segunda-feira, 2 de outubro de 2017

OS SINAIS QUE RECEBI

Lá naqueles tenros anos,
quando não conseguia fazer da vida um ritual,
eu já o percebia orbitando em mim,
e eram sinais vindos de lugar nenhum,
chegavam frágeis, sem muita robustez.
E o tempo voraz, foi-me seduzindo,
e quase sucumbi a sua ligeireza,
sem perceber que tudo vinha de dentro,
desse íntimo visceral.

E hoje, depois de tantas estações,
de tamanha resiliência,
ele ressoa intenso no meu interior,
faz-me, permitir momentos de silêncio,
e de contemplação.
De descoberta dos próprios limites,
do tão exíguo, é o meu existir,
do tão pequeno, é a minha altivez,
e de poder ser tão vazio, a minha essência.

Para não fugir de mim, nem sofrer de longitude,
tive que mudar incessantemente.
É que, quase me perdi com tantos caminhos.
Tive que celebrar o romper do sol e o seu crepúsculo,
e andar comemorando a vida,
desde quando, casualmente descobri sua finitude.
Passei a ornamentar a minha alma,
de poesia, loucura e leveza.
Compreender que nada posso levar,
nem juventude, nem velhice, nem minha pseudo beleza,
e se deixar, somente a sutileza dos meus carinhos.

De todos os sinais que recebi, e rituais que pratiquei,
compreendi... que tive que emprestar o colo, repartir a solidão,
recepcionar borboletas, uma louca bailarina e um beija-flor,
e me banhar por dentro, promover uma assepsia na alma,
entender que poucos foram os que amei, e não foi minha a ilusão.
E achar que fiz da minha vida um espetáculo,
tudo que edifiquei... não pude e nem posso tocar,
o que construí foi tudo subjetivo,
jamais poderei perder, ou alguma coisa esquecer,
tão pouco alguém me roubar.
E o que na verdade sobrou, permaneceu como sinal da vida,
e foram dois, apenas dois... imensos sentimentos:
Um era o ódio, e eu escolhi o outro:
o amor.

ARI MOTA


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