sábado, 9 de junho de 2018

A PRESSA

A pressa já me acompanhou,
corri desesperadamente,
não sabia bem o que queria,
nem aonde chegar.
Olhei por diversas vezes no mapa,
busquei o norte,
andei por lugares que não tinham fim,
rumei em direção ao sol,
segui estrelas em noites de luar,
fiquei na estrada atrás de uma carona,
caminhei a ermo, sozinho,
perdi-me diversas vezes,
até que cheguei ao meu destino,
e deixei de errar o caminho,
- Cheguei a mim.
E encontrar-me foi o maior dos espetáculos,
tão pequeno... tão imenso.
E então... este corpo acolheu essa alma,
e passamos a devanear por aí,
e já fomos além da pressa,
e não chegamos a lugar nenhum,
óbvio... que hoje, serenamos os passos,
e contemplamos tanto,
maravilhamo-nos além da medida,
que às vezes, extasiada, a alma quer ficar,
como pactuamos o não abandono,
e um ser o refúgio do outro,
o corpo sempre retorna,
e a alma enlouquecida demora a voltar,
vem aos poucos, aos pedaços,
como não sofremos de urgência,
o corpo está ali a esperar.
E assim, suportamos as tempestades da vida,
e persistimos:
plácidos... quando deveria se desesperar,
mansos...  mas intensos... resilientes,
quietos... quando deveria gritar.
E assim, existir nos enfeitiça,
meu corpo e minha alma... tornam-se um,
e encaramos a ventania que for,
temos uma energia incomum,
uns esqueceram o que é,
outros nunca ouviram falar,
- nós a chamamos de amor.

Ari Mota


terça-feira, 8 de maio de 2018

SÓ OS INTENSOS VIVEM ASSIM...

Como o tempo me ensinou...
Hoje, ao despertar para viver mais um dia,
olho em minha volta, e deparo com duas criaturas:
Fitam-me com desejos, apetecem por mim,
cobiçam o meu eu, minha alma.
E uma, atrevida, já está de braços dados comigo,
sussurra coisas insanas,
toca a minha pele suavemente,
implorando a minha decisão,
e parece uma disputa corporal,
puxa-me, quase me arrasta,
e diz que não vai me deixar na solidão.
Mas, com medo de outros tantos erros, desconfio,
ela não está me oferecendo tempo para a escolha,
mais parece um vendedor de utopia,
verbaliza coisa sem nexo, coisas que não presta.
A outra apenas me olha com amor... silencia.
São criaturas mitológicas do meu interior,
paradoxais na minha vida.
- Uma é a tristeza, a outra a alegria.
Não tenho duvidas,
escolho a segunda e saio enlouquecido,
para viver aquele dia,
e o que ainda me resta.

Como o tempo me ensinou...
Amanhã, aquelas criaturas estarão ali,
uma perplexa, me esperando.
A outra, em quietude me olhando.
E todos os dias, é isso, tenho que decidir,
um eterno disparate.
Tenho que controlar as emoções,
e escolher... para sair.
Sei que, lido bem, com essas criaturas.
Verdade é que necessito das duas,
é no abismo entre elas,
que encontro o meu livre arbítrio,
e não me vergo em desventuras.

Ser feliz... é uma atitude, uma postura desmedida,
é enfrentar essas criaturas, até o fim,
e não deixar nada de pequeno nos consumir.
- É para os que tentam, insistem, com seus amores,
mas, também para os que depois de tudo, desistem,
tem a coragem de reiniciar,
de encontrar um novo abraço, a delicadeza de um novo beijo,
de uma nova perspectiva para a alma, e novamente amar.
Creiam... ser feliz é só para os atrevidos,
esses que mergulham dentro da alma, e fazem suas escolhas,
- e só os intensos vivem assim.


Ari Mota


terça-feira, 10 de abril de 2018

TENTE O AMOR

Se acaso, pressentir com clareza a si mesmo,
e perceber que, o que acumulou vida afora,
em vez de... ter te libertado, te aprisionou,
e essas quinquilharias,
e tudo que conseguiu entesourar,
pode ter te edificado um ser fútil e raso,
e que o desespero às vezes te acena,
e lhe rouba a emoção,
desconstruindo a solidez que achas que tens,
e saber que, essas coisas turvam o sonho,
inibem os vôos, e só se apequena,
e obscurecem o espetáculo do encontro,
ofuscam a delicadeza do abraço,
ensombram a percepção da flor,
impossibilitando a singeleza de pactuar a vida,
e repartir a solidão.
E neste talvez, e nesta incomensurável dúvida,
perceberes um desalento na alma,
uma desmedida aflição,
- tente o amor.

