sábado, 21 de julho de 2012

SOLIDÃO COLETIVA

Primeiro, entrou sem pedir licença,
depois se instalou ao meu lado, esbarrou na minha pele,
como quem viesse me roubar o perfume, a minha essência.
Ficou ali de vigília... com as mãos no queixo me olhando,
como quem acintosamente fosse invadir a minha alma,
e tudo virou quietude, sumiu o barulho... e chegou a calma,
achei que o silencio era solidão,
e que o meu isolamento era desespero,
minha angustia... resignação.
Mais tudo era fantasia, pura utopia...
Eu na verdade estava fugindo da agonia,
e absorto na imensidão da rua, no vazio que se acentua,
temia estar imerso na coletiva solidão,
perdido... sozinho, no meio da multidão.
Mas, o que fiz... foi escassamente entrar para dentro... de mim,
e o destino me obrigou a fazer uma reengenharia do meu existir,
fiz de mim um lugar de contemplação, um refúgio de mim mesmo.
Vivo assim... parece que estou em retiro, só... em remanso.
Mas... sou ousadia, destemor... sou amanhã,
jamais deixarei de imprimir o atrevimento do meu grito,
nem recolher em desanimo o meu olhar, ou desistir.
Solidão é para os que em excesso esquecem o hoje,
e antecipam o amanhã, e arrastam em desassossego o ontem.
E como não bastassem... vivem esse descomedimento de voltar,
vasculhar o passado, remastigar em aflição as saudades,
restaurando em melancolia as derrotas...
E remoendo em inquietação as magoas e as verdades.
Existir é um extasiar diante do inusitado e do medo, mas continuar,
não é permitir o esvaziamento da energia da alma, e perdê-la ao vento.
Meu caminho...
bifurca em vários trechos, tento atalhos,
veredas em imaginação... às vezes me perco, outras me encontro...
vou sozinho,
tenho uma luz própria, vem da minha alma... sou pura tentativa,
só não sou e nem parte faço... desta solidão coletiva,
desta ausência de perspectiva...
e amor.

Ari Mota

sábado, 14 de julho de 2012

ANTAGONISMO DO CAMINHO

Um dia...
o destino inadvertidamente esqueceu em meu caminho:
uma caneta e uma espada.
Confesso... a espada brilhou nos meus olhos,
sua lamina com a agudeza dos seus gumes, deu-me coragem,
atrevimento.
Até pensei que doravante meus confrontos, meu corpo-a-corpo,
seria de um soldado de infantaria e iria me trazer todas as vitórias,
em contentamento,
e eu iria combater em todos os terrenos com todo o destemor.
Por um tempo a portei no coldre, a carreguei no ombro,
deu-me força, vitalidade.
Houve um momento... com ela em punho,
quase... sai por ai, julgando os outros sonhos,
e sentenciando outros vôos, este é meu testemunho.
Mas... sorte que nunca a usei, nem a desembainhei em luta,
e com ela nunca feri, nem sangrei.
E o tempo passou... ela não só pesou no corpo, como na consciência.
Um dia... em desilusão a abandonei pelo caminho.
E em delírios... resolvi utilizar a caneta, transformei-me em poeta.
Obvio é... sou quase uma peça de museu, uma coisa em desuso,
sou um escritor prolixo, um escriba difuso, com uma rima em abuso.
Transcrevo linhas atrevidas, teclo sempre a palavra: amor.
Sou às vezes obstinado, repetitivo... em dizer:
É preciso ter coragem para ser feliz, sempre.
Minha escrita é lúdica, quase incompreensível, ataco sem machucar,
sangro às vezes sem ferir, travo diálogos com a própria alma.
Redijo somente para os loucos, e aos que ainda insistem em amar.
Falo aos que ainda conseguem ver as borboletas, os anjos,
e dançam com loucas bailarinas, se emocionam diante de um Jequitibá,
e em devaneios extasiam-se perante uma flor.
Componho para os que tracejam um caminho, em esperança.
Para os que jamais irão abrandar a luta, ou desistir,
poeto para os que dançam com o medo,
e não fazem segredo do seu aguerrir.
Sei que é pouco... ínfimo até,
mas, falo para os que sabem dos perigos do cotidiano,
e sem engano, continuam... enfrentam os temporais,
o mar bravio... as incertezas do destino, os ventos... a maré.
Um dia... abandonei a espada, que todos a tem em mãos,
a portam como um troféu, um símbolo de poder,
e ficam assim, toda uma vida, e são... mais um na multidão,
perambulam como autômatos... nesta coletiva solidão.
Eu... virei poeta, silêncio... olho para a vida com amor,
sou quase isolamento... em tudo encontro beleza,
poetizo a vida... com singeleza...
hoje, sou contemplação.

