domingo, 16 de agosto de 2020

RECOMEÇO EM MIM

Que tenhas tempo para o silêncio,
e a solidão...
São dois lugares mágicos,
transcende a lógica, e o descritível,
esvaziam o peito, mas liberta a alma,
e livre, ela devaneia no lúdico,
e depois distancia do fútil, não mais coleciona ninharias,
e vê, que tudo é uma enlouquecida ilusão.

Que tenhas tempo para negociar com o existir,
e se encontrar...
Não acredites no inelutável,
lance-se ao acaso e em todos os temporais,
recapitule o que já viveu,
descarte as desnecessidades,
em nada há um desfecho, ou como fazer melhor,
reedifique tudo que possa esperançar.
 
Que tenhas tempo de curar as feridas profundas,
as magoas descabidas...
E possa resgatar amores perdidos,
e tê-los novamente dentro de si mesmo,
isso preenche nossos vazios, ameniza a nossa solitude,
auxilia-nos a atravessar nossos desertos,
aquecer nossos abraços,
e permitirá até oferecer nossos adeuses nas partidas.
 
Que tenhas tempo de inundar a alma de amor,
e os olhos de ternura...
Saiba, fugaz é o caminho, efêmero o riso,
podes não dar tempo de ser feliz.
Alguns coisificam a emoção,
amealham o tangível e esquecem o afago,
esmolam afeto, sem saber manifestar carinho,
perdem a sutileza do encontro, perdem a candura.
 
Que tenhas tempo para um dia dizer:
- de todas as descobertas, enfim,
a mais sublime,
a que mais me estremeceu,
rompeu a minha escuridão,
foi quando tudo clarificou aqui dentro,
e descobri que se tiver que recomeçar.
- recomeço em mim.

ARI MOTA


 


segunda-feira, 27 de julho de 2020

EM QUE ALMA EU EXISTO


Foi nessa solidão que me abraça,
nesse silencio, que me devora,
que descortinei em que alma... eu existo.
 
Obvio foi... depois de algumas tempestades,
algumas descrenças... que não mais me apavora,
e nem me faz descobrir em que momento eu desisto.
 
Mas pudera... extenuei de tanto narcisar,
até avistar que aquele no espelho... não era eu,
tudo que via era raso, era do tamanho da minha insensatez.
 
Evidente foi... um desespero encontrar a minha fundura,
e tudo estava ali... lá dentro... e tudo era meu,
o melhor que poderia ser, e tinha que brotar com solidez.
 
Foi nesse vazio que me achei,
nessa quietude descomunal que renasci,
não havia poesia, nem delicadeza, nem emoção.
 
O embate íntimo foi imperceptível,
doeu sem sangrar, dilacerou... mas resisti,
hoje, nada me é... aflição.
 
Foi nessa ilusão que me desperta,
nesse disparate que é sonhar,
que a vida me provoca e me atiça.
 
Cuido tanto da minha alma,
que vez em quando, lembro-me do corpo e vou andar,
temos um caso às escondidas, e ela me enfeitiça.
 
Foi nessa solidão que me assusta,
que deparei com a minha alma... nítida energia,
acalenta-me, me apruma... fez-me o que sou, enfim.
 
Ela me faz possuir excessos, transcende de tudo que sei,
e ando distribuindo para os meus amores, em demasia.
- e entro em êxtase, quando eles, apoiam-se em mim.
 
Foi nessa exorbitante descoberta,
nesse universo que não se vê, nesse imprevisto,
nesse recanto que escondo a minha cortesia,
que visceralmente está a minha alma, e eu existo.
 
Ari Mota


domingo, 14 de junho de 2020

RESSURGIR

De súbito tudo parou...
Foi um desatino existencial,
e verdade foi que, ninguém tinha para onde ir.
A maioria correu para a insensatez,
poucos recorreram da ciência,
e quase ninguém correu para dentro de si mesmo.