Se porventura, olhar em profundidade,
mergulhar nesta imensidão de dentro,
e deparar com um vazio descomunal,
estéril,
e essa coisa apertar o peito,
essa que incomoda sem dilacerar,
e não conseguir definir este ardor,
e dar-se conta de uma ânsia descabida,
um descontentamento estranho,
uma apatia,
uma insensibilidade pela comoção,
uma ausência de energia:
talvez, isso tudo, sejam os excessos,
essas coisas penduradas do lado de fora da alma,
frias, cinzas, frívolas, que só nos ilude,
mas, inda há tempo de preencher este vão,
derramar afeto e quietude.
- tente o amor.

De todas as hipóteses, só uma é factível.
- Ir... sem nada levar.
Excetuando a alma, essa sem limites,
essa que não tem como mensurar,
essa que armazena,  a sutileza de uma entrega,
a finura de um viver para o outro, até o fim,
a leveza de um deixar o outro livre e nada impor,
essa que cuida dos nossos devaneios, nossas desventuras,
essa que aceita a nossa poesia,
e silencia com as nossas loucuras,
e leva o nosso amor.

Ari Mota



sábado, 10 de março de 2018

O CULTIVO DE SI MESMO

Que nenhuma tempestade nos amedronte,
e esse medo de cultivar a si mesmo desapareça.
Que saibamos preencher esse vazio que nos habita,
essa imensidão de duvidas que nos provoca.
Talvez, narcisar é o que nos falta,
cultuar mais a própria beleza,
essa escondida na alma,
essa que por não conhecê-la, nos sufoca.

Que estes vendavais não nos subtraíam o rumo,
e que possamos abandonar esse olhar para fora,
mudar o que está por dentro,
e desconstruir a incerteza de não ser mais um.
Andamos com muita pressa,
um inquietar sem igual, uma ânsia descabida,
e ficamos à deriva, qualquer vento nos leva,
e sem saber, não chegamos a lugar nenhum.

Existir... nunca foi tão hostil como agora,
ficamos demasiadamente autômatos,
e desperdiçamos o olhar, o encontro,
perdemos a emoção.
Estamos vagando por aí, cabisbaixo.
Mas, há que se fugir de todos os paradigmas,
se tivermos a intenção de ser incomum,
mesmo sabendo da solidão.

Temos que viver sem dilacerar a alma,
deixar pelo caminho tudo que oprime e cansa,
aprisiona e nos encurta,
e aumenta nossa loucura.
Que saibamos dançar em noites de desespero,
rir das vezes que nada deu certo,
silenciar quando era inútil debater,
e aproximar para não sofrer de lonjura.

Que tenhamos a coragem de cultivar nossos desertos,
semeá-los com singeleza,
e com extrema sensatez.
E atrever-se em dizer “eu me amo,”
Vim me edificando, e este sou eu,
e faria tudo do mesmo jeito, e outra vez.

Ari Mota



terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

A INFINITA ILUSÃO

Não espere...
Que descubram a pessoa que você se tornou.
Serenamente desponte sem ninguém notar.
Revele-se para si próprio,
sem nenhuma ufania.
Se não conseguir aplausos, aceite a platéia vazia,
mas, nunca abandone o palco,
ou passe por aqui, sem amar.
Existir é isso, é uma infinita ilusão.
E se espera um milagre,
que ele venha de dentro.
Nem que tudo isso demore,
tenha o peso de uma vida,
ou abeire-se a solidão.

Não espere...
Que lhe proponham conhecer as receitas da vida.
Só deparamos com essas atenuantes ao caminhar.
O universo espera que você faça diferente,
esse é seu alento.
E edifique quem você é, patenteando o seu talento,
com temperança e equilíbrio,
sem nunca assoberbar.
Irão tentar lhe roubar a energia e a alta estima.
E quando falarem sobre o medo,
vire-se e vá embora com a sua coragem.
E se acaso discursarem sobre ausência,
levanta-te, e saia para o encontro.
Vá viver feliz, mude sempre de lugar,
um lugar acima.

Não espere...
Que lhe tragam a utópica impressão da leveza.
Silencie, questione, pergunte, até encontrar.
Vergue-se em resilência,
e desista de se definir.
Faça-se assim, imperfeito, estamos aqui para evoluir.
Mas, nunca renuncie ao combate,
ou transite sem lutar.
Aproveite-se da vida, sabendo da profundidade da dor.
Se tiver que ressentir,
preencher os vazios da alma,
que sejam de contentamento,
alegria desmedida,
e invariavelmente de amor.