Ari Mota

domingo, 1 de julho de 2012

UMA ALMA EM SOBREAVISO

Houve um tempo que tentei voltar, desistir...
Mas eu não sabia... o destino estava atrás de mim,
removendo o caminho,
destruindo as pontes, as referências, os retornos...
Quando olhei para traz encontrei um nada abismal,
não tinha como voltar sozinho,
além da solidão, do frio... e o vazio do regresso,
morreria ao meio do vendaval.
E fui apreendendo a apagar o passado,
mas... bom mesmo, e ao meio de tudo isso,
foi que, consegui colocar na minha bagagem:
Valores... de alguns, que comigo conviveram.
Coragem... de outros, que ao meu lado enfrentaram os temporais.
Valentia... de outros tantos, que me ensinaram nunca desistir,
e assim tem sido minha viagem.
Como não posso e nem consigo voltar,
fui apreendendo a morrer... todos os dias,
e renascer no alvorecer dos meus sonhos, em todas as manhãs,
nelas... sempre encontro um novo dia,
uma nova vida, um novo olhar.
E existir tem sido um acinte a teimosia, um passeio descomunal,
não desisto...
mesmo estremecendo diante da incerteza,
rompo às vezes o silêncio de mim mesmo e de forma visceral,
aprendi a me destemer,
sem se acabar, ou achar que vou morrer,
e assim... como desconheço o voltar,
tenho ido... um passo de cada vez, e sei que posso,
sim eu posso...
dentro de cada um, existe, “um” outro... que pode mais,
uma... outra alma em sobreaviso, em prontidão,
e eu acredito neste outro... que na verdade sou eu mesmo,
que me acalenta em madrugadas de aflição.
Houve um tempo que tentei desistir, voltar.
Mas eu não sabia... o destino só me deu uma direção... ir, caminhar.
Em vista disso, eu sei somente seguir... com todo o destemor.
Vou ao chão muitas, das vezes... e levanto...
Porque, o que busco nesta minha passagem... aqui,
é amor.

Ari Mota

domingo, 24 de junho de 2012

PROVER A ALMA DE SONHO

Para todos os reinícios... recomeço,
arrisque mais um tanto... e depois mais uns...
sem desistir nenhuma vez.
Todavia, se a incerteza acomodar ao seu lado, como uma ventania,
use a força do vendaval para mudar, sair do lugar,
descortinar todas as duvidas, e desnudar o talvez.
Nem que irresoluto, esteja com medo, nem que o peito arda de solidão,
ou que a insônia traga desespero... e a madrugada roube a ilusão.
Não permita... esvaziar a alma,
pode ser que você passe a consumir a si próprio,
e, ficará... vazios, onde deveriam existir sonhos.
E de todas as patologias... a autofagia da alma,
é a mais perversa delas, a que vai lhe abater,
e subtrair-lhe a calma,
não só nesta vida, como em outras que viverá,
não se deve fugir dos combates, dos embates que o dia nos dá,
se o fizer neste existir... morrerá para sempre,
ofereça resistência... arrisque mais uma vez.
Reabasteça a alma para as intempéries do destino,
destes invernos que chegam sem avisar.
Recolha-se, realinhe-se...
Faça uma reengenharia no olhar,
traceje um novo caminho, nem se sozinho,
tiver de continuar.
Existir é assim... tem suas estações.
Prepare-se, são sucessivas transformações,
a vida tem seus invernos, mas também seus verões.
Não esqueça, de prover sua alma de sonhos,
se, vazia... terás que nutrir-se, da sua própria substância,
e tênue é nossa energia.
E existir é assim... tudo, num tempo muito curto, pode esgotar.
Proveja de sonho... a sua alma,
arrisque mais um tanto...
Continue... nada termina... nem o amor, nem as batalhas,
só mudam de tempo,
e de lugar.

Ari Mota

sábado, 16 de junho de 2012

A FORÇA DA ALMA

A vida é uma grande arte... e inacabada,
não tem como dar a última demão,
ela sempre terá que ser retocada.
E todas as vezes que o silencio anteceder a calmaria,
olhe para dentro...
abra o peito, arranque da alma toda a força,
equilibre-se em si mesmo, rompa todos os temores,
e prepare-se, um dia... inadvertidamente,
pode ser que você seja interrompido pelo barulho das ventanias.
E assim tem sido a minha vida, não será diferente da sua.
Portando... avigore a coragem,
no isolamento da noite, ou nos passos na rua.
Quando tirarem-lhe o chão e não ter aonde ir... nem ficar,
ainda lhe resta uma vicissitude... voar,
e isso é só para quem sonha, e sonhar é possuir asas invisíveis.
E depois... ria de si mesmo e recomece... tenha a avidez do recomeçar.
Quando a aridez do caminho lhe fizer companhia,
e a solidão lhe abraçar em agonia,
olhe para frente, levante o olhar.
Você é maior que todos os universos, maior que o infinito,
ouse no desafio... ao inusitado, nem que seja no grito.
E o que você precisa é uma correção de rumo,
uma trajetória mais lúdica... a vida tem que ser um prazer,
mesmo quando acabar o caminho e no intimo sentir-se... sozinho.
Existir é a arte de se refazer...
E tudo fica ínfimo, tênue: ganhar ou perder,
se tudo é uma ilusão... até perder-se em solidão.
Abra o peito, arranque da alma toda a força, e siga,
desapareça ao meio das ventanias, em busca dos sonhos.
Abra o peito, arranque da alma toda a força,
e se nela ficar vazios... e para não perder a ternura,
à preencha de alegria e brandura,
sem perder todas as outras grandezas:
um abraço, um beijo ardente, uma cama quente,
e o voar das borboletas, o bem-te-vi, o beija-flor,
mais se, contudo, nos reinícios... inda ficar vazios,
coloque na alma, mais...
amor.