Que disparate a invisibilidade do inimigo,
de tão ínfimo, o vírus passeou livre pelo mundo,
ameaçou os lúcidos, fez ri os incautos.
Perdemos a clareza, a inercia nos envolveu,
fez-se uma enorme anarquia na alma,
uma desordem conceitual.

Mas, não se enganem...
Mesmo com esse desvario todo,
esse medo profundo,
a oportunidade foi incomensurável,
tudo foi uma angustia descabida:
- Só foi para nos despertar,
e nos provocar a ressurgir.
E nos fazer não só esterilizar a carne,
mas, causar uma assepsia por dentro... na alma,
o maior de todos os abrigos,
um lugar onde se guarda toda a resiliência,
de onde se sai, para enfrentar as tempestades.

Que saibamos ressurgir... e enternecer cada gesto,
fazê-los intenso, sem dramatizar o destino.
Que saibamos orquestrar com prudência os pensamentos,
e preencher com destemidez todos os nossos desertos,
perfumando mais as palavras,
aromatizando mais o olhar,
e diligenciando mais o silencio.

Que saibamos ressurgir... sonhando mais,
se amando mais, cuidando mais... do outro.
Que saibamos sentenciar menos,
lendo mais,
para fugir de conceitos, dogmas e paradigmas:
- Há um portal aberto a nossa espera,
poucos irão passar, poucos irão entender,
não somos daqui, nem aqui vamos ficar,
só estamos de passagem, viemos para evoluir,
e se... pretende criar raízes,
que as plante... visceralmente dentro de alguém,
muitos já esqueceram,
desse grão que se semeia na alma, dessa energia:
experimente ressurgir com amor.

Ari Mota



quinta-feira, 28 de maio de 2020

O CONTAGIO

Que depois do medo...
Possamos ter uma revanche:
- Desnudaram-nos,
viramos uma estatística,
amiúde, ficamos invisíveis...  ninguém,
foi uma barbárie,
coisificaram nossas almas,
estreitaram nossos sonhos com desdém.

Que depois do medo...
Depois de tudo que nos apequenou,
possamos ir à desforra,
e que ela tenha o amparo da lucidez,
esteja escorada em singelezas,
e sejamos os únicos artíficie da imensa mudança,
e que ela inicie lá dentro, se irrompa como um vulcão,
principalmente agora que descobrimos,
a importância das miudezas.

E que o próximo contágio... seja de delicadeza,
e doravante estampemos de afeto à vida,
e que o abraço ultrapasse o corpo,
e chegue até a alma,
e o olhar seja de ternura... não machuque,
nem seja de indiferença,
e as mãos não sejam instrumentos de sofreguidão,
e sejam utilizadas para socorrer, estender leveza,
alargar a proteção,
e o sorriso seja revestido de brandura,
espalhe sutileza,
acuda quem chega arrastando a solidão.
Que o encontro nos estremeça, e a alegria nos aprisione,
contagie visceralmente nossos sonhos,
e possamos saber onde esconder o nosso silencio,
nossa calma,
e nossa inocência nunca nos devore,
e toda a incerteza seja combatida pela...
resiliência da nossa alma.

E que a grande revanche, a imperecível desforra:
- venha contaminada de mansidão,
permita-nos ser mais compassivo,
ser mais contemplação,
e a metamorfose irrompa de dentro, sem nada impor,
e fiquemos outro e melhor,
e o mundo possa conhecer-nos outra vez.
Que sejamos contaminados por um vírus,
e não tenha nenhum antídoto para nos curar:
- E que esse contagio possa nos desentorpecer de amor.