Ari Mota


sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

O TEMPO QUE HÁ DE VIR

Que... o tempo que há de vir,
seja o reflexivo das minhas escolhas.
E que, eu continue tendo pausas,
silencio e contemplação.
Consiga segredar os sonhos,
e transitar... assim desapercebido,
quase esquecido pela magia do anonimato,
sem se sentir... na solidão.

Que... o tempo que há de vir,
reverbere todo o combate que travei.
E eu continue assim, um aprendiz desmedido,
sem perder meu maior defeito... a cortesia.
E jamais esconda os poucos enganos que cometi,
nas tentativas da construção do que hoje sou,
como não sei aonde vou... que nunca matem o meu encanto,
e o que me resta ainda... seja uma delicadeza de fantasia.

Que... o tempo que há de vir,
seja para semear singeleza.
E eu possa continuar cultivando a minha alma.
Me... rebrotando após as ventanias.
Tolerando toda insensatez que me rodeou,
atenuando todas as faltas de clareza que vivi,
avivando as emoções que senti... todos os medos que tive,
da resiliência que tirei de dentro... para as travessias.

Que... o tempo que há de vir,
seja de encontro.
Que eu saiba mais dessa moldagem que em mim habita.
Desse talento que tive em tolerar a aridez do caminho.
De resistir à inclemência das tempestades,
e mesmo assim... continuar,
não permitindo que me roube à ilusão de que tudo se renova,
nem da prova... que tudo é fugaz como um vendaval,
e que às vezes podemos ficar sozinho.

Que no tempo que há de vir,
tenha mais leveza.
Eu não mais, fique... a procura.
Que eu continue com os meus amores,
amando o rock and roll, Albinoni e a poesia,
e que entre escolher... sair com a lucidez,
eu prefira uma outra ingênua companhia:
- a loucura.


ARI MOTA


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

DESCORTINAR


















Tudo teve uma lentidão incomensurável,
e por diversas vezes sozinho,
quase entrei em desespero.
É que tudo que vivi...  foi muito hostil,
e a vida me foi áspera,
bruta como... noites de temporal,
fria, estreita, rude como caminho sem volta,
e inundar essa alma de amor,
foi-me um exagero.

E eu resiliente... nunca desisti,
de encontrar-me.
E fui me descortinando,
deparando com esse que sou,
encontrando com os meus paradoxos,
desvestindo as minhas perspectivas,
e tímido, edificando as minhas escolhas,
no sentido mais profundo.
E sem saber onde parar...
fui me encontrando.

Tudo que passei foi intenso,
recomecei por diversas vezes.
E fui me redescobrindo a todo instante,
eu já não mais buscava o tangível,
faltava-me algo abissal, maior que eu.
E distraído, deparei com a imensidão da alma,
e hoje, quando recomeço, é ali o meu primeiro passo,
é ali, onde encontro a minha sinergia,
onde pactuo seguir sempre adiante.

E assim, me descortino,
renovo de tempos em tempos,
também pudera, jogo fora... os meus excessos,
e tomo de assalto... os meus vazios.
Rasgo esses lacres que tentam colar na minha pele,
desfaço esses nós que permeiam o meu caminho.
Lido com as minhas duvidas com desassombro,
sempre atrevo a enfrentar os meus medos,
e dançar loucamente com os meus desafios.

Que ao descortinar, me... escape a solidão,
e eu continue tendo lucidez para ouvir,
e quietude em querer falar,
e nunca segure essa alma que pulsa,
que às vezes acho que vai sair de mim,
essa que reverbera em sempre reiniciar,
essa que me acalenta e me acalma,
essa enlouquecida... atrevida,
que me faz sempre recomeçar.

Ari Mota



terça-feira, 7 de novembro de 2017

EMPODERAR

Se tiver que empoderar... que o faça... para dentro,
silenciosamente.
Ocupe cada possibilidade de si mesmo,
cada expectativa... cada resquício de fantasia,
cada devaneio... cada ímpeto de loucura,
revire pelo avesso todos os seus delírios,
visceralmente.
E depois, invada seus vazios, inunde-os de ilusão,
sonhe como se estivesse em desespero,
e se for construir um templo... que seja dentro da alma,
e que seja o único refugio nos momentos de tempestades,
e que ele seja somente seu, intocável,
do tamanho da sua solidão.

Se tiver que empoderar... não o faça... para os outros,
não construa nada do lado de fora,
aprenda a não possuir nada,
arraste... somente o que precisas,
leve apenas e tão somente... singeleza,
tenha candura nas palavras e no olhar,
no mais... nada mais... antes de ir embora.
E depois, se errar, ria desesperadamente com leveza,
e se reinvente, para logo ali... fazer melhor.
E se o acaso emudecer-lhe, provocando... medos,
-quem perde a voz... ganha o silêncio,
passa a possuir profundidade.
Se apagarem as luzes... acenda as estrelas,
o seu fulgor tem que vir de dentro,
da sutileza dos seus segredos.

Se tiver que empoderar... conceda-lhe,
as próprias escolhas... seja líder de si mesmo,
sem ninguém saber.
Repense a direção e as emoções,
esquiva-se da escuridão... irradie luz,
essa coisa... mais adentro, intrínseca, invisível,
o que não dá para mensurar, nem ver.
Pense com força, rijeza... resiliência,
sem abandonar o singelo, o simples,
e sem muitas peripécias e nem imensas proezas.
A vida acontece neste instante,
é fugaz como uma ventania,
estúpida nos rouba a ousadia,
viver... é só para quem é artífice das delicadezas.
Se tiver que empoderar... descortine-se,
acautele-se com o que pensas, e a palavra que verbaliza,
pondere a medida do “não” e a grandeza do “sim”
reveja o sentido que caminhas,
a vida acontece no seu decorrer,
ela só é igual no fim.


Ari Mota


segunda-feira, 2 de outubro de 2017

OS SINAIS QUE RECEBI

Lá naqueles tenros anos,
quando não conseguia fazer da vida um ritual,
eu já o percebia orbitando em mim,
e eram sinais vindos de lugar nenhum,
chegavam frágeis, sem muita robustez.
E o tempo voraz, foi-me seduzindo,
e quase sucumbi a sua ligeireza,
sem perceber que tudo vinha de dentro,
desse íntimo visceral.

E hoje, depois de tantas estações,
de tamanha resiliência,
ele ressoa intenso no meu interior,
faz-me, permitir momentos de silêncio,
e de contemplação.
De descoberta dos próprios limites,
do tão exíguo, é o meu existir,
do tão pequeno, é a minha altivez,
e de poder ser tão vazio, a minha essência.

Para não fugir de mim, nem sofrer de longitude,
tive que mudar incessantemente.
É que, quase me perdi com tantos caminhos.
Tive que celebrar o romper do sol e o seu crepúsculo,
e andar comemorando a vida,
desde quando, casualmente descobri sua finitude.
Passei a ornamentar a minha alma,
de poesia, loucura e leveza.
Compreender que nada posso levar,
nem juventude, nem velhice, nem minha pseudo beleza,
e se deixar, somente a sutileza dos meus carinhos.

De todos os sinais que recebi, e rituais que pratiquei,
compreendi... que tive que emprestar o colo, repartir a solidão,
recepcionar borboletas, uma louca bailarina e um beija-flor,
e me banhar por dentro, promover uma assepsia na alma,
entender que poucos foram os que amei, e não foi minha a ilusão.
E achar que fiz da minha vida um espetáculo,
tudo que edifiquei... não pude e nem posso tocar,
o que construí foi tudo subjetivo,
jamais poderei perder, ou alguma coisa esquecer,
tão pouco alguém me roubar.
E o que na verdade sobrou, permaneceu como sinal da vida,
e foram dois, apenas dois... imensos sentimentos:
Um era o ódio, e eu escolhi o outro:
o amor.

ARI MOTA


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

DISFARCE

Foram muitos... os adeuses,
vim despedindo-me... por quase toda a minha vida.
Para uns até tive tempo de um... até breve,
para outros... apenas desapareci.
Fiz tudo isso, sem nunca ter indo embora,
nunca mudei de lugar.
É que, vim... desvestindo-me... de mim,
permutava-me... sem parar,
e sempre me substituía, quase por minutos, por hora,
era um repaginar sem igual,
redefinia-me sem ninguém saber,
redirecionava as expectativas,
e tudo aquilo que me apetecia,
e me deixava a cada instante, mudava copiosamente,
e abandonava tudo que me definia... sem querer.
Um dia... inadvertido diante do espelho,
não me lembro do tempo, não trago de cor,
mas, despertou-me uma sensação de estranheza,
não sei, se me via com requinte, singular,
só sei, que era uma imagem esquisita, tomada de beleza,
e tinha uma aparência transmudada para melhor.
Na descoberta... entendi dos meus adeuses,
das minhas despedidas.
Eram dos meus recomeços e não do meu fim,
como sempre tentei outra vez,
e para não perde o brilho, reverberava para dentro,
e em resiliência... rebrotava-me,
eu despedia do que fui ontem,
e nunca de ninguém ou de mim.
Foram transformações tamanhas, descomedidas,
vicissitudes que só me fizeram crescer,
e poucos foram os que... amei,
e souberam das tempestades que encontrei,
e com isso... abandonei certos olhares,
e me apaixonei com a minha atitude,
acabei amando essa solidão,
e nada do exterior tem me ferido em demasia,
silencio-me em vez de enfurecer,
abstenho-me na hora de conjecturar,
não ando recebendo como visita... a aflição.
Reflete em mim... o que eu somente manifesto,
e ando distribuindo estrelas, borboletas,
afagos, ternura em noites de sofreguidão.
Não tenho muito que reparar,
não tenho que fazer nenhum ressarce.
Só sei, que aos poucos,
estou tornando-me o que gostaria de ser.
E tudo isso... sem disfarce.

Ari Mota



terça-feira, 1 de agosto de 2017

TRANSBORDAR

Nunca o vi... eu sei,
mas, o percebia em meu entorno,
contemplava-me como ninguém,
e eu, me sentia emoldurado dentro daquele olhar angélico.
E, ele sempre me sussurrava:  agüente firme.
Outras vezes, segredava-me:  espere.
E muita, das outras vezes, murmurava:  levante,
não desanime.
E assim... seguiu as coisas, e o meu existir,
e nada me foi em vão.
E esse ser espectral, sempre estava sentado ao meu lado,
inundando minha alma de brandura,
ficando comigo em noites de desespero e solidão.
E tudo no fundo... foi profundo... belo,
até que... passei a me reequilibrar diante dos temporais,
e em vez de ser sombra, passei a ser luz,
iluminei-me por dentro,
expandi a minha essência... de simplicidade,
tornei-me tão pequeno... que cresci sem saber,
virei uma imensidão de possibilidades,
e depois, gargalhei dos meus fracassos,
e tímido... ocultei os meus triunfos,
sem de nada... me arrepender.
Transmudei com tamanha impetuosidade,
que às vezes procuro aquele que fui ontem,
e não mais me encontro.
E me vejo assim... vivendo somente o hoje,
sei que... beirei a mais lúcida loucura,
e experimentei ausências absolutas,
sem perder a ternura.
Evolui sem perceber, e não me restou... nada mais,
a não ser... saber o que sou: essa incompletude,
essa quietude... cheia de emoção.
Pois, viver me foi intenso... impar,
uma vida só...  foi-me, e esta sendo... muito pouco,
necessito de outras tantas, para me completar.
E hoje, sei o que estou fazendo de mim,
sou um poema inacabado,
em busca da mais perfeita rima.
Sou rudeza que se refina,
em busca do mais alto requinte,
antes do fim.
E a vida? Me, foi um esplendor.
Quando sozinho... contemplo as estrelas,
quando na multidão... contemplo a mim mesmo,
danço enlouquecido com a própria alma,
e isso me faz... transbordar de silêncio,
e de amor.

Ari Mota


segunda-feira, 3 de julho de 2017

DESTEMIDEZ DA LUTA

Que eu nunca saiba mensurar o tempo,
que vivi.
Que eu tenha apenas a dimensão do tempo,
que me falta.
E que, continuar aqui, 
ou morrer... nunca me foi uma escolha,
- e nem sei como, cometer tal loucura.
Como não tenho como voltar,
por caminhos que passei... infinitamente a procura.
Que eu saiba, inda impelido,
pelo encanto do existir, pela destemidez da luta,
compreender... que depois de algum tempo,
tudo isso... todo esse meu medo e desespero,
transformará em beleza e ternura,
e que resistir continuará sendo a minha substância,
e que a resiliência que mora em mim,
que me habita, permanecerá visceral, profunda.
Que eu nunca, diga nunca,
e que tudo seja um talvez,
uma incerteza descomprometida.
Que eu possa debruçar apenas em reinícios,
que, de todos os meus fascínios,
resistir... seja o maior deles,
e continuar... seja, a minha atitude mais atrevida.
Que eu nunca saiba mensurar o tempo,
que sofri.
Que eu tenha apenas a certeza que ele me tornou,
mais compassivo.
Que eu encare o tempo que me resta,
como o melhor que eu tenho.
Quero que ele venha solto, descomedido,
venha sacudir a alma,
e melhorar com delicadeza o que sou.
Que eu jamais saiba o tamanho do tempo,
nem que um segundo possa ser uma eternidade.
Que eu tenha apenas a grandeza,
da sua metamorfose em mim, e do quanto sobrevivi,
varias foram às surras que levei da vida,
me levaram até ao chão,
e levantei varias vezes, e não morri,
só me fiz ser... evolução.
Que eu jamais esqueça...
que foi no desconforto do tempo que cresci.

Ari Mota