Ari Mota

domingo, 10 de junho de 2012

A DISTÂNCIA DO NOSSO AMOR


Eu às vezes te procuro...
Só a encontro do outro lado da distância que nos separa,
e eu a queria assim... abraçada, a minha alma,
quase dentro de mim.
Hoje, a cama em desalinho... reclama por você,
e a insônia invade a minha calma.
E eu tento mensurar o tempo que dura a sua ausência,
e na descoberta vejo que não tem fim.
Às vezes encontro um intervalo entre nós,
um “nada” que nos envolve, uma dor imensa,
uma saudade... sem partida,
um adeus... sem despedida,
um “quase nada” entre eu... e você.
São vazios desnecessários, solidão descabida,
eu às vezes te procuro...
Só a encontro do outro lado do sonho,
como uma miragem, uma aragem desvalida.
O amor precisa pactuar o nosso encontro,
um tem que sentir o perfume do desejo,
o outro... abraçar, sentir a pele, o sabor do beijo.
Eu às vezes te procuro... necessito da sua singeleza.
E só... a encontro do outro lado... fria... na tela de um computador.
Mas, o que eu queria... era um passeio de mãos dadas.
Eu queria o toque, contar minhas histórias,
ouvir as suas, e depois... enlouquecidos,
dançar ao meio das borboletas, rir... chorar,
e em desvario... abraçar teu corpo, amar.
E depois, roubar-lhe um suspiro e lhe ofertar uma flor.
Eu às vezes te procuro...
E... só encontro o abandono que nos separa,
a distância do nosso amor.
Tudo isso, são delírios de um poeta,
que em saudades, encontra... vazios,
precisa da suavidade do aproximar-se, do calor da alma.
E você... está sempre do outro lado, distante,
escondida... na indiferença de um monitor.

Ari Mota

domingo, 3 de junho de 2012

ACENDER A PRÓPRIA LUZ


Se ficares olhando em retrospectiva...
E não conseguir mensurar as mudanças da alma,
e um desassossego insistir em ficar e demorar a sair,
e depois, uma angustia descabida, uma dor desconhecida,
apossar do riso, e fazê-lo afogar no próprio vazio, sem sobreaviso,
e uma ausência de si mesmo... transformar tudo em escuridão.
Talvez... sua trajetória não foi evolutiva... inerte,
não caminhou em busca da própria luz,
ninguém nasce o que é... tudo é feito de mudanças:
Altera-se, aprende, perde, caminha sozinho,
seca as lagrimas, as devora em noites de desespero,
ri, e continua...
Viver é provocar o medo...
é aprender a existir até com o arrepio da solidão.
E o tempo nada ensina, se dele nada extrair.
A vida é como um túnel... a luz sempre estará um pouco adiante,
como se fosse um horizonte.
E para alcançá-la... tem que quebrar todos os paradigmas,
desprender-se de todas as verdades, e de todas as mentiras,
refazer todos os caminhos, renavegar em todos os mares,
reparar todos os abraços, reconstruir todos os olhares.
E viver é isso... é uma empolgação descomprometida,
é um... agarrar ao imponderável fim... e assim,
vividamente... desprender, de todos os temores, e hesitação.
Acorde sempre com saudade do poder que você nunca teve,
e desafie você mesmo... ao novo, ao inusitado,
só você, sabe... quem és, esta busca é só sua.
Abandone tudo que te capture, te ofusque, e que não te seduz,
desapegue da pequenez dos que o tratam com desdém,
e não reconhece a sua própria luz.
Só quem se liberta... evolui.
Seja de suas asas... o gestor,
faça da sua alma, luz...
amor.

Ari Mota

segunda-feira, 28 de maio de 2012

ALMA QUÂNTICA


Eu que ávido por saber...
jamais entendera sobre quântica.
Hoje, as 06h30min quando o sol, tímido... descortinava,
uma “catadora de Papel” ministrou a melhor das aulas.
Ao colocar o lixo, pediu-me se poderia abri-lo,
queria retirar latinhas e o mais importante, os lacres.
Pois, com eles trocaria por cadeiras de rodas,
e que para o asilo ela doava:
“é pouco, mais é o que posso fazer”
- faço com toda a minha energia.
E eu... que sempre quis quantizar a energia do amor,
em metáforas... e como virei poeta, entendi tal grandeza,
que diante de tamanha transcendência, e beleza,
emudeceu-me.
Diante de mim... perplexo, estava uma alma quântica.
Parecia um anjo azul, um adulto índigo,
irradiava uma luz interior,
quantizava a energia molecular dos sentimentos.
Era toda... brandura, uma infinita doçura.
O mundo ficou menor, e tudo se apequenou:
o dinheiro, a soberba, a avidez do lucro,
inclusive... eu.
Quis entender como quantizar a energia do amor,
entender de quântica... e consegui,
nem Albert Einstein, nem Max Planck,
deram-me esta descoberta.
Eu que ando tentando inventar um novo mundo,
e libertar-me do que me limita,
e ando provocando com a minha poesia,
um reformar da inteligência, um reequilíbrio da alma,
com mestria,
quantizei a energia do afeto.
- e... é um ato apenas,
um lacre apenas,
uma atitude apenas,
singeleza...
amor.
Nada mais.

Ari Mota

domingo, 20 de maio de 2012

ANTIVÍRUS PARA A ALMA


Se...
um espaço vazio brotar visceralmente dentro do peito,
e o vento da ousadia não mais esvoaçar rente aos seus sonhos,
e o medo vier... impiedosamente lhe fazer companhia,
e a dúvida instalar como um invasor em agonia,
e lhe tirarem o vôo livre, o arbítrio, sua imensa determinação,
e depois... inibirem os saltos profundos dentro de si mesmo.
Podarem o riso, e fazerem o que for preciso,
para neutralizar o que tem de autentico e de verdade,
e depois... deixá-lo em aflição.
Se...
fores invadido...  e restringirem o seu abraço,
querendo alterar o seu rumo, direcionando seus desejos,
alojando dentro do peito a incerteza e o desamor...
Não tenha dúvida... um vírus adentrou na sua alma,
contaminou o seu caminhar, corrompeu o seu olhar,
entrou sem sua permissão, aprisionou o seu grito,
inibiu o seu acesso a alegria, e em demasia,
o transformou em solidão.
Terás que aceder ao seu destino, por outro caminho.
Mas, não ponhas a andar, sem a avidez de um guerreiro.
Nem transite desatento sem ver... nos outros a indelicadeza.
Nem desperte indefesso para passar o seu dia.
Talvez... onde você está, não seja um lugar bom para se viver,
tenha coragem de mudar tudo isso,
e faça tudo sem perder a delicadeza.
Invadiram sua alma... só por vê-lo feliz,
só por vê-lo amando, dançando com aquela louca bailarina,
contando estrelas, escrevendo poemas, virando poeta,
passeando em alucinação com algumas borboletas,
cuidando do bonsai, sentindo o perfume da flor.
Se...
Perceberes que um vírus invadiu a sua alma,
tenha calma.
Não tenha medo... vou te contar um segredo.
Só tem um antivírus...
o amor.