Ari Mota


domingo, 19 de abril de 2020

O MUNDO DEPOIS DA SOLIDÃO

Olhei...
Para o mundo... e ele estava ali sepulcral,
vazio,
o silencio me doeu,
ardeu como noites de abandono,
me vi... sem alguns dos meu amores,
abriu um vão aqui dentro...
um nada... colossal.
Tive que redimensionar os sonhos,
redescobrir o existir,
e olha... eu já vinha fazendo isso,
virei poeta, deixei de coisificar os desejos,
- Só que esse momento é impar,
saio à rua e não encontro ninguém,
o que nos foi oferecido nos assusta, e tudo é fugaz,
como um raio em noites de temporal,
posso desaparecer sem se despedir.
Mas aí... eu... estava quase... esquecendo,
tenho a resiliência como companhia,
tenho umas obras inacabadas,
e ainda não é tempo de partir.

Sabe o que vou fazer?
Com o mundo depois dessa solidão?
Vou me recarregar de mais leveza,
cuidar com mais desvelo,
os jardins que carrego na alma,
desses devaneios, desses delírios inocentes,
que se avizinham a uma doce loucura,
mas, amenizam a minha aflição.
Vou ter mais olhares que cicatrizam,
e mais palavras que se silencia,
vou emudecer mais, somatizar mais ternura,
revivificar a minha própria luz,
robustecer a paixão pela vida,
e viver cada dia com mais brandura.

Olhei...
Para o mundo... e ele estava ali... frágil,
intenso... regenerando almas,
restaurando valores, temperando sentimentos,
permitindo congraçar consigo mesmo a própria historia.
Sabe o que vou fazer?
Com o mundo depois dessa solidão?
Vou levar menos peso, abrandar todas as angústias,
e tudo será vivido com mais esplendor.
Percebi que aquele que não se regenerou,
viverá vagando por aí, como um apedeuta,
sem amor.

Ari Mota

domingo, 22 de março de 2020

RESSIGNIFICAR A ALMA

Que... de todos os embates,
percebas que o mais difícil... o mais intrépido,
foi olhar dentro de si mesmo,
descobrir esse refúgio,
e se encontrar...
- assim, deste jeito...
com os seus medos, seus segredos,
ora efêmero... como uma ventania,
e muitas das vezes... tênue como uma porcelana,
mas, intenso na sua teimosia.

É que... de todos os lugares,
esse essencialmente é o mais profundo,
impenetrável... em noites de desespero,
mas, acessível em madrugadas de solidão,
é... de todos os abrigos,
o que mais oferece aconchego,
acalenta a alma, silencia o grito,
armazena leveza,
e tem uma sinergia que redesenha os sonhos,
afogueia o existir, e traduz tudo em delicadeza.

Que... de todos os embates,
esse terás que, agarrar com mais desvelo,
- será o de ressignificar a própria alma,
torná-la silêncio,
fazê-la amplidão,
e edificar ali... um templo,
uma fonte de suspiros, de emoção,
onde terás que plantar ousadia, ser resplendor,              
e derramar luz em todos os caminhos,
e ter como frequência... o amor.

E que depois de tudo... de todas as batalhas,
descubra que o perfeito dia... é hoje,
e o melhor lugar do mundo, é aí dentro,
onde reside a força que te faz... jamais desistir,
onde se replanta quietude, e colhe atrevimento,
onde se semeia calmaria, e repovoa os desertos,
e nutri-se de contemplação,
te faz vibrar com o por sol, e o cair da noite,
e te faz estremecer com a sutileza das estrelas.
- É onde se despeja toda a aflição.

Ari Mota


domingo, 26 de janeiro de 2020

ANJO ENLOUQUECIDO

Ele sempre foi angelical,
sempre me olhou com ternura,
e com candura...
colocava emoção onde a frieza queria moradia,
e me sacudia em noites de solidão.
Ele veio me consertando ao longo da minha vida,
a fez livre e atrevida...
nunca me permitiu voltar à velha estrada,
e dizia: se reinvente, tente... antes de partir,
mas, não passe no mesmo caminho,
nem que sozinho... tiver que seguir.

