem perder a sutileza e o aroma de uma rosa, de uma flor, brilha como uma estrela.
De todas as mulheres que descrevi, eu na verdade tenho uma preferência: todas.
A ultima geração é o equilíbrio do amor, da convivência, da continuidade,
tem todas as qualidades das demais, sem perder a liberdade... a ousadia,
devemos não temê-la... só nos basta... amá-la incondicionalmente.
Ela é uma espécie rara de rosa, que brotou em nossos jardins.
Ela é o amor.

Ari Mota

sábado, 26 de dezembro de 2009

VENCER




Pense grande...
Se fores... um aventureiro, sair floresta adentro como um bandeirante,
não garimpe turmalinas, procure encontrar as esmeraldas.
Se fores... alpinista suba a sentinela de pedra, o Monte Aconcágua nos Andes,
apenas como parte de seu aprimoramento, depois, almeje chegar ao rosto do céu,
lá pelas bandas do Himalaia... alcance o topo do mundo, o Everest.
Se fores... um velejador, treine na lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio,
mas prepare seu barco para enfrentar o Atlântico, rumo ao velho mundo.
Se fores... um atleta não esqueça que um milésimo de segundo, um apenas,
vale mais que uma hora, para quem quer chegar e vencer.
Comece agora a ser o melhor, cresça, desafie o seu destino.
O universo só lhe cobrará, se você não tentar... e ele nunca lhe dará limites.
Reinvente seus vôos, seus sonhos, amplie o horizonte da sua alma, agora.
Seja o melhor no que faz, vença todos os dias, em todas as circunstâncias.
Conquiste, sem humilhar o vencido... supere, sem menosprezar o derrotado.
Ao amealhar suas coisas, o faça sem as subtrair de outrem.
Saiba usar jóias sem ostentá-las, que elas sejam apenas um adorno a sua beleza.
Que seu dinheiro não seja instrumento de poder, apenas resultado do trabalho.
Que saiba respeitar os subalternos, os indivíduos e suas diferenças,
e principalmente entender que os outros também vencem, não os inveje.
Pense grande...mas, descubra a grandeza das pequenas coisas, observe,
as borboletas... tenha amores, sinta o vento, o sol, e o perfume das flores.
Mas, que nessa trajetória vença com humildade, suba no topo, comemore,
não deixe ser acometido pela vaidade...ela poderá ofuscar sua vitória.

Ari Mota

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

RENASCER



Que neste natal façamos diferente.
Que tenhamos coragem de reconstruir o bem.
Ele habita dentro de nossas almas.
Que o presente não seja uma coisa,
seja indelevelmente um sentimento.
Preferencialmente um afeto, e que seja eterno.
Que a fugacidade da matéria, não sobreponha ao amor que nos falta..
E que por muito tempo possamos explicitar nosso carinho,
e que nossa benignidade possa pulverizar o mundo.
Nada adiantará amar as pessoas somente em Dezembro,
a solidão é mais longa, esta mais distante, e as diferenças também.
A fome não ocorre uma só vez, é uma necessidade orgânica e eterna,
e muita das vezes ela tem outro sentido... fome de justiça, de ética e respeito.
A adversidade da raça humana é infinita, nossa luta também o é.
E efêmero é esboçar afeto no natal.
Que saibamos compreender o ciclo natalino,
na verdade ele permite sazonar a alma, e faz florescer o amor.
Não dê uma coisa, ofereça um abraço, um sorriso, estenda um olhar amigo,
respeite as individualidades, o livre arbítrio, contribua com a felicidade dos outros,
faça a sua parte como pessoa, como cidadão,
julgue menos,
faça mais,
fale menos,
ame mais,
sorria,
cante,
encante.
Renasça...
Comece agora... a ser melhor.

Ari Mota

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

OS MELHORES DO ANO





Pediram-me para promover os melhores do ano, sai pelo mundo,
estive, nas Américas, Oceania, Ásia, África, Europa, e até nos pólos, não os encontrei,
resolvi procurá-los em cenários estranhos que pareciam sair de sonhos surrealistas,
fui das florestas de pedra de Madagascar ao lago de sal boliviano solar de Yuni,
depois passei no campo de golfe do diabo, vale da morte, USA, e voltei.
Numa noite de insônia, resolvi procurá-los na rua onde moro, os achei.
O melhor Ambientalista do ano era meu vizinho, eu não sabia, não o conhecia,
um jardineiro de primeira, tem um Bonsai, e a anos o rega com carinho e amor.
Na casa em frente, escolhi o Escritor do ano, poeta, escritor de noites frias, solitário,
o seu melhor poema chama-se Liberdade, de tamanha sensibilidade, só tem o título,
deixou a pagina em branco...como sempre acreditou na liberdade,
não poderia impor suas palavras a ninguém, hoje todos escrevem abaixo de seu título.
Adiante, eu encontrei o Advogado do ano, nunca antecipadamente julgou alguém,
e sempre colocou a justiça antes das leis, e errou menos, libertou mais, aprisionou menos.
E excetuando Oscar Niemeyer, tínhamos na rua também o Arquiteto do ano, um visionário,
projetou um país justo... moradia, educação e trabalho para todos, chama-se Utopia.
Mas o Economista do ano, foi um assalariado, ganha o mínimo, que para o governo é o máximo,
reside na outra quadra, ninguém sabe seu nome e de seus filhos, nem o convida para um chá.
E em frente à casa do economista, mora um Engenheiro, que recebeu o de Engenharia,
cansado da álgebra linear, voltou-se para calculo estrutural, e projetou uma ponte,
ela faz ligação entre a alma e o corpo, há quem queira transitar nela, eu sou um.
O premio de Medicina ficou com o vizinho que reside no casarão da esquina,dizem,
que ele tem feito algumas curas, sem cobrar as consultas, e não fornece receituário,
fala diretamente com a alma das pessoas, cuida da alto estima, dos sonhos, do amor.
Mas o maior premio, o da Paz, ficou com um andarilho que é nosso vizinho, mora na rua,
passa sorrido todos os dias, traz com ele algumas borboletas, um cão e a felicidade.
Os escolhi por que nunca procuraram os holofotes e suas obras falam de loucura e amor.

Ari Mota

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

AUSÊNCIA



Nos fins de tarde, quando chegava em casa, ele estava na varanda a me esperar,
era um abraço que não acabava, as vezes eu até pedia para parar, incomodava.
Excedia no carinho, no afago, sabia o meu perfume, e conhecia o meu olhar.
Sentava no sofá, e calado ouvia minhas lamurias e desabafo, e imóvel ficava.
Eu sempre o tive como um confidente, sabia dos meus segredos, dos meus medos,
ele me olhava ternamente, e eu a ele, nosso amor transcendia o entendimento,
depois saíamos para caminhar, e ele sempre ali ao meu lado, o meu guardião.
E sempre, e todas as vezes, eu lhe contava o meu dia, repartíamos tudo,
minhas incertezas, minhas angustias, minhas gargalhadas e conquistas.
Ele festejava a minha volta, o meu retorno, eu sempre e nunca me senti sozinho.
Quando a vida por vezes me pressionava, ele era minha proteção, me amava.
Certa vez, adoeci, fiquei por dias na cama, ele ficou ao meu lado, o tempo todo.
Ele era discreto, só me ouvia, o fiz, o meu muro de lamentações, ele adorava.
Certo dia estava enraivecido com o mundo, cheguei e lhe fiz um grande discurso,
estava inconformado com as diferenças e as injustiças, estava possesso,
ele só não me aplaudiu, por que assim que terminei, não teve jeito, chorei,
e ele chorou comigo... ficamos em silencio o resto da noite, não dormimos.
E quando ia para os meus combates, ele no portão, me desejava sorte.
Eu seguia confiante, eu tinha alguém para no final do dia, ouvir minhas historias.
Um dia, ele não estava na varanda, o encontrei no sofá...dormindo, um sono eterno.
Corri, busquei um veterinário...
Ele teve que partir...cumpriu o seu papel, perdia ali o meu amigo PUSK.
Ele era mais que um cão...
Hoje quando chego, a varanda está vazia... sua alma continua ao meu lado,
vez por outra, percebo uma lagrima no chão, inadvertidamente ele a deixa cair.
Que falta ele me faz...

Ari Mota

sábado, 19 de dezembro de 2009

ABRA A PORTA




Sabe o que você precisa fazer... abra a sua gaveta e retire a chave,
abra o porão onde você aprisionou sua alma, liberte-a agora.
Faça com que ela corra livre, quanto tempo a deixou intolerante,
a inibiu em ver o mundo, as diferenças, os caminhos e descaminhos.
Talvez por excesso de zelo, não a deixou sentir o frio, e os vendavais,
não a deixou sentir o medo da solidão, estradas solitárias, vazias.
Liberte-a agora, não há mais tempo, ela precisa sentir a dor do amor,
a ausência do abraço, o brotar de lagrimas que caem face abaixo.
É agora, o tempo da escolha, deixe-a dançar livre nos bailes da vida,
não determine horário para chegar ou sair, deixe-a seguir o vento..
Que ela possa dançar na chuva, beira mar, em qualquer lugar.
Provavelmente irá na descoberta, não deter-se mais as diferenças,
perderá o olhar critico, não distinguirá mais cores, credos, ideologias.
Apertará a mão, sem ver o anel nos dedos, abraçará sem identificar o perfume.
Olhará nos olhos, sem ver as perolas no colo, nem os rubis nos brincos,
e ao encontrar alguém, não observará a roupa de seda, ou a pulseira de ouro.
Amará todas as pessoas... as afortunadas, as nem tanto e as miseráveis.
E verá uma única diferença entre elas... a infinita individualidade de cada uma. 
Liberte-a agora, sua alma carece de um dia inteiro de silencio, deixe-a só.
Ao amanhecer abra a porta, deixe-a sair, não mostre o norte, nem o sul..
Irá desbravar o mundo, conhecerá outros universos, voará livre.
Transforme-se em porto, um dia ela voltará...

E ao voltar, em seus braços contará suas desventuras e venturas,
soluçará em seu colo, e dormirá encostada em seu peito, forte.
E perceberá que valeu ter vivido uma vida de combates.
Liberte-a que ela voltará.

Ari Mota

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A VIDA EM UM SORRISO




Caminho todas as manhas de forma habitual... e feliz.
Nas minhas manhas encontro com vários tipos, diversas personalidades,
uns correm, outros andam simplesmente, uns em silêncio,
outros ouvindo algo, já encontrei um que estava dançando sozinho.
E muitos passam por mim falando, talvez com a própria alma,
uns de preto, outros coloridos, magros, obesos, outros nem tanto,
sempre encontro os desesperados, os calmos, os solitários como eu.
Nos últimos meses, duas senhoras de forma e expressão antagônica,
passam por mim...e não pude deixar de percebê-las:
A primeira, ar sisudo, olhar introvertido, andar abstraído,
traz em sua mão um terço, ora desesperadamente, ferozmente.
Passa por mim, e não me vê, e por diversas vezes procuro o seu olhar,
não os encontro, são olhares de arrogância, gestos vaidosos,
manifestação presunçosa... como se Deus fosse sua propriedade,
e que somente ela o representa nesta fugaz vida terrena.
Passa e não percebe as pessoas, os pássaros, em fim... o mundo.
Tem uma manifestação facial carregada de ódio, desdém,
parece-me que traz na sua personalidade aversão ao encontro.
A segunda, foi acometida de alguma doença, tem uma paralisia,
sente dificuldade de locomoção, e tem o uso de uma bengala.
Mas, caminha... sorrindo, traz consigo uma revoada de borboletas,
em vez do terço segura firme a bengala, não acena com as mãos,
o faz com um sorriso, aberto, livre, sem mácula, aventuroso.
Celebra a vida, sem tê-la na íntegra, olha tudo e todos, brilha.
Aprendeu que a vida é uma existência imprevisível, vive em um sorriso.
Sorri pra vida, para as pessoas, para o mundo, e para ela mesma.
Quando a encontro é minha melhor oração do dia.

Em seu sorriso encontro... paz, perseverança e Deus.

Ari Mota

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O TREM E A ALMA



Quando despertava para vida, eu tinha duas metades,
e um dia na plataforma da estação, numa destas partidas,
a vida levou uma delas, e quando o trem apitou lá curva,
ainda deu tempo da despedida.
E a que foi embora, era a revolução, e ela prometera mudar o mundo,
mudar as pessoas, revolucionar os direitos, fortalecer os deveres,
distribuir melhor as coisas, educar os homens, conservar a natureza,
e assim o trem a levou, quase não deu tempo de dizer adeus.
E a outra metade, ficou com o estalar dos trilhos,
o repique do maquinista no apito, as badaladas do sino,
um lagrima que sutilmente ficou no chão, e a estação ficou só,
e metade de mim também.
E até hoje clamo pelo retorno, sem a outra metade fica difícil viver,
o trem a levou, foi como um seqüestro.
Metade de mim era revolução, e numa destas tardes cinzentas,
ela parece que fugiu naquele trem, e ainda, e como se não bastasse,
até hoje aquele sino da estação soa indelevelmente na minha alma,
maldito trem, até hoje não voltou, metade de mim foi embora.
E sempre estou ali na estação, a espera... sempre a espera.
E quando olho lá na curva, a ilusão me abraça,
e até o apito vez por outra, soa...
Mas a estação esta vazia, como a minha alma.
Já não vejo a bilheteria, o telegrafista, o guarda freio,
o mestre de linha, o feitor, e nem tão pouco o chefe do trem.
Levaram metade de mim...
O trem já não volta mais, a estação vazia, minha alma também.
Metade de mim o trem levou, certa vez cheguei a pensar,
que a metade que foi embora naquele trem,
se enroscou com o meu amigo “che”, mas sei que não deu tempo.
Mesmo assim, vez por outra, vou a estação, vejo fantasmas,
e de mim mesmo.
Porque metade de mim é revolução, e a outra também.


Ari Mota

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O ESPELHO




Não esqueça que no final do dia terás que olhar no espelho.
Não esqueça que poderá reconstruir todas as coisas... menos a palavra.
Não esqueça também que a vida será sempre um eco... tudo voltará.
Portanto, procure as palavras para a abordagem, fale suavemente,
dê preferência as palavras que não machuquem, não saia ferindo,
não grite, se porventura tiver que gritar, que seja de alegria,
não faça de suas palavras uma arma que fere, sem sangrar,
use-a de forma singela, fale de amor, fale de tolerância,
caso não tenha mais o que falar...no silêncio tem-se todas as palavras.
E a vida sempre nos devolve o que não lhe pertence, ela imita o mar.
Não deseje desventura para outrem, não espalhe desafeto, desamor.
Procure não desconstruir os sentimentos, a alma de alguém.
Viva sua vida, conspire a seu favor, ao seu crescimento.
Não esqueça que no final do dia terás que olhar no espelho,
se tem por costume dissimular, usar o disfarce para existir,
o espelho sempre no silêncio da noite, tem o hábito de nos assustar.
Portanto, caso não queria ver as mascaras que usou no dia,
tire-as ao entrar para dormir no final de suas noites, essencial,
não fitar repentinamente sua face no espelho, pode não te encontrar.

Ari Mota

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A MENINA AMOR





Phan Thi Kim Phuc é a menina da foto...
Em 1972 sua aldeia foi atacada pela irracionalidade humana, 
correu desesperada para um templo, ele também foi bombardeado.
Na época ela tinha 9 anos de pura inocência, desconhecia o ódio.
A bomba de napalm atingiu 65% do seu corpo... não queimou a alma.
Correu junto com seu irmão para a vida e sobreviveu, ao horror dos homens.
Ficou 14 meses internada e fez 17 cirurgias, as cicatrizes ainda doem na pele.
Hoje ela tem 45 anos, certo dia entendeu que não poderia mudar o passado,
e resolveu atuar no presente, ela é ativista de direitos humanos da UNESCO.
A catástrofe daquele dia destruiu muitas vidas, a maioria inocente, puros,
a barbárie humana ceifava almas, destruía sonhos, dizimava amores,
foram momentos de medo, padecimento atroz, incompreensão.

A estupidez humana tentou em vão, desconstruir uma alma,
ela é símbolo dela mesma, uma sobrevivente da sua própria força.

Sobreviveu ao desamor, a incivilidade, conheceu a insolência do adulto,
e tinha motivos para jamais acreditar na vida, no futuro e na verdade.
Como as bombas não queimaram sua alma, a deixaram por inteira,
ela disse: “ ESTIVE NO INFERNO E PERCEBI QUE, SE MANTIVESSE
O ÓDIO, NUNCA SAIRIA DELE “.
A imprensa fez de Phan Thi Kim Phuc um símbolo da Guerra do Vietnã, 
ela fez dela... amor.


Ari Mota

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O PREDADOR



Na praça percebi a chegada de um colibri... lindo voar, 
um bater de asas que expressava uma infinita liberdade,
veio para uma abordagem, para sugar o néctar de uma linda flor,
o fez, e num vôo em reversão, tomou seu rumo, e foi embora,
não tateou e nem feriu a flor, ela permanecera como estava.
Logo após, tem-se a chegada de uma abelha, para colher o pólen,
a colheita fora sutil, fragmento por fragmento, um cuidado sem igual,
afastou-se em prece, levara num vôo veloz a vida para toda uma colméia.
Quase que se encontraram em vôo, a borboleta aterra na flor,
confundem-se belezas, fundem-se nas maravilhas de um arco-íris.
A natureza festeja, dançam: colibri, abelha, borboleta e eu.
E o universo em festa faz brilhar com mais intensidade o sol.
Vê que de repente...
Um passante toma com as mãos a linda flor, a decepa, e a lança no chão.
A perplexidade toma conta de todos nós, revela uma aflição, uma dor.
Em lagrimas, colibri, abelha e a borboleta desaparecem rumo ao infinito.
Na inocência foram questionar o criador... por que a tamanha brutalidade?
Depois de um bom tempo, voltaram felizes, sorridentes, brilhantes.
Dirigiram-se a outras flores, reiniciaram tudo novamente,
desta feita, com mais intensidade, mais entrega, mais amor.
Disseram-me que o criador... disse-lhes que todas as criaturas são livres,
são possuidoras de vontade própria, podem dizer verdades e mentiras,
amar e odiar, rir e chorar, apreender e ou permanecer na escuridão,
construir caminhos ou se perder na própria existência.
Colibri, abelha e a borboleta continuaram fazendo a sua parte, sua história.
Uma história de harmonia, beleza e invariavelmente de amor.
Atravessei a rua, fui para a minha casa... em silencio.

Achando que pela primeira vez, o criador omitiu, iludiu aquelas criaturinhas.
O homem pode ter vontade, tem o livre arbítrio, só não pode destruir,
e se o faz, torna-se pequeno, menor, um predador.


Ari Mota


domingo, 13 de dezembro de 2009

LIBERTAR A ALMA




Quando do meu rompimento para a vida, recebi um corpo e uma alma.
E ao longo da caminhada tive que edificar duas grandes obras.
O destino inda foi complacente comigo, me permitiu decidir,
e disse-me que o corpo seria finito e a alma persistiria eternamente,
e diante disso teria que construir duas moradias para a minha alma.
Coexistiram assim dois caminhos a percorrer, aprisionar ou libertar.
Na juventude decidi construir um presídio, guardei minha alma lá.
Foram ao longo dos anos, entrando naquela cela minúscula,
o preconceito... que adormeceu ao meu lado e no chão, por vários anos.
Depois a arrogância ficou nos meus pés, dia e noite, sem trégua.
E logo em seguida a iniqüidade, que num canto da cela, olhava-me.
Como a vida me permitira decidir, inferi o engano, o falso, a ilusão.
Numa noite de nevoeiro, sorrateiramente fugi, cortei as correntes.
No dia seguinte, logo pela manha, como ainda me restava material,
dei principio, a uma grande e ultima obra, a obra da minha vida.
Na montanha mais próxima, construí em aclive, uma rampa,
a ultima e derradeira morada da minha alma, a chamei de Resiliência.
Meus vôos são diários e até noturnos, não me permito, não voar,
e são minhas companhias: a sensatez, o equilíbrio e o caráter,
mais também lançam-se no ar, e ao meu lado, a felicidade,
a liberdade, algumas bailarinas loucas, e as borboletas.
E somos todos livres...temos um pouco de ternura e loucura,
Nossas acrobacias embelezam a nós e ao universo, somos felizes.

Meus vôos levaram-me ao encontro da humildade, e ela,
ensinou-me a vencer em silencio e perder sem ser humilhado.
Passei a construir e a doar Asas, a quem habilitasse a voar,
Descobri uma multidão ávida para voar livre e profundo.


Ari Mota

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

UM LIVRE AMOR




Eu não a quero como empréstimo, uma coisa que devolve,
não quero tê-la com a obrigatoriedade de restituição.
Não a quero como uma coisa, um objeto banal,
um sentimento lacônico, um ficar, uma breve emoção,
um talvez, um beijo conciso, um olhar de curta duração.
Eu a quero livre, sem proposta, sem troca, sem dar ou receber.
Que possamos conjugar nossas almas, nossos dias e noites.
E que nossa convivência não crie ressentimentos,
que não ajam subterfúgios na hora da verdade.
E que cada um saiba reverenciar os desejos e sonhos um do outro.
Que vivamos sem desculpas evasivas, crises existenciais.
Não a quero pra mim...
Eu preciso que fique ao meu lado, a vida toda.
Sem perder a vivacidade do estilo, e o brilho que lhe é peculiar.
Mas, preciso que permaneça sem amarras, sem correntes.
Quando me abraçar, e meus braços envolve-la... te aquecer.
Não lançarei âncora, para nunca zarpar sem destino.
Quero que voe, que decole a qualquer hora, qualquer dia,
que suas asas possam pulsar quando bem entenderes.
Não quero presa a mim, nem eu a você.
Se um dia resolver ir embora... vá me amando...
Só preciso que me ame.
E eu à você.



Ari Mota



quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

SENTADO NA PRAÇA



Eu sempre volto ao meu passado, sempre volto a minha cidadezinha,
Ontem passando por lá, avistei um amigo de infância sentado na praça.
Recordei de antigas conversas, antigos medos, de antigas frustrações.
Ele, enquanto vivíamos juntos, transbordava hesitação em viver a vida.
Não amou, como medo de não ser amado, fugiu do risco da entrega,
tinha pavor da incerteza do talvez, não sentiu o calor de uma outra alma.
Não casou com medo de ser abandonado, resolveu sentir o frio da solidão,
tinha receio de roubar um beijo, e sentir o suor da outra pele em desejos.
Não esboçou um abraço, um afago, não deu carinho e nem recebeu.
Parece-me que se abraçou tanto, que não soube abrir suas próprias asas.
Não saiu de lá, com medo de se perder pelos caminhos e não saber voltar.
Ficou sentado na praça...
Quando sentei ao seu lado, buscamos à memória, surgiu nossas historias,
abri o livro da minha vida, por analogia, a minha não foi melhor que a dele,
nem a dele melhor que a minha, cada um viveu a sua vida, teve sua trajetória.
O que na verdade nos diferenciou foi as paginas do livro da minha vida,
cada folha que passava estava repleta de palavras, parecia um rascunho,
como sempre andei no limite do risco, errei muito, usei muito a borracha,
apaguei, rabisquei, desenhei, projetei, retirei algumas paginas,
amassei outras, enfim tentei tantas vezes que perdi a conta, nunca desisti.
Estou escrevendo a minha historia...
O meu amigo não quis abri o livro da sua vida...acho que está em branco.
Estamos envelhecendo, eu e ele, nossos cabelos já estão brancos,
nossas rugas já acentuadas tornaram-se visíveis no rosto.
Notório é a manifestação do tempo... em mim pela luta, nele por medo.

Ari Mota

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O NASCER DE UM AMBIENTALISTA


Haverá um tempo que nossas ações serão julgadas,
e nenhum tribunal provará a inocência do homem.
Nossa torpeza, nossa voracidade pelo vil metal,
nosso pseudo avanço tecnológico, nos colocará como réus..
O universo não conspirará a favor da raça humana,
estamos viciando nosso habitat, lesionando o ecossistema,
e colocando em demanda a natureza.
Somos predadores, cínicos, inexatos e pretensiosos.
Tornamo-nos assassinos em série, tiranos,
nossa imbecilidade imortalizou-se.
No inicio matávamos pelo prazer da conquista, do poder.
Hoje caracterizou-se que somos o único ser, que mata por ódio.
Barbarizamos nossa própria espécie, e como se não bastasse,
estamos em escala gigantesca alterando nossa biodiversidade.
Somos assassinos...
Matamos nossos pássaros, nossas borboletas,
devastamos nossas matas, poluímos nossos rios e mares,
destruímos nossas plantas, e maculamos nosso ar.
Somos pretensiosos...
E ainda escrevemos na história que somos semelhança de Deus.
Essas foram as palavras proferidas por um ambientalista,
a beira de um igarapé em São Miguel da Cachoeira,
uma região conhecida como cabeça do cachorro,
e também sabida, como um vazio cartográfico, um nada.
Sejamos realista...
Lá, só estava o ambientalista e um índio.
E o índio da etnia werekena, desconhecia o português.

Ari Mota

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

OS DEUSES ESTÃO SURDOS


Tenho um habito estranho, procuro sempre um templo para orar,
e todas as vezes que nele adentro, procuro encontrá-lo vazio,
minhas preces são voltadas para o silêncio, para a serenidade,
procuro calar-me, abstenho-me de falar, aflora meu lado taciturno.
Silencio-me diante da alma, tento recorrer a mim mesmo.
Durante uma vida procurei Deus, e o encontrei no silêncio.
Ele fez moradia dentro da minha alma, construiu ali um templo.
Vivo assim, como somos vizinhos cada um respeita o silêncio do outro.
Passamos um pelo outro a todo momento, a toda hora, por toda a vida.
Entre nós não existe obediência, submissão, temor...
Eu não tenho medo dele, nem ele de mim, acordamos ser livres, eu e ele..
Em um fim de noite, eu e ele estávamos na varanda olhando o luar,
Perguntei-lhe? Porque os Deuses estão surdos.
A sua sapiência o fez gargalhar o resto da noite, sem parar.
Já sabia o porque da pergunta...o porque da indagação.
- Minha residência é próxima de um galpão onde grupos oram, gritam.
Clamam a presença de Deus de forma veemente,
berram, choram muito e impertinentemente.
Ele olhou-me ternamente...falou-me do livre arbítrio entre os homens.
Mostrou-me de forma simples, o quando é impotente diante da vontade.
Disse-me que cada um poderia chamá-lo de qualquer maneira,
ele estaria sempre ali, estendendo sua mão e sua alma.
Eu continuei achando que tem Deuses surdos...
Ele me abraçou e continuou a gargalhar,
fomos dormir.

Ari Mota

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A REVOLUÇÃO DAS FLORES


Como foi difícil aceitar que falhamos...
Queríamos uma revolução de valores, de direitos e deveres.
Éramos um povo em construção...
As ruas eram nossas, a consciência também.
Combateram-nos com a ponta da baioneta, aos gritos.
Nossos professores nos preparam para uma batalha de palavras.
Mas, calaram nossa voz, sufocaram nossa liberdade, perdemos.
Perdemos tanto que até hoje, não ficamos sabendo que perdemos.
Tiraram-nos o direito de saber...
Encurralaram-nos, nas favelas, nos salários ínfimos, na burocracia,
na ausência de cultura, na má distribuição de serviços públicos,
nas péssimas escolas, e nos manipulam através da mídia.
Deram-nos líderes pífios, discursos fáceis.
Vivem na soberba, e estimulam a miserabilidade do povo.
Os mantêm reféns do estado, não exaltam a individualidade.
Não estimulam o crescimento, os mantêm incultos.
E a impunidade é tamanha que corrupção é uma disposição moral.
E político é sinônimo de corrupto.
Crápulas, vil, não nos respeitam.
E nós... rimos, assistimos na TV, lemos os jornais, e ai?
Hoje acordei injuriado...
“pra não dizer que não falei das flores” vou caçar borboletas,
e depois soltá-las...é obvio.

Ari Mota

domingo, 6 de dezembro de 2009

O ANJO


Eu estava andando pela vida, sem muito entender o porque.
Perambulava pelas ruas, pelas calçadas, pelas cidades,
estava a procura, sempre olhando em volta, olhares de busca.
Queria encontrar um esteio para o meu caminhar.
Reclamava uma companhia para estar comigo até o fim.
Até que um dia...
Não consegui resistir aos seus encantos, ao seu olhar.
A queria apenas para um passeio na praça, nas tardes de domingo.
Uma coisa passageira, fugaz, uma coisa pequena, sem compromisso.
Mas inadvertidamente toquei sua mão, macia, suave, terna.
Depois não resisti, e roubei um beijo, e logo em seguida um abraço.
Não teve como não desejar o depois...
Permaneci ao seu lado toda a minha vida, e você também.
Abrimos caminhos, cruzamos mares revoltos, altas marés.
Nossa vela quebrou em varias noites de tempestades,
outras vezes era o vento, desaparecera do nosso mar.
Mas, quando o sol nascia para nós, zarpávamos novamente.
Dois aventureiros no mar da vida, sem destino.
E quando desembarcávamos em terra firme,
e tínhamos que subir montanhas íngremes, desafiadoras,
as vezes tomava suas mãos para ajudá-la a subir,
mas muitas das vezes você tomou a minha, na subida.
Caminhamos assim em terra e no mar,
você me socorreu mais do que eu a você.
Hoje resolvi mudar seu nome, tudo em nome do amor.
Esteve ao meu lado a vida toda,
de agora em diante vou chamá-la,
de meu ANJO.

Ari Mota

sábado, 5 de dezembro de 2009

AMIGO


Tenho um amigo, que o encontro uma vez ao ano.
Moramos distante um do outro desde a juventude.
Embora tão distante e com encontros anuais,
ele é meu melhor amigo, acredito ser eu o seu também.
Nunca fui em nenhuma festa em sua casa, nem ele na minha.
Nunca perguntei a ele as coisas que amealhou, nem ele a mim.
Nunca me abordou com indiferença, nem eu a ele.
Das minhas conquistas quase não teve conhecimento,
e eu também não tive com as dele.
Quando o meu pai foi viajar, quando transformou-se em universo,
ele estava ao meu lado.
Quando o dele também se foi, colhi suas lagrimas,
como vez com as minhas.
Ao longo de nossas vidas nunca distribuímos desafetos,
houve sempre apreço um ao outro, a deferência era recíproca.
A distancia e o tempo inexiste entre nós.
Quando meninos, pactuamos um ser sempre amigo um do outro.
Nossa amizade ultrapassou o tempo, ou nossa meninice não passou.
Não fomos contaminados com a rudeza do cotidiano.
Ficou a inocência da juventude.
A pureza do encontro.
A certeza que um ampararia o outro nos momentos mais difíceis.
Entre nós dois existe uma coexistência de almas.
Como o destino tem nos brindado com momentos de felicidade,
não nos convocou ainda para um socorrer o outro.
Tenho um amigo...
Independente da distancia e do tempo.

Ari Mota

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

TEMPO DA ESCOLHA


Houve um tempo em minha vida, que foi o tempo da escolha,
naquela tenra idade, sem parâmetro, sem superfície,
tive que esboçar um perfil para formatar minha alma,
demarcar uma trajetória, escolher um caminho,um rumo,
tive que delinear uma personalidade para a minha existência.
Não teve jeito...fui acampar na montanha mais próxima,
fiquei mais perto das estrelas, dormi ao luar.
Pela manha, a vida se apresentou como sempre, não muito clara,
o dia chegou indistinto, em metáforas.
E distante dos meus olhos, num voo solitário, magnânimo,
suntuoso, uma águia observava serenamente o mundo.
Em contra partida, um corvo se aproximou acintosamente,
com aquela ostentação ruidosa, que lhe é peculiar.
Após um logo tempo, compreendi o sinal da vida.
Era o tempo da escolha...
O corvo tinha a homogeneidade do homem ignorante,
que necessita de plateia para viver seu dia,
vive em comunidade, e só se fortalece assim.
A águia, por analogia, comparei ao homem sábio,
necessita de solidão, inclusiva para morrer,
é raro,alguém encontrá-la morta,
morre solitária no pico mais alto e mais distante.
Daquele dia em diante, esforço-me para não perde
de vista a águia, e como ela, necessito de solidão
para viver minha vida.

Ari Mota

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O MARATONISTA


Eu me lembro quando na juventude, todos nós tínhamos um sonho.
Era um grupo pequeno, mas os sonhos eram grandes,imensos.
Eram colocados na roda de amigos, de varias formas e tamanho.
Um sonhava ser medico... hoje é o melhor que conheço.
Outro queria ser engenheiro...constrói pontes pelo mundo,
soube recentemente que tem uma tendência especial,
constrói pontes também entre as almas separadas,
é o mais forte do grupo, o mais intenso, índole impecável.
Tem um que o conheço muito bem, metamorfoseou-se,
anda entretido com as palavras, transfigurou-se em poeta.
Tem um que foi assistir Woodstock e até hoje não chegou,
dizem que esta vindo a pé, não sei por onde, mas esta vindo.
Outro não se conformou com as diferenças do mundo,
saiu a procura de justiça, tombou no povoado de Higueras,
na selva de Santa Cruz de La Sierra, sozinho, abandonado.
Um deles despertava já naquela época mais que um sonho,
um nocivo pesadelo, queria o poder, tirania, é um político.
Já o mais versado de todos, já tinha o poder da persuasão,
comercializa a fé, burla os incautos, é o mentiroso de plantão.
Mas...
O melhor de todos, o que tinha o sonho mais primoroso,
foi e é, aquele que sonhava vencer uma maratona.
Dia desses, passei por ele na estrada, continua correndo.
Nunca venceu...cada ano sua colocação,
distancia cada vez mais do primeiro lugar.
O que me impressiona não é o fato de nunca ter vencido,
nem de nunca ter desistido do seu sonho.
O que me impressiona é o sorriso que ele traz no rosto.
Desde menino... era feliz.

Ari Mota

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

IR EMBORA


Estou pensando em sair por ai, sem destino.
Mas...
Preciso de uma companhia para segurar em minhas mãos.
Preciso de um corpo para me aquecer em noites frias.
Preciso de uma pessoa que seja minha bussola, para me guiar,
quando me perder nos caminhos da vida.
Estou pensando ir embora para lugares distantes, remoto,
onde se ouve o vento, onde se vê o anoitecer e o por do sol,
um lugar despovoado... pode ser beira mar, nas montanhas,
fundamental que seja salpicado de silencio e solidão.
Estou necessitando ouvir minha alma, se possível tocá-la.
Ela, dia desses gritou comigo, reclamou guarida, afago.
Não sabia o que fazer com tamanha dor, tamanho desespero.
Durante muito tempo dei atenção aos outros,
fiquei sem me olhar no espelho, olhar para dentro,para a alma.
Cansei de olhares de desfaçatez, olhares que me rotulavam,
olhares que etiquetavam-me, legendavam-me.
Tornei-me uma marca, num letreiro de beira de estrada.
Vivi tacitamente o que fora convencionado nas relações sociais.
Deixei de ser eu...
Preciso partir, para encontrar comigo mesmo.
Vamos bem devagar... contando estrelas e borboletas.
Vamos contar historia de amor um para o outro.
Você cuida de mim e eu de você, pra sempre.
Vamos voar, correr, se preciso até morrer juntos.
Morrer é invariavelmente uma grande viagem...
Estou ali na esquina...te esperando.

Ari Mota

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

UMA VIDA ESPECIAL


Eu tenho um amigo, que nossas vidas esbarraram uma na outra,
quando nasceu minha filha, a dele também.
Depois chegou o meu filho e o dele também chegou.
Emoções idênticas, chegadas resplandecentes, desafios,
resignação, renuncia da própria vida para o esteio de outras.
Encontramos todos os dias, em diversas situações e lugares.
Sempre, ele adianta as conquistas do filho com louvor e esmero.
O cuidado, a atenção, a sua solicitude ao filho é magnífica.
Uma entrega total, algo incondicional, incomum.
Nossos filhos cresceram, e cada um trilhou seu caminho,
escolas diferentes, amigos diferentes e destino.
O meu tem em seus combates a certeza que não pode esmorecer,
acorda como um espadachim para sobreviver as rudezas do dia,
e procura dormir como um poeta apaixonado, em noites de luar.
Nossos filhos são filhos da diferença, mais são iguais...
O meu é lúcido, um sobrevivente do mundo competitivo.
O filho do meu amigo tem mais pureza na alma,
É ESPECIAL.
Ao longo de nossas vidas preservamos a equidade entre eles,
mesmo porque a intensidade de nosso amor por eles é o mesmo.
Eu e meu filho aprendemos mais com eles...do que eles conosco.
Eu e meu amigo temos filhos diferentes,
um não é mais que o outro, apenas diferentes.
O filho dele chegou para existir de forma especial,
o meu de forma comum.

Ari Mota

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

LIMITE


Desde menino, naquela cidadezinha do interior,
já tinha percebido quanto o meu andar seria difícil.
Naquela época encontrei no dicionário a palavra limite.
Assustei com o significado: Extremo, satisfeito, contentar-se.
A carreguei vida a fora, a levei no bolso, nas costas.
A luta foi de tamanha intensidade, que até tornou-se nobre,
tive que dar uma outra forma no significado de limite.
Passei a interpretá-lo como fim, como a morte.
E descobri que morrer era uma coisa menor,
perverso seria não viver, viver com intensidade.
Mas,como a vida brincava comigo, brinquei com ela.
Na descoberta, mais que contrair os músculos faciais,
descobri que sorrir era muito pouco, gargalhar também.
Fiz da minha vida, uma festa, mesmo sozinho estava feliz.
Tive poucos amigos, mas os que passaram em minha vida,
bastou-se, eram por inteiro, plenos,absolutos.
Tive poucos amores, mas os que tive, os amei de todas as formas.
Em poucos bailes dancei, poucas bocas beijei, poucas camas deitei.
Mas o fiz de forma veemente, com grandeza de alma.
Fiz da minha vida um espetáculo, embora sozinho no palco,
e ao longo dos meus shows, poucos estavam na platéia,
mas,foram encenados, vividos e apresentados.
Vivi do meu jeito...dentro da minha dimensão.
Descobri que meus limites inexistiram, pura fantasia.
Viver é um horizonte, uma perspectiva.
Infinitamente uma ilusão.

Ari Mota

sábado, 28 de novembro de 2009

A MINHA ESTRADA


Fiquei exposto toda uma vida,sem portas,sem janelas.
Invadiram minha vida,meu dia,dormiram na minha cama,
usaram o meu perfume,bateram minhas asas.
Direcionaram meus pensamentos,meus livros e amores,
impuseram meus sentimentos,minhas alegrias e fé.
Até a historia me foi passada de forma errônea,
somente os vencedores é que a escreveram-na.
Invadiram o meu querer,o meu bosque,o meu jardim,
plantaram flores que eu nunca gostei,nunca reguei.
Deram-me endereços que nunca fui,nunca encontrei.
Por fim,queriam meu riso,e minhas lagrimas.
Dimensionaram o meu tamanho,minha alegria e dor.
Deram-me Deuses e preces,conceitos e preceitos.
Cansei...
O tempo cobriu meu cabelo de branco,fiquei livre.
Tive que construir uma estrada dentro da minha alma.
Ando sozinho,na velocidade e direção que eu quero.
Saio nas madrugadas,em noites de chuva,e em dias de sol.
Convido quem eu quero para passear,correr e voar.
Nesta estrada tenho construído um mundo ímpar,
sem muros,sem templos,os livros estão nas ruas,
todos podem contar sua história,sem censura.
E raça... somente uma existe,a ração humana.
No final da estrada,há um aclive para um salto.
E todos,tem o direito de arrebatar-se num vôo eterno,
em direção a liberdade.

Ari Mota

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

OLHAR CÍNICO


Houve um tempo,e faz muito,muito tempo,
eu não era prático com as coisas do mundo.
Quando menino na escola,eu ainda acreditava.
Acreditava...
Na pureza das palavras,na força dos sentimentos.
Um abraço era o encontro das almas,não de corpos.
O respeito era uma atitude,uma ferramenta do caráter.
Acreditava...
Que o País tinha respeito comigo e com os outros.
Que a religião iria afagar minha alma,nos momentos difíceis.
Que eu poderia acreditar na benevolência de alguém.
Que a verdade prevaleceria em todos os momentos.
Hoje tornei-me prático com a vida.
Existe uma transformação,vindo de dentro da alma.
O ângulo que vejo a vida hoje,é diferente.
As palavras são falsos instrumentos de persuasão.
Os discursos fáceis,iludem e mascaram os sentimentos.
Não há encontros,não há respeito,não se acha caráter.
O país nos oprime,tira-nos tudo,oferece-nos miséria.
A religião,omissa com nossa dor,hoje é apenas um negócio.
O homem tornou-se predador dele mesmo,
barbarizou-se.
O que cabe a mim tenho feito,tento sempre,tento mesmo...
Mas, não consigo fugir de uma verdade,
minha visão cínica do mundo.

Ari Mota

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

RIQUEZA


Eu tenho um amigo que esta no ápice da riqueza.
Desperta pela manha como se o mundo o observasse.
Acredita que até aquele criador de ovelhas do Nepal,
sabe de sua existência e pode um dia prejudicá-lo.
Está na verdade no auge de sua arrogância.
Com medo de ser perseguido, persegue.
Com receio de perder, jamais doa.
Como não doa, não ama.
Como não ama, esta sempre só.
Crê que riqueza é ter coisas, vive assim,
respira dessa forma, desse jeito.
Mandei-lhe um presente...
Junto mensagens subliminares.
Embrulhei o globo em miniatura,
um binóculo e estrelas em papel crepom.
O globo para que tomasse ciência,
do tamanho do lugar onde vive,
vive ele e os outros, um lugar comum.
As estrelas,para que com o binóculo,
pudesse olhar para o céu,
e ver a amplidão do firmamento,
e perceber sua pequenez.
Soube,que nem abriu o presente...
E que ainda acredita, que pobreza é falta de dinheiro,
e não circunstância.
E sai pela manha, agredindo o porteiro do prédio.
Na hora do almoço menospreza o garçom.
E no final do dia desdenha o frentista.
Isto... é pobreza.
E continua acreditando que é o centro do universo.
Ele continua meu amigo, e continua cada dia menor.

Ari Mota

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A DERIVA


Quando você se foi...
Fiquei no meio do mar da minha vida, só.
Um temporal tomou meu barco.
As ondas batiam na proa com violência.
Quase não conseguia segurar o leme.
Olhei a estibordo, você não estava,
eu precisava tanto da sua presença.
Ouve um dia que a vi, a bombordo me olhando,
pura miragem de marujo perdido.
O vento frio do mar entrava na alma,
e a chuva escorria face abaixo.
Quando aquele temporal foi embora.
Meu barco em pedaços, ainda flutuava.
Eram fragmentos por todos os lados.
Procurei você em todos os cantos.
Não te encontrei...
Perdi minha bússola.
Não tinha mais nada, nem sul, nem norte.
Estava a deriva.

Ari Mota

terça-feira, 24 de novembro de 2009

PORTA ABERTA


Eu e minha alma agendamos uma reunião,
fomos discutir a relação,
de mãos dadas, olhando para o infinito,
as vezes contávamos estrelas,
as vezes riamos,as vezes contávamos borboletas.
Foi uma reunião magnífica.
Acordamos retirar de nossas vidas, todas as portas.
Escancarar nossa moradia, e deixar entrar todos os ventos,
e eles poderiam entrar casa adentro, livres, sem temor.
Convidar todos os seus amigos, inimigos, iguais e diferentes.
Desfilar com todas as cores, com todos os gestos.
Poderiam voar, pular, correr e sorrir.
Depois...
Fomos para a nossa biblioteca, eu e ela.
Decidimos suprimir algumas palavras, do nosso dicionário.
A intolerância foi a primeira... a retiramos prazerosamente.
Logo em seguida retiramos mais uma, depois mais outra,
Assim foi quase que o dia todo... e foram muitas.
Nosso dicionário ficou pequeno, diminuiu.
Ficamos com paginas em branco.
Resolvemos...
eu e ela, que ali iríamos reescrever nossas vidas,
novas rotas, novos vôos, nova estrada.
Que os descaminhos do passado,
seriam alicerces de um novo tempo.
Acordamos também, não retirar do nosso dicionário
a palavra Tristeza.
Para que jamais a esqueçamos...
como nossa moradia não tem porta,
pode ser que um dia ela queira entrar sem bater.

Ari Mota

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

BAILE A FANTASIA


A vida é um baile a fantasia,
vi desfilar todas as mascaras,
uns dissimulam o personagem,
outros vivem-no, na íntegra.
Há quem retire sua roupagem, vez por outra.
Há, os que não a retiraram nem no sonho.
Vivem toda uma vida mascarados,
quando de frente para o espelho, assustam,
já não sabem, quem está do outro lado.
Vi mascaras que produziram desamor e ódio,
outras injustiças, outras tantas:
Mataram.
Perseguiram.
Destruíram.
E poucos vivem sem elas.
As mascaras disfarçam os medos,
as deformidades da alma,
as imperfeições do caráter.
Deslocá-las da face requer ousadia,
honradez, virtude.
É necessário vivificar uma nova existência.
Elas estão em todos os lugares, em todos rostos.
Uns fantasiam-se de lideres, outros de Deuses.
Não há quem, com coragem, para retira-las da cara.
E viver uma vida pautada na verdade.
A vida é um baile a fantasia...
A minha está guardada no sótão da minha alma.
Não tive coragem de usa-la.

Ari Mota

domingo, 22 de novembro de 2009

WOODESTOCK


Encontrei um velho amigo.
Ele estava acompanhado do passado.
Tive a impressão que ele estava chegando
de Woodstock a pé.
Falamos daqueles tempos de inocência.
Tempos que embriagávamos de sonho,
e exalávamos liberdade.
Iríamos mudar o mundo e as pessoas.
As mãos seriam para o toque e para o abraço.
O olhar seria infinitamente terno e puro.
As palavras seriam para poetizar o amor.
E o homem mais justo.
Falávamos de evolução da raça humana.
Tempos de exaltação a arte, e ao amor.
Quebra de paradigmas,
De muro.
De preconceitos.
E invariavelmente, de uma infinita paz.
PERDEMOS...
Hoje as mãos continuam matando.
As pessoas se olham com mais ódio.
E as palavras são instrumentos de ofensa.
Exaltam a ignorância e a pequenez.
Construímos muros em nossas almas.
Ficamos intolerantes...
Ficamos menores...
Naquela noite tive um sonho.
Vi dois fantasmas na praça: Janis Joplin e Jimi Hendrix.
Estavam contando estrelas.
Apavorado...
Abri meu palco virtual.
Fui assistir: Joe Cocker cantar With a Little Help From My Friends.

Ari Mota

sábado, 21 de novembro de 2009

O ANDARILHO

Na minha cidade tinha um andarilho,impar.
Perambulava pelas ruas, e pela vida.
Estava em todos os lugares, silenciosamente.
Carregava um enorme mistério,
e o único sentimento que podíamos perceber,
era em sua face, tinha um sorriso eterno.
Não esboçava nada além de um sorriso,
ria de tudo, a impressão é que ria de todos.
Não o víamos alimentando,
tínhamos a impressão que se alimentava de luz.
Como as pessoas perderam o sorrir,
isso o fazia diferente...era pura alegria.
Somos perversos com quem difere da massa,
na verdade olhávamos para ele com desdém.
Tínhamos diplomas,posses e relacionamentos.
E ele só tinha aquele sorriso e alguns amigos:
Sempre um cão e algumas borboletas.
Além do sorriso, tinha a fidelidade dos amigos.
Mas um dia ele teve que partir.
Morreu sem atendimento no hospital...sorrindo.
Quem chorou de saudade...
Foi o seu cão e algumas borboletas.

Ari Mota

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

CONSTRUTOR DE CARAVELAS


Conheci um homem que construía caravelas.
Uma arte jamais vista.
Eram caravelas em miniatura.
Detalhes além da percepção comum.
Paciência, resignação, perseverança.
Qualidade incomum de um artista anônimo.
Certa vez, uma das caravelas caiu,
espatifou-se, pequenos pedaços ficaram pelo chão.
Aquele homem sorrindo, recolheu um por um,
como se fora um quebra cabeça.
Disse-me, que era a primeira vez que ele
iria reconstruir uma de suas obras.
A felicidade estava em seu rosto,
ele me dissera que, era o que lhe faltava.
Toda uma vida construindo,
era tempo de reconstruir.
As caravelas eram a metáfora da sua vida,
Construí-las era como se a vida,
desse-lhe a oportunidade de existir,
e reconstruí-las, a oportunidade de continuar.

Ari Mota

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O TEMPO


O tempo evidenciou rugas em minha pele,
e pintou o meu cabelo de branco.
Ele entrou peito afora,
intimidou minha alma,
achei que não iria conseguir,
conseguir vencer as etapas,as fases,
vencer os dias, as noites infinitas.
Mas, também foi meu mestre,
discorreu sobre as verdades da vida,
a transitoriedade do sucesso,
e o quanto, fracassar nos faz renascer.
E todas as vezes que ele impeliu minha alma,
foi para o crescimento, aumentei de tamanho.
Hoje...
Habituei-me as rugas e aos cabelos brancos.
Estou no tempo da contemplação:
passaram por mim tanta beleza,
tanta ternura, tanto amor,
não os vi por falta de tempo.
Mas, hoje percebo tudo que passa,
o que passa em frente aos olhos e na alma.
Amo com mais intensidade, vivo também.
Descobri as borboletas, o vento no meu rosto,
a sutileza de um olhar, e o amanhecer.
Na verdade estou no tempo da descoberta.
E descobri que minha vida é um espetáculo imperdível.

Ari Mota

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O PALCO E A MÁSCARA


Quando despertava a consciência do existir,
deram-me, um palco e uma máscara.
O palco seria o espaço da existência:
os caminhos a percorrer, as batalhas,
os amores, as derrotas e vitórias.
A máscara seria para interpretar,
os personagens no teatro da vida.
Iria mensurar as minhas dissimulações,
apresentar minhas inverdades,
demonstrar o tamanho da minha vilania.
A máscara iria omitir, esconder,
a exatidão da minha natureza.
Minha abordagem para a máscara,
foi de retê-la em minhas mãos.
Não iria permitir o uso de tal instrumento.
O palco chamei de minha vida.
E a vivi sem muita dramaturgia.
Cada ato, cada gesto, cada expressão,
procurei vive-los de forma singela.
Os atos foram ternos, sutil e humanos
Os gestos simbolizaram equilíbrio e paz.
As expressões foram palavras de amor.
Fiquei toda a minha vida com a máscara na mão,
não a levei ao rosto em nenhum momento.
Estava cansado de ver todos usando a sua.

Ari Mota

terça-feira, 17 de novembro de 2009

A LOUCURA


Uma fronteira tênue separa lucidez e loucura.
Como procurei lucidez vida afora,
tive um surto dia desses.
Mas, na verdade foi um grande vôo.
Primeiro uma rasante dentro da alma.
Fui assistir o filme da minha vida,
as cenas não eram tão medíocres,
não tinham a grandeza de Hollywood,
mas, dentro da minha pequenez , ficaram lindas.
Depois, dentro de uma mochila coloquei loucura.
Fui passear pelo mundo...
Em Roma na Piazza Del Popolo, dancei nu,
claro, com aquela bailarina louca.
A pé, fomos a Paris, e na champs-Élysées,
corremos, gritamos, amamos ao luar.
Roubamos uma bicicleta na Praça da Concórdia,
ela, uma borboleta e eu, fomos para Madri.
Tentei domar um touro no Monumental Del lãs ventas,
quase que morri, ela me salvou com beijos.
Fomos refletir sobre a vida, de mãos dadas,
pelos caminhos de Santiago de Compostela,
como dois peregrinos, dormimos em frente a catedral,
pela manha uma orquestra de borboletas,
tocou Adágio de Albinoni ,acordamos sorrindo.
Sorrindo para a vida...felizes.
Passamos por todas as praças do mundo,
das mais belas, as mais livres.
Assistimos musicais, arte e loucura.
Chegamos... nossas praças, não são nossas.
Eu, ela e a borboleta ficamos com medo.
Lá dormíamos em Albergues.
Aqui levaram-nos para o Hospício.

Ari Mota

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

ABISMO


Entre eu e ela a distancia era pequena,
o que na verdade nos separava,
era um abismo profundo.
Como acompanhar aquela mulher, toda uma vida.
O meu grande medo,
era um dia ser absorvido pelo vazio,
pelo meu vazio.
Ela tinha o tamanho do mundo,
percepção clara dos caminhos da vida.
Intelectualizada, sem soberba.
Rica em essência...
sabia da fugacidade dos aplausos.
Compreendia as diferenças humanas.
Na simplicidade, mostrava robustez de alma.
Era grande no pensar e no agir.
Não consegui acompanha-la.
Minhas habilidades de guerreiro,
eram incompatíveis em suas batalhas.
Ela, era maior que ela mesma.
Sutil, tinha um olhar visionário.
Sagaz, vivia o amanha.
Beligerante, construía seu próprio andar.
Não consegui transpor aquele abismo.
Ela certa noite, num beijo terno,
fez as malas e partiu.
Seu olhar do outro lado do abismo,
ainda era de amor.
E o meu também.

Ari Mota

domingo, 15 de novembro de 2009

A FUGACIDADE DO AMOR


Eu me lembro...
O primeiro encontro tinha encantamento,
tomava-se as mãos, sentia o calor da pele,
tocava levemente a face num beijo suave.
Tinha-se uma explosão na alma,
percebia a sutileza do afago,
a pureza do tocar de corpos,
existia os olhares, sentimentos.
Exalava-se amor...
Percebia a essência dos perfumes,
tínhamos nossa musica, nossa flor.
O jardim nos recebia em festa,
e depois minha maior ousadia,
roubar um beijo daqueles lábios.
Êxtase da alma, inicio de uma paixão.
A descoberta um do outro.
Hoje...
Inicia-se pelo fim...
Uma noite, uma balada, uma cama de motel.
Ausência de encontro e de toque.
Ausência do perfume da pele.
Encontros abruptos, sem abraços, afoitos.
Beijos químicos, sem olhares.
Amor fugaz...sem poesia.
Nada fica, nada permanece.
Ela vai embora, e não se pergunta nem o nome.
A noite estava vazia, e assim termina.
Sem amor...escura.

Ari Mota

sábado, 14 de novembro de 2009

O GARIMPEIRO POETA


Nestas noites mal dormidas,
resolvi tornar-me garimpeiro,
como não tenho posses,
fui trabalhar dentro da minha própria alma.
Com muita dificuldade consegui entrar.
Foram dias duros,noites em claro.
Cada tesouro destinei um sentimento:
O Diamante representou a solidez da minha vida.
A Esmeralda me dava a esperança.
A Ágata a coragem que sempre tive.
A Pérola minha eterna força.
O Rubi meu equilíbrio diante das adversidades.
A Safira os meus amores.
A Topázio a inteligência de sobreviver cada dia.
A Turqueza a harmonia com pessoas e as borboletas.
A Onix a lealdade nas minhas batalhas.
A Ametista a felicidade eterna.
A Água Marinha a tranquilidade que eu necessito.
Desses tesouros um,eu não encontrei.
Você...
Um aventureiro a levou.
De garimpeiro tornei-me poeta.
Exploro sentimentos.
Meu maior tesouro, minha pedra preciosa,
chama-se saudade.

Ari Mota

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A LOUCA BAILARINA


Houve um tempo em que eu esperava.
Esperei , quase uma vida.
Fiquei na esquina muitas vezes, a espera.
Já esperei um amor,
um abraço,
um beijo,
até esperei a chuva passar.
Hoje, não dou tempo a mim mesmo.
Amo com toda a intensidade,
com todos os afagos,
com os poros, com suor.
Não espero o amor, vou até ele.
Abraços, distribuo todos os dias,
abraços os meus amores, e os que não são,
já abracei até quem não devia, mas abracei.
Beijos... já até roubei alguns,
foram bocas proibidas, mas beijei.
E a chuva....
Quando chove saio dançando,
como Fred Astaire.
Esses dias...
Uma louca convidou-me para dançar,
fomos dançar em São Tomé das letras,
eu e ela dançamos a noite toda.
Leve,solta...dancei com a felicidade.
Bailarina louca, louca bailarina
Hoje nem a chuva me faz esperar,
sou feliz na chuva, na esquina
em qualquer lugar.

Ari Mota

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

UM OLHAR PARA A VIDA


Em retrospectiva...
Viveria tudo novamente.
Não faria diferente.
Possivelmente, melhor.
Não alteraria uma palavra,
um gesto.
Sentiria todas as emoções,
as que me demoliram por dentro,
e as que aliviaram minha alma.
Derramaria todas as lagrimas,
algumas, rolaria fase abaixo,
e outras iriam novamente para dentro do peito.
Sentiria todos os medos,
perderia todas as batalhas que perdi
e me alegraria com as poucas de venci.
Amaria com a mesma intensidade,
como amei...sem pedir,sem cobrar.
Cresci neste período.
E tudo isso...
Tem me feito melhor.
Tenho a sensação que estou encerrando,
a minha vida de uma forma magnífica.
Em minha alma, não tem rancor e nem ódio.
Não dissimulei afeto.
Vivi dentro de uma verdade.
Amei...as crianças, os adultos,
os loucos, e as borboletas.
E invariavelmente a mim mesmo.

Ari Mota

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

FUGIR


Fuja, dos que querem um selo
de qualidade em você.
Não permita,que interfiram
em seus amores,
que desvendem seus sonhos,
que abram trilhas para seus caminhos,
que imponham sua fé,
cerceiem sua liberdade,
movimentem suas asas,
e direcionem sua rota...
Escolha sua própria estrada.
Cometa você, seus erros,
os corrija também.
Fuja...
Dos falantes, dos discursos,
dos moralistas de plantão.
Ame com toda a intensidade,
de varias formas e com todo sentimento.
Sonhe da maneira que lhe convier,
sonhar é o único alimento da vida.
Abra uma trilha em cada dia,
até encontrar seu destino.
Sua fé tem que emanar de dentro da alma,
os templos são apenas negócios.
Sua liberdade estará no bater de suas asas.
Não permita...
um selo de qualidade em você.
Fuja, dos que querem que você,
não seja você.

Ari Mota

terça-feira, 10 de novembro de 2009

DESISTIR


Desisti...
Aportei meu barco na praia,
pedi que ela desembarcasse.
Dei a ela, flores e sentimento.
Olhares de carinho e afago.
Abraços aquecidos.
Beijos ardentes.
Tomamos vinho ao luar.
Recitei até poemas de amor.
Dei-lhe,um espaço em minha cama.
E a coloquei aquecida dentro da minha alma.
Mas, percebi que era pouco,ínfimo.
Ela queria coisas, palco e aplausos.
E no meu barco, era só eu e ela.
Tínhamos apenas como companheira,
a solidão do mar.
E aplausos, que eram constantes,
vinham das ondas em noites de luar.
Seu olhar sempre distante,
não me pertencia, jamais foram para mim.
Tive que aceitar os seus desejos.
Desisti...

Ari Mota

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

LIVRE


Olhares de desdém,
combati com olhares de ternura.
Atitudes agressivas e gritos,
combati com gestos suaves e silêncio.
Como um foragido,
corri dos fanfarrões, ditadores,
e dos intolerantes.
Afastei-me, dos que queriam cercear meu vôo.
Livre...
Não me vinculei a dogmas ou preceitos.
Jamais uma corrente, acorrentou minhas asas.
E jamais construí muros em minha alma,
a tenho por inteiro.
De tudo isso... a intolerância foi a mais feroz.
A combati desde menino.
Sinto-me hoje, mais livre do que antes.
Escapei-me de ser intolerante:
Descobri que as diferenças humanas,
resultam em beleza e prosperidade,
principalmente quando cada um,
constrói seu próprio andar.

Ari Mota

domingo, 8 de novembro de 2009

AMOR INTEMPORAL


O tempo passou...
E eu me adaptei ao inusitado,
Aos temporais em alto mar.
Por muito tempo fiquei sem um porto.
Adaptei-me a rudeza do cotidiano,
a sordidez da raça humana,
a indiferença.
Adaptei-me as intempéries da minha alma,
as ausências,
os desencontros.
A vida sutilmente fluiu.
Só não me adaptei a sua ausência.
O tempo passou...
Achei que em minha caminhada,
ao olhar para o lado, ia encontrá-la,
e jamais estaria só.
Não dissimulei afeto, te amei.
Pensei que nosso amor escaparia ao tempo.
Busquei um amor intemporal.
De outras vidas...
Não encontrei...

Ari Mota

sábado, 7 de novembro de 2009

UMA VIDA SEM VOCÊ


Fui passear lá dentro da minha alma,
e te encontrei encolhida num canto.
E pelo que pude perceber, já fazia um tempo.
Eu me lembro, você foi embora um dia,
e não me disse adeus.
Naquele momento, eu me recordo,
minha alma ficou vazia.
E eu me pergunto, por que você voltou.
Por que esta ai, a me olhar.
Passei um tempo a sua procura,
na verdade quase que toda a minha vida.
Acostumei com sua ausência,
minha alma moldou-se, à sua falta.
Não consegui renunciar a minha dor.
Quando olhei alma a dentro, te encontrei.
São fantasmas do passado.
Meras lembranças.
Traços de um fim,
sombras de um corpo virtual.
Encontrei sua presença, em meus delírios.

Ari Mota

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

RESISTÊNCIA


Em retrospectiva... minha vida,
tem a forma de uma batalha.
Foi vivida cada luta,
cada dia.
E em cada amanhecer colhia os cacos.
E as pressas preparava-me para a próxima luta.
Embora não designado,
transformei-me em soldado de Infantaria.
Foi necessário estar no front.
Olhava diretamente nos olhos do inimigo,
e foram muitos, uns corajosos, outros tantos ...covardes.
Não sabiam a beleza da luta, a nobreza da derrota,
e tão pouco como é insignificante a vitória.
Lutavam para destruir, não para crescer.
Cresci neste tempo.
Época de escassez.
De solidão.
De enrijecimento da alma.
Mas, como soldado de infantaria,
Quebrei todas as pontes que passei,
para jamais voltar ou ser alcançado.