Ari Mota

domingo, 13 de maio de 2012

CATIVAR O MOMENTO

Volte...
vez por outra no passado, para buscar o que viveu,
e depois mergulhe na ilusão do amanhã para buscar os seus sonhos,
mais volte em ligeireza... para o seu agora,
este é o seu grande momento.
Volte... algumas vezes onde a inocência se perdeu,
e nada traga... nada busque, nem remoa angustias vividas,
não ouça o eco dos soluços, nem filtre as lagrimas vertidas,
jogue-as, esparrame-as ao vento.
Vá...
entranhe-se na distancia do amanhã, na certeza da dúvida,
e que nada possa encontrar... além dos segredos do existir.
E depois venha viver e cativar este instante,
e em êxtase viver este momento... senão ele passa,
e um vazio arromba a sua alma,
escancara a sua lucidez, o deixa à margem,
sem alento, sem vontade de continuar.
Não ande a procura do que passou, nem tema o que vai chegar,
podes embrutecer a ousadia e abandonar o atrevimento,
e morrer... antes de arriscar.
Cativas o agora, este momento...
Ouça a musicalidade do mundo, aperceba as pessoas,
o murmúrio de um rio, o cantar dos bem-te-vis,
a visita das borboletas, a coerência de um abraço,
a sutileza de um carinho, o descobrir de um caminho,
e ame em demasia... além do extremo de si mesmo,
ria, dance, sinta uma linda melodia,
antes, que tudo se torne cansaço.
Cativas este momento, ele é único... ímpar,
coloque harmonia no olhar, não viva em descompasso.
O agora... pode ser o último instante, o último esplendor,
amanhã... sozinho... em solidão,
podes não ter ninguém para cativar,
morrer de amor.

Ari Mota

domingo, 6 de maio de 2012

OS GRITOS DA ALMA


Há dentro de mim um embate, um antagonismo sem fim,
tenho um em desanimo... grita o não, o outro em alegria... grita o sim,
há um corpo pedindo descanso, uma alma provocando o rejuvenescer,
às vezes a percebo... arrastando o corpo em desespero,
um querendo ir embora... o outro chegando como se tudo fosse...
agora.
Dia desses o corpo doía, e a alma em descompasso... ria.
Sei que um às vezes provoca o outro... mais tudo isso sou eu,
corpo em desconcerto, alma que renasce todas as manhãs.
Meu corpo cansado, já não mais baila ao ritmo de um rock and roll,
aí... aparece a alma enlouquecida dançando na chuva,
brincando em baixo de um temporal.
E quando a noite cai, o frio vem machucando os ossos,
o corpo corre e esconde em baixo de um cobertor,
mas, minha alma em solavancos desperta em sonhos,
e vai dançar em devaneios... sozinha em noites de solidão.
Um é impaciente, sempre quer adormecer, o outro juvenil... busca viver.
Um descansa, o outro ainda grita por desejos.
Um quase abandonou o tanger do abraço, o outro ainda quer beijos.
Um às vezes enrosca com o medo, o outro é pura ousadia.
Um às vezes senta a beira do caminho, o outro continua,
quase vai sozinho.
E tudo isso vira beleza, harmonia.
Um tem a face carrancuda, o outro ri em demasia.
Um já não acha graça, o outro ainda sonha.
E tudo parece um disparate... mais é pura simetria.
Um quase já não fala, o outro em silencio,
insiste em ser poeta, fala de amor.
Um às vezes já não procura água para regar a si mesmo,
o outro cultiva um bonsai, e uma flor.
Bom mesmo... é que este conflito sou eu.
Na verdade esta guerra aqui no peito completa-me,
me faz continuar, evoluir... me acalma.
Hoje, quando olho no espelho já não me vejo.
Envelhecido...
Hoje... sou mais alma.
E isso me basta.

Ari Mota

domingo, 29 de abril de 2012

ALMAS LIVRES


Existir é assim... um dia você descobre...
que é preciso desatar os nós, despregar os medos,
romper os rótulos, rebentar os lacres, alterar as formulas,
e livre... redescobrir os vôos, e enfrentar os ventos.
Ser livre é mais que uma ousadia...
é mais que um transformar, é mais que um redescobrir-se,
ser livre é uma imersão em si mesmo,
é libertar todas as almas... em encantamentos.
E livre mesmo... fiquei, quando desavistei os outros,
os deixei seguir em silêncio e sozinhos.
Livre mesmo... foi quando os perdi de vista,
os deixei com suas escolhas, dobrando as esquinas do destino,
descobrindo seus caminhos.
Livre mesmo... fiquei quando o meu foco... foi para dentro,
passei a olhar para mim,
e desapeguei-me... do que não era meu.
Livre mesmo... foi quando passei a sorrir,
sem precisar olhar no espelho, e dizer que estava feliz.
Livre... foi quando descobri que embora não tendo nada,
tinha todos os sonhos do mundo.
Livre mesmo... foi quando virei silêncio,
e manso passei a olhar sem culpa, e ver sem condenar.
Hoje... envelhecido, sou todo livre...
E a todos e a mim mesmo:
Prontifico-me nas decolagens, e abraço forte nas aterrissagens.
Existir... viver, não passa de um risco, de um talvez,
aprendi não aprisionar ninguém, que queira em vôo livre...
levantar.
Somente consegui libertar minha própria alma,
quando as outras... também as deixei livres,
para amar.
Livre mesmo... fiquei quando, com todo o destemor,
olhei para todas as almas, sem repreendê-las, e com afago,
e de todos os sentimentos... só de um fiquei refém:
o amor.

Ari Mota

domingo, 22 de abril de 2012

O AMANHÃ


Um dia... e faz tempo.
Olhei pela janela do meu horizonte,
a procura do meu amanhã, das minhas perspectivas,
e atemorizei-me com a dúvida, com as incertezas banais.
Quase desisti dos combates, quase voltei para os braços do medo,
quase fiquei parado nas curvas do tempo,
esperando o passar dos temporais.
Um dia... e faz tempo.
Desconfiei da existência do meu amanhã,
do tempo que haveria de vir, do resto do meu existir.
Intentei conjecturar a sua face, incorporar o seu conteúdo,
e desapontei-me com o vazio do olhar, e nada encontrei.
Por um triz não me aprofundei na solidão,
e por pouco menos, quase fui ao desespero,
e por muito perto, quase no abandono de mim mesmo, não amei.
Mas... resiliente... e sem a certeza do amanhã,
passei a esculpi-lo dentro da minha alma,
e fazê-lo existir... antes de acontecer.
E assim... é o meu amanhã, ele é hoje, sem demora.
Amo, mesmo antes do alvorecer,
abraço... afago... acarinho, antes de ir embora.
Não quero um dia, desdizer: eu devia.
Nem tão pouco, descobrir que tudo foi muito pouco,
e que faltou fazer mais.
E depois, no lamento e na culpa,
descobrir que o amanhã é apenas uma suposição,
angustias existenciais.
Um dia... e faz tempo.
Tive que esculpir aqui dentro... o amanhã,
como sou um ser inacabado, alma destemida,
nada mais, temo.
Nem passado, nem futuro,
hoje... é toda a minha vida.

Ari Mota

sábado, 14 de abril de 2012

CONSTRUINDO O PRÓPRIO TEMPLO


Já andei me procurando...
Vasculhando os templos, os monastérios.
Buscava uma coisa maior que eu,
maior que os meus mistérios,
e por vezes, procurei... nos outros, as minhas verdades,
e a ausência de perspectiva que eu inventei estar aqui dentro.
Assevero... fiquei a deriva... por muito tempo,
confuso, e refém destes vendedores de fé, mercadores de inocência,
estes, que aprisionam o sonho, e não permitem os porquês.
Espantei com a vileza das ações, com a vastidão dos enganos,
atemorizei com a avidez dos lucros, e com o arrancar da lucidez.
Depois, assustei com o extorquir da candura, com a falta de censura,
e com os templos cheios... de doentes de alma, vazios... em solidão.
Enojei-me de todos eles... E na descoberta...
Vi... que não me foi necessário formatar meu caráter em nenhum deles,
cresci livre.
E desde então... iniciei uma obra sem fim,
construo em calmaria... um templo dentro de mim:
Sem dogmas, sem as duvidas, sem as malditas cercas.
Fiz da minha alma, a primeira a ser amada, me amo... assim.
Sou leveza, sou silencio...
Transcendo os meus medos, as minhas angustias... a minha aflição.
Hoje... sou menos desespero, sou mais contemplação.
Já busquei uma coisa maior que eu, maior que o meu existir.
E sem intermediários, contatei... o arquiteto de tudo isso,
e ele chegou suave, como brisa em noites de luar.
Apresentou-se, sem nome... sem religião.
Abri a minha alma como se fosse um templo,
e calmamente ele instalou-se ali, em quietude.
Eu o olho sem medo, e ele a mim, sem nada a cobrar.
Às vezes me oferece colo, compreensão,
outras vezes, sou eu... como nada tenho,
ofereço... a minha admiração.
Já andei me procurando... hoje sou um construtor,
tracei o caminho, norteei o horizonte,
edifico na alma o ‘meu templo’
com amor.

Ari Mota

quinta-feira, 5 de abril de 2012

COISAS DO CORAÇÃO... DA ALMA.


Antes achei que era... coisas do coração,
e fui colocando nele... a sua ausência, o inundei de vazios,
e inventei que você tinha renunciado a mim,
e que entre nós, nascera um deserto em desespero,
e que estava sozinho.
E depois, que você tinha passado como um temporal, uma ventania,
um caso descomprometido, um encanto em desalinho.
Cheguei a achar... que você era um disfarce, um engano,
um capricho do existir... uma fantasia.
Tentei mensurar o tempo da sua ausência,
e descobri que na verdade, você nunca me deixou,
nunca foi embora,
mergulhou através da corrente sanguínea, sem demora.
E certeza foi... espalhou para dentro,
ficou maior que o meu coração,
transfigurou-se na minha alma, passou a ser eu,
em transformação.
E hoje vive aqui dentro do meu peito,
e eu que sou meio que sem jeito,
demoro a te achar.
Vive as escondidas, outras vezes irrompe atrevida,
outras... silenciosa, teimosa... finge que não me vê,
não me abraça, foge dos meus beijos, muda o olhar.
Mas... o que eu quero... é você aqui dentro...
pode fazer barulho, gritar em destempero,
emburrada... franzir a face, cingir os lábios,
e me abandonar um segundo inteiro.
Depois... como uma bailarina louca,
sapatear em noites de solidão... com toda a emoção,
e em desejos sussurrar... que me ama,
depois, quieta adormecer de cansaço,
no meu abraço,
sem ir embora... que fique agora
e para sempre.
São temporais, são ventanias... mas tudo passa,
tudo acalma.
O que há entre nós... são coisas do coração,
são coisas da alma.
Eu te amo.

Ari Mota

sábado, 31 de março de 2012

FEITIÇOS... PARA A MINHA ALMA


Tentei de varias maneiras... fiz algumas formulas em fascinação,
debrucei nos escritos empoeirados pelo tempo,
até alguns ingredientes comprei.
Ensaiei alguns relâmpagos... com os meus abraços,
provoquei estrondos com os meus beijos...
E depois, fiz silencio com os meus afagos,
e percebi que cintilou o meu olhar... quando te encontrei.
Mas, tudo foi tão pouco,
tinha que criar uma irresistível tentação,
um encantamento, para tudo perdurar, durar para sempre,
e fazê-la ficar assim bem perto... dentro do meu coração.
Evoquei força astral, até uma intervenção sobrenatural,
fiz tudo em magia, calmaria... virei até solidão.
Mas, tudo ainda era muito pouco, ínfimo até,
era tudo um quase nada, um talvez... só faltava acabar.
Eu que não queria ficar no abandono,
fiz todos os feitiços para você me amar.
Por um tempo procurei reciprocidade,
mais pudera... era na minha mocidade,
ocasião de colher, e não espalhar semente,
reclamava carinho, calor, corpo ardente.
Hoje, envelhecido...
Com aparência de um mago em descompasso,
descobri que antes eu sabia... hoje, nem tanto,
e de amor pouco sei, ou se sei... só o meu,
e dos outros nada cobro, nem espero ou pouco faço.
Amar é uma propositura íntima, um oferecer,
é um aparar a grama, rastelar as folhas secas,
podar os galhos que ultrapassam as cercas,
é regar a flor.
Hoje, envelhecido...
Enfeiticei... a minha própria alma, a inundei de amor.
E quem me ama... olha-me assim: como sou,
e quem não me descobre,
e não percebe este feitiço que trago na alma,
nunca me amou.

Ari Mota



quinta-feira, 22 de março de 2012

OS LIMITES QUE CONSTRUÍMOS


Há... que tirar de dentro toda a força, toda a mudança,
e encarar o assombro da rudeza humana.
E depois, redefinir o sonho, e reescrever a esperança,
e não esperar nada das aparências, nada de alguém,
nem da falta de solidez quando se fracassa,
nem tão pouco esperar aplausos da débil massa,
o que temos que fazer é recomeçar... seguir em frente.
Há... que se, saltar para dentro, em perseverança,
pois, o que necessitamos, é irmos para o nosso interior,
combater a indolência que reside em nossa alma.
Promover equilíbrio ao descompasso do mundo e dos homens.
Colocar vida... na letargia do olhar, renascer,
desacreditar nos discursos vazios, não alimentar o desamor,
nem a voracidade do poder.
Estamos construindo limites para o nosso grito,
e silenciando a nossa dor.
É hora... de abandonar os paradigmas, os dogmas, as inverdades.
Tudo o que foi criado, cerceou o nosso vôo, o nosso salto,
inibiu a nossa liberdade, aprisionou a nossa consciência.
É hora, de deixar pelo caminho a inércia, mudar profundamente.
Porque a alma transcende o corpo, emite luz, irradia amor.
Agora é a hora do inverso... nós é que vamos conspirar para o universo,
difundir o que temos de energia, de fulgor.
Não haverá limites para quem muda a si próprio,
nem para aos que desconstroem o próprio medo, sem mutilações.
Enxugam a própria lagrima, e descortinam os seus segredos,
e escancaram suas imperfeições.
Nossos limites são cercas invisíveis,
temos que romper o inusitado, mudar.
Nossa alma transcende o corpo, emite luz, irradia amor.
Os limites que construímos,
desconstruiu a nossa capacidade de amar...
os outros,
e nós mesmos.

Ari Mota

terça-feira, 13 de março de 2012

O TEMPO NÃO EXISTE

Pode levar um tempo, uma vida... pode ser até um quase existir,
mas que a descoberta seja como um sopro vindo de dentro,
e te faça ver:
Que o tempo não existe, ele é uma ilusão,
não tem princípio, nem fim,
está escondido absurdamente entre estes dois extremos.
Ele nada mais é... que este instante, o que você vive, e faz acontecer.
Ele na verdade é o tamanho do seu sonho, da sua ousadia,
da sua coragem para evolucionar,
é fugaz como uma ventania, efêmero como uma aflição,
embriagante como a loucura, célere como a estúpida agonia,
ele aproxima em silêncio, fantasiado de calmaria,
e depois como um temporal dilacera a alma, sem sangrar.
Cuidado para não fazer do tempo uma contagem...
do seu desespero.
Ele pode iludir a pressa, e aprisionar o andar,
e em desalinho afastar você... de você mesmo.
Como o tempo não existe, é uma imensa ilusão,
antes, que tudo acabe... antes, que tudo vire solidão,
alinhe-se... o seu tempo é o agora.
Busque o riso sem artifícios, e a alegria sem embriaguez,
e não seque as lágrimas sem razão,
nem tão pouco esqueça pelo caminho... a lucidez.
O único tempo... é o tempo do alinhamento,
entre você e o seu sonho.
E sonhar é um processo ínfimo, sem muita explicação.
Alinhe-se... o seu tempo é o agora.
A vida pode não lhe oferecer outra chance,
não espere, flua como gotas de orvalho ao vento,
pulverize carinho, alegria... pode ser só com o olhar,
seja feliz, hoje... amanhã, pode não dar tempo.
Regue a sua alma, como o jardineiro faz com a flor,
trabalhe... o seu corpo como se fosse um bonsai,
porque tudo se esvai.
Faça do seu tempo... um reedificar,
neutralize a rudeza do cotidiano,
cresça para dentro,
exista por amor.

Ari Mota

quarta-feira, 7 de março de 2012

MULHERES E ROSAS


Não a deixe em céu aberto, a menos que queira bronzear-se.
Se não querendo, não permita que o sol venha ferir essa membrana tênue,
que guarnece tamanha beleza e adorna essa silhueta escultural.
Pela manhã...
como uma rosa vermelha, tome seu corpo e acaricie-o em sentido contrario,
toque sua pele de forma macia...
sinta a aveludes de seus contornos como se fossem pétalas.
Depois...
regue-a suavemente com águas cristalinas salpicadas de estrelas, abrace-a.
No meio do dia...
leve-a a beira mar, alimenta-a de ternura e afago.
Caminhe...
e tome suavemente suas mãos, e apresente-a ao mundo como uma rainha.
No entardecer em baixo de um Jequitibá tome vinho...
e depois tome os seus lábios, a beije por inteiro,
roube o seu perfume, enrosque em seus cabelos, sinta a sua alma.
E quando a lua se fizer presente...
leve-a à varanda conte histórias de loucuras e estrelas,
antes do amor...
Não à trate como opção, a tenha como prioridade.
Estenda sempre tapetes vermelho, ela não anda... desfila.
Ande sempre com purpurina, e aproveite o vento quando ela passar... 
ela brilha, tem que brilhar.
Faça poemas de amor e os sussurre docemente, faça-os dar arrepios, 
seja afável, a tenha em seus braços com ternura.
A cultive como uma flor e a ame como mulher.
Tudo isso são metáforas... em nome do amor.
Se não tiveres coragem para tal loucura...
basta afetuosamente dizer: eu te amo.
E ficar ao lado dela... toda uma vida, 
e amá-la de todas as maneiras.

Ari Mota


Este poema publiquei em Janeiro/2010... ele é eterno, como a beleza de uma mulher.


quinta-feira, 1 de março de 2012

O ÚLTIMO PROJETO DE VIDA


Lembro-me, e como lembro...
E como durou... fustigou a alma,
como o vento faz no arvoredo e o mar bravio... no rochedo.
Foi exaustivo, bateu sem parar.
Mas, consegui romper os paradigmas que me obrigaram a acreditar,
nas cercas que plantaram no meu caminho,
e o rumo a tomar.
Eu que achei que tinha que espelhar... nos outros,
sorte... tive, o destino me fez irromper sozinho,
atrevi a fazer... tudo do meu jeito.
Como a velhice acomodou-se em silêncio dentro de mim,
tive que em calmaria instituir uma rara reengenharia...
para o meu fim.
Em delírios... virei poeta.
Depois, como quem rouba o sonho de si mesmo, e arquiteta,
passei à Projetista.
Estou me reconstruindo, me fazendo menos egoísta.
Construo pontes que me levam além da solidão,
e asas que me propulsam para dentro, dentro do meu coração.
Sou Engenheiro, do meu... existir, calculo os vôos, os saltos livres,
tenho uma formula que até dimensiona a distancia entre eu, e o sonho.
Vivo mais leve, em devaneio às vezes... mais feliz... mais risonho.
E hoje, sei que sou um Arquiteto de mim mesmo,
brinco com as letras, com as borboletas, embora sisudo, às vezes mudo,
faço do meu jeito.
Como ainda tenho muito trabalho, tenho muitos reparos,
ando meio que desesperado, às vezes em agonia,
tento encurtar a noite... e esticar o dia,
o tempo tem sido como uma ventania, e o relógio como um ventilador.
Tenho que corrigir algumas falhas, aparar o jardim,
regar o meu Jequitibá, cultivar o meu Bonsai... antes que ele desmaia,
e não permitir que o último projeto, se perca, se esvaia.
Porque, ele é um olhar sobre o que vivo, sobre o que vivi.
E o meu último projeto é olhar em retrospectiva,
o que fiz... e o que ainda farei...
por amor.

Ari Mota

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

NÃO ESPERE A ALEGRIA PASSAR

Faz tempo...
Inda estava perdido, nas Gerais dos meus sonhos... em agonia,
sondava o destino, a espera de uma carona.
E me vi assim... sentado a beira do caminho, esperando a alegria,
eu achei que ela vinha pronta, embalada em papel crepom,
e que era só abrir e usar, e ela estaria sempre ao meu lado,
seria minha sombra, seria eu, seria o que sou,
e fiquei ali em solidão como quem a vida... espiona,
e ela jamais passou.
Como já esbarrei com a tristeza...
na descoberta reconheci a alegria como um processo experimental,
tem que ser misturada aos sonhos, dosada com atrevimento,
fermentada com ousadia, e degustada com destemor.
E depois depositada na alma... dentro de si mesmo,
num salto colossal.
Alegria é isso... não se compra, nem está à venda,
não se acha, nem encontra ali na curva do acaso,
nem se busca como uma encomenda.
Alegria... brota, germina de forma visceral.
E quando pronta... se leva... distribui,
entrega em domicílio, coloca com sutileza no coração.
Passa-se através de um beijo, de um olhar,
de um abraço descomprometido,
de um sorriso atrevido,
é como uma oração.
Alegria é orar... e orar não é pedir.. é oferecer.
Como já esbarrei com a tristeza,
não mais fico esperando a alegria passar.
Sei o tamanho da expressão de um sorriso,
o faço estar em todo o rosto, o busco na alma,
com leveza.
Depois...
ofereço com amor.

Ari Mota

sábado, 11 de fevereiro de 2012

TESTAMENTO DE UM POETA


Eu, um tímido escritor, cidadão do cosmo, aprendiz de poeta,
residente e domiciliado onde o vento brinca de solidão.
Estando em magistral juízo,
e em pleno gozo de minhas virtudes intelectuais,
e sem nenhuma interdição.
Livre de qualquer induzimento,
lavro o presente testamento, revestido de delírios e liberdade,
no qual exaro minha última vontade:
Ao longo do meu existir não consegui amealhar coisas,
como inda tenho a sutileza do olhar,
vou doar a minha contemplação.
Só agora no final, que ando economizando sentimentos,
não... por não ofertá-los, mas, por tê-los em demasia.
Fui me achando, vasculhando a minha alma, me encontrando,
claro... que houve noites de desespero, mas... alvorecer de teimosia,
sobrevivi ao medo de mim mesmo... e foi como um ritual.
E hoje, resolvi... sentado em uma esquina do meu destino,
deixar a quem assim querer, minhas riquezas, em desatino.
Obvio... que todas são subjetivas, não dá para tatear com mãos,
somente... senti-las de forma visceral.
Estou deixando meus versos, meus poemas,
minha coragem em ser feliz, e minhas loucuras... para nunca desanimar.
Tenho ainda as batalhas que travei... com as minhas duvidas, meus dilemas,
confesso... perdi em varias delas, mas, foi ali que cresci para dentro.
Como inda tenho a sutileza do olhar,
vou doar a minha contemplação.
Ando encarando tudo com carinho, mesmo quando perco o caminho.
Percebo o acordar do sol, e o seu crepúsculo vespertino,
as borboletas em algazarra, brincando de ciranda em torno do Jatobá,
e ainda... extasio-me aos acordes de uma canção, dedilhada em um violino,
que me acalma, faz graça com minha alma,
emociono-me com a delicadeza de uma flor,
de um sorriso verdadeiro, de regras justas, de escolhas,
de amigos, de ausência e de saudade.
Portando ofereço o que sou... silêncio.
E minha maior herança... amor.
Nada mais tenho a lavrar,
dou, assim, por concluído este meu testamento particular.

Ari Mota

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

MEU CORPO TEMPORARIAMENTE ME HOSPEDA


Tardei a entender algumas coisas... uma das últimas,
foi que meu corpo temporariamente me hospeda,
e o que vejo, não sou eu, sou apenas um disfarce.
Sou casca, exterioridade, um vulto, um espectro,
uma imagem difusa.
Olho e não me vejo, se vejo não me acho,
minha aparência desvitaliza, finda... vira terra seca.
Ela é apenas a superficialidade de mim, uma imagem confusa.
E ai, o tempo fluiu, e na descoberta, vi que...
Eu sou, o que não se vê, eu sou o de dentro, sou o meu sonho,
o invisível do meu ser,
e o olhar que tenho sobre a minha passagem por aqui, sou alma.
Quando necessito me encontrar, salto profundamente,
enraízo-me na própria essência, que me recebe em calma.
Antes espelhava solidão, olhava com sofreguidão,
hoje me recolhi, virei remanso, sou mansidão,
ando comigo...
Não deixo a carência de mim, dominar o meu eu,
descubro-me, me acho... encontro-me.
Danço em devaneios com minha pequenez,
e bailo ao som dos meus soluços.
Rasgo-me de rir dos meus medos,
e das vezes que perdi o caminho.
Sou suscetível as mudança, arrisco nos abraços,
para não caminhar sozinho.
Tardei a entender algumas coisas...
Continuo não compreendendo outras tantas.
Só sei... que antes achava que eu era aquele que o espelho refletia.
Hoje, tenho outra perspectiva de mim,
sou compreensão, evolução... sou uma energia.
E que além de tudo e depois de tudo... um sonhador,
que brinca de ser poeta.
Recita: é preciso ter coragem para ser feliz.
E em silêncio poetiza
o amor.

Ari Mota

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

ENVELHECIDO, TORNEI-ME RETICÊNCIAS...

Visível foi... que o tempo roubou a minha rijeza juvenil,
mas também levou a pressa, a impaciência, a inquietação.
Perdi pelo caminho, a força muscular, a robustez da resistência,
sei até que fiquei vulnerável, e com alguma limitação,
e antes que o destino me leve à lucidez, ou me deixe senil,
inda fantasio-me de ilusão, inda viajo na utopia do vento,
aposto na vida que ainda me resta,
na estrela que brilha nos meus sonhos,
e insisto ainda extrair da alma algum talento.
Quando jovem, fui ponto final... desistia sem demora,
hoje envelhecido tornei-me reticências...
mudo, renovo-me... antes de ir embora.
E quando era para abaixar as velas, ancorar o barco,
olhei a imensidão do mar...
não teve jeito, tive que continuar.
Estranho... tenho lidado mais com a velhice,
parece-me o tempo da pausa absoluta, pura contemplação.
Quando jovem tudo era fugaz como um vendaval.
Hoje, sou reticências... nada termina, tudo esta por terminar,
existir é uma obra inacabada, em busca de perfeição.
Como sou resiliente, ando buscando atalhos, outro caminho.
Antes, ia... em todos os lugares, subia nas montanhas,
saltava em mergulho nas cachoeiras, farreava em noites inteiras,
vagueava em madrugadas frias, para não ficar sozinho.
Hoje o tempo inibiu os meus movimentos, a sutileza do andar.
Tenho grossas lentes, que ofuscou até o colorido do olhar.
Mas... sou livre... ando para dentro, dentro de mim.
Troquei o barulho do mundo, pela calmaria da minha alma.
Falo com o olhar... virei silencio... desvisto todos os meus medos.
Quando jovem fui ponto final... desistia sem demora.
Mas, agora...
envelhecido tornei-me reticências... um poeta, um escritor,
ando reconstruindo os meus enredos,
e colocando nas minhas narrativas,
e na minha vida:
amor.

Ari Mota