Ele sempre foi o meu emocional,
de todas as vezes que me direcionou,
o melhor atalho foi quando me levou... a mim,
- foi o melhor lugar que cheguei,
e o que me fez ser, o que hoje sou.
E ele veio me consertando, reconstruindo,
e em uma dessas madrugadas de desespero,
em silencio e sem exagero...
ofereceu-me companhia.
- uma louca bailarina e duas borboletas,
e inundou a minha alma de calmaria.

Ele sempre esteve no meu ritual,
nunca me permitiu apequenar,
sempre me desafiou... a amar,
mas... carrego um segredo,
que às vezes me dá medo...
acho que este meu anjo, enlouqueceu,
ou virou profeta...
anda orientando-me a só carregar... leveza,
e em delicadeza sentir a fugacidade do tempo,
a brevidade do existir,
e prosseguir assim, como um menino, um poeta.

E assim...
Ando descarregando alguns fardos,
e tenho abandonado pelo caminho...
esses ressentimentos que grudam na alma,
essas culpas que aderem na consciência,
esses juízos que tiraram a minha calma,
essas sentenças descabidas,
e de dentro... toda a violência.
Ando por aí, mais leve, flutuo às vezes,
esbarro de vez quando em estrelas perdidas no céu,
esvazio-me com todo o esplendor,
e no lugar... ando completando com amor.

Ari Mota


segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

APROXIME MAIS DE VOCÊ

Precisamos... mesmo, é não ter nenhum paradigma,
e partir para cima da vida... viver,
ter a coragem de dizer: esse sou eu...
- Bem vindo a minha loucura,
só posso compartilhar o meu silêncio,
a grandeza da minha pequenez,
o que eu tinha de selvagem... e virou brandura.

E compreender... que existir é uma absoluta doidice,
uma efêmera extravagância,
uma excêntrica viagem,
e que num dado momento tudo passa a ser paradoxal,
esquecemos de viver nossos instantes,
para gerirmos nossos vazios, nossa solidão,
e às vezes vitimamos em demasia,
e passamos a vagar como um ser espectral.

Existir... é mais que isso.
É cercar-se de gente feliz, profunda,
é contornar as vicissitudes como um menino,
amar reinícios, celebrar recomeços,
tomar de assalto o controle da própria alma,
não permitir que ofusquem o fulgor dos olhos,
nem a indescritível beleza que carregamos por dentro.
- É... não estar nem aí com os tropeços.

Que não fiquemos refém do princípio,
como se não houvesse fim,
e pudéssemos levar alguma coisa,
essas quinquilharias que se junta em vida.
Não podemos esquecer que só é possível levar leveza,
as sutilezas conquistadas, os afetos distribuídos,
os sonhos compartilhados, os desafios vividos,
e a doçura da cama repartida.

Temos que observar os sinais do caminho,
e distanciar de tudo que não nos complete,
de tudo que não nos dê arrepio, estremeça a alma,
de tudo que nos provoque dor,
e manter esse infinito capricho... que é ser feliz,
e resistir esse coisificar da vida,
aproximando mais de si mesmo,
reedificando a alma e reeditando o amor.

Ari Mota


terça-feira, 26 de novembro de 2019

O BATER DAS ASAS

Que possamos observar os pássaros,
espelhar em todos os seus voos,
eles sabem que antes... do bater das asas,
é necessário se jogar,
lançar-se no vazio, sem medo,
e só depois abrir as asas e voar.

E existir é isso,
temos que arremessarmo-nos,
e como nossa essência é outra,
nosso voo só pode ser para o interior,
atirar-se para dentro de si mesmo,
sem saber aonde ir e com todo o destemor.

Mas, que nesse voo...
consigamos reconhecer nossos fantasmas,
atravessar nossos desertos,
e lidar melhor com a nossa solidão,
só assim desnudaremos nossas incertezas,
nossa infinita mansidão.

E que nesse imergir,
interpenetrem em nossas almas... luz e lucidez,
e que tudo isso... sejam nossos excessos,
e possamos realmente nos encontrar,
quem não se joga... não se acha,
não consegue encontrar ninguém para amar.