Ari Mota

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

PACTO COM O TEMPO


Fiz um pacto com o tempo.
Acordamos... antes que ele me roube a lucidez,
me permita ter acessos de loucura.
Vivi sempre na normalidade.
Não contei estrelas, em noites de chuva.
Tão pouco recitei para Fernando Pessoa.
Nem andei descalço com Pablo Neruda.
E não fui a machu picchu com Clarice Lispector.
Não me embriaguei em dias de solidão.
Não tive surtos de raiva, e nem de ódio.
Aceitei a vida como me foi apresentada.
Bem que acompanhei alguns malucos,
mas foram meros acasos,
conheci o Profeta Gentileza e Raul Seixas.
Andei lendo: Osho, Nietzsche e outros.
Mas sempre estava lúcido.
Fiz um pacto com o tempo.
E lhe pedi loucura.
Loucura pra ficar livre das amarras,
fiquei preso as normas e aos conceitos.
Pedi ao tempo que esquecesse de mim e eu dele.
Pelo menos daqui até o final.

Ari Mota

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O TEMPO DA CONQUISTA


Houve vários tempos em minha vida.
Mas o pior deles, foi o da conquista.
Não sabia na verdade o que conquistar.
Achei que seria coisas,
logo depois, achei que seria poder,
e depois alguém.
Afoito, sai pelas ruas do mundo,
como um conquistador.
Mas...
As coisas que conquistei, são falíveis,
jamais poderei leva-las em todas as minhas vidas.
O poder só encontrei na espada e no sangue,
e ele se legitima, quando ancorado no respeito,
e na capacidade de liderar.
Conquistar alguém foi minha maior pretensão.
As pessoas são livres.
Tem seu próprio vôo.
Tem suas próprias escolhas.
Hoje estou no melhor do meu tempo.
Estou conquistando minha própria alma.

Ari Mota

terça-feira, 3 de novembro de 2009

RENÚNCIA


Tive que renunciar a um grande amor.
Necessitava de cumplicidade na minha vida.
Ela queria apenas passar um tempo ao meu lado.
E um tempo é muito pouco.
Eu queria uma vida toda.
Todo o meu sentimento seria somente dela.
Ela não entendera o meu amor.
Fútil, procurou outros braços.
Transformei a renuncia em força,
força para suportar o sozinho,
força para suportar o frio da noite,
força para continuar com a alma vazia.
Hoje, ainda corre em minhas veias,
aquele infinito amor,
aquela infinita renuncia.
Renuncia dela, e de mim.
Renuncia de todos os dias e todas as noites.
Estou sozinho...

Ari Mota

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

INTERVALO


Não percebi a chegada,
não entendi a vinda,
não sabia por que estar aqui.
Nasce uma alma...
Apresentei-me pra vida.
Mas, logo apresentaram-me a partida.
Diziam que teria que ir embora.
Chamaram isso de Morte.
Entrei em desespero, não queria partir.
Depois de um bom tempo.
Percebi que entre o inicio e o fim, tinha um intervalo.
Chamei isso de vida.
Desde então minha vida é apenas um intervalo.
E não tenho muito tempo.
Preciso ser feliz, agora.

Ari Mota

domingo, 1 de novembro de 2009

A PERDA DO RASTRO


Pactuamos não perder o rastro um do outro,
tudo em nome do amor.
O tempo fugaz como sempre,
não nos esperou,
nem disse-nos que já era hora.
Amedrontados, os rastros desapareceram,
ficamos perto, muito perto, ficamos juntos.
Amar.
Entregar-se.
Repartir as lagrimas.
Abrir sorrisos.
Descobrir a infinita resiliência de cada um.
E amparar mutuamente os segredos da vida.
Não foi possível tamanha cumplicidade.
Anoiteceu...
Um vento frio esfregou em meu rosto,
entrou alma a dentro.
Tive medo do amor.
Os rastros continuam em nossas vidas.
Só que hoje em direções opostas.
O medo venceu o amor.
E ela partiu...

Ari Mota

sábado, 31 de outubro de 2009

NÃO EXISTIR



Hoje saí a procura de um olhar.
Minha maior dificuldade, foi encontrar um rosto.
Mas, os que ainda pude perceber,
olhavam-me de diversas maneiras:
Teve olhar de desprezo,
De desdém
De indiferença
De superioridade
De autoridade
De ódio
De desconfiança.
Olhavam-me com medo.
E houve olhares perdidos.
Olhares de solidão.
De sofreguidão.
Mas, também teve os que não olhavam, vagavam.
Perdidos...sozinhos.
Voltei , ninguém olhou-me com amor.
Passar pela multidão e não encontrar um rosto,
não é estar só, é não existir.

Ari Mota

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

PALAVRAS MORTAS


O tempo pintou meu cabelo de branco.
E pisoteou minha alma ferozmente.
Ouvi regras, normas.
Falaram-me em procedimento social.
Conduta.
Postura.
Os discursos brotavam em todos os lugares:
Na escola
No trabalho
Na igreja
No bar da esquina
No congresso
E não percebi ao longo da minha vida, exemplos.
Ouvi discursos fáceis.
Tolos
Inócuo
Palavras mortas.
E desde então, fiz a escolha de ouvir os silenciosos.
Não produzem eco.
Passam pela vida ofertando exemplos.
São profundos como os lagos.
Silenciosos...falam com os olhos.
São verdadeiros.

Ari Mota

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O PEDINTE


Em minha casa pedem de tudo...
O vil metal é o mais assediado.
Em segundo lugar o alimento.
Mas, como não bastasse, há outros pedidos:
Afeto.
Carinho.
Compreensão.
Aparecem os desprezados.
Uns chegam alucinados, drogados.
Outros perdidos, ainda não se encontraram.
Muitos sem fé.
E há os que realmente são miseráveis.
Todos na verdade queria além de tudo isso, amor.
Muitos vivem assim toda uma vida.
Não tenho capacidade de julga-los, e nem de ajuda-los.
Sou muito pequeno diante deste flagelo.
Mas, dia desses, um dos tantos que ali aparecem:
Um deles, pediu-me LIVROS.
Minha alma estremeceu, silenciei-me.
A pobreza daquele homem era circunstancial.
Tudo o que tinha, dei a ele.
Uma lagrima rolou fase abaixo.
Choramos em silencio.
Ele jamais voltou...
Mas acredito que um dia voltará.
E fará deste planeta um lugar
melhor para viver.

Ari Mota

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

CAMINHO




Não permita que a estupidez do planeta ultrapasse a fronteira do seu coração.

E nem a torpeza humana ofusque o brilho da sua alma.

Não permita que alguém lhe ensine a verdade, ela é infinitamente sua, e só você poderá desvendá-la.

Todos têm seu próprio caminho, e o seu será construído com o seu andar, não siga trilhas de ninguém.

Muitos vagam pelas ruas sem destino, sem saber aonde chegar.

Não simule afeto, ame.

Se porventura, não conseguir... Não se apequene, insista, o amor virá.

A rudeza do cotidiano vez por outra nos enfraquece, e somente as grandes almas terão coragem de mudar o mundo.

Seus passos estarão sempre paralelos com os conflitos existenciais, não permita à entrada do medo, da incerteza.

Viva cada dia.

É preciso ter coragem, para ser feliz.

Ari Mota

domingo, 25 de outubro de 2009

MULHER


Eu só queria um barco
e você tornou-se um porto a me esperar .
Eu só queria lhe contar os meus segredos
e você tornou-se a guardiã de todos eles.
Eu só a queria como fêmea
e você tornou-se a minha companheira.
Eu só a queria como terra fértil
e você como se não bastasse, germinou vidas.
Eu só a queria submissa
e você tornou-se força, luz no meu caminho.
Eu só queria um beijo
e você roubou-me o coração.
Eu queria apenas um olhar
e você apoderou-se dos meus olhos.
Eu queria ficar só
e você transformou-se em solidão
só pra ficar ao meu lado.
Eu queria apenas um sorriso
e você entregou-se toda a mim.
Eu queria na verdade dizer
que te amo.
E que além de M U L H E R
é um pouco de mim
e eu um pouco de você.

Ari Mota

sábado, 24 de outubro de 2009

RESILIÊNCIA



A vida por vezes me bateu.
Quis dela, mais do que poderia me oferecer.
E quis de mim, mais do que poderia ser.
Houve dias de desespero.
Houve noites de sol.
Houve vazio na alma.
Compreendi algumas coisas, outras ainda não.
Respondi algumas perguntas.
Não tive respostas para outras tantas.
Fugaz, foram os meus dias.
Nas decepções, encontrei a rudeza do cotidiano.
Na descoberta, a resiliência da minha alma.
Tornei-me descobridor de mim mesmo.
Dos meus caminhos, e de minha lucidez.
Das minhas fraquezas, e de minha eterna força.
Deparei com os meus limites, e minha sensatez.
Descobri que não poderia ser além do que eu era.
Encontrei os meus limites.
Adaptei ao meu tamanho.
Sem abandonar o sonho.
E a vida que por vezes me abandonou.
Fez de mim o que sou.
Nem mais, nem menos, me fez assim...

Ari Mota