Que tenhamos coragem de nos olhar,
e mensurar nossa pequenez,
o quanto ainda temos para desembrutecer,
o quanto nos falta de leveza, de candura,
dos resquícios de desespero que ainda nutrimos,
e da ausência de sentimentos e ternura.

Que antes de bater as asas,
saibamos nos jogar por inteiro... para a vida,
e jamais sejamos um quase, um talvez,
que tudo seja intenso, tenha inteireza,
e que tudo acabe em pleno voo,
existir basta se jogar, sem nenhuma certeza.

Se jogar... é estar em sincronismo com a dúvida,
é não desistir,
que tudo isso... seja puro e ousado,
que não tenhamos medo do medo, nem da dor,
que a ousadia nos provoque,
e nunca nos faça ignorar o amor.

ARI MOTA



domingo, 27 de outubro de 2019

AS PALAVRAS

As palavras às vezes me fogem...
perdem-se na imensidão do que sinto,
apequena-se diante dos gritos que silencia,
e fico ali... meio que a deriva,
não sabendo o que fazer com a tela vazia.

Escrever o quê, e para quem...
e aí, recordo que comecei escrevendo para mim,
e foi quando pactuei com a minha solidão,
e olha, já dançamos juntos em noites de desespero,
e hoje, não sofremos mais de lonjura, nem de aflição.

Vim, preenchendo esse vão que residia na alma,
como não sei mensurar a grandeza de dentro,
esmero-me em nutri-la de ousadia a todo o momento,
e quanto mais volátil, mas me descubro... acho-me,
amo, este que me tornei, e este é meu alento.

As palavras às vezes me fogem...
escondem na infinita dúvida do existir,
emudeço... só falo com os olhos, sou contemplação,
toda a minha transcendência se voltou para o interior,
é ali, que guardo toda a minha emoção.

E o que sinto é maior que todas as palavras,
declaro-me em silêncio, ninguém ouve minha voz,
fiquei isento de qualquer discurso, de qualquer poesia,
os meus humanos favoritos são tão poucos, que me assusta,
- uma bailarina louca e duas borboletas... que honraria.

As palavras às vezes me escapam...
mas, hoje envelhecido não necessito tanto delas,
cuido mais da minha quietude,
quando verbalizo, enalteço... falo de resiliência,
e espelho a minha atitude.

As palavras às vezes não se aproximam...
e às vezes penso não mais escrever,
principalmente, nesta tela fria de computador,
mas aí, deparo com os meus amores,
e vejo que não bastam as estrelas,
para escrever e falar de amor.

Ari Mota


quinta-feira, 26 de setembro de 2019

SÓ ANDE COM QUEM TE REINICIE

Vez em quando...
Convém pôr a alma no seu estado primitivo,
reiniciá-la.
Imprescindível é, reabastecê-la de outros paradigmas,
de outros atalhos, de outras audácias,
repovoá-la.

Como tudo é fugaz...
Ela pode se esgotar, sem se perceber,
esvaziar-se, ficar sem emoção.
Perder a leveza, o lúdico, a singeleza,
a infinita vontade de ser feliz,
murchar em noites de solidão.

Vez em quando...
E quase sempre, refugie-se dentro de si mesmo,
é o melhor lugar para existir.
E ali, plante flores, delicadeza, e seus amores,
escolha para quem escancarar a porta, a alma,
e não permita o sonho exaurir.

Mas, se de tudo...
Inda, ficar vazios incomensuráveis,
aí, não terá outra saída.
Reinstale aquele resto de loucura, de fé, de doçura,
entrelace em outro corpo, em outra perspectiva,
redesenhe o caminho, a vida.

E, melhor mesmo...
É criar a sua própria energia,
ter o seu brilho, dar chama a sua luz.
Estamos interligados na mesma ilusão,
dissemine em partículas, toda a sua verdade,
saiba, tudo que aqui fizer se reproduz.

Mas, em tudo...
Convém mesmo, é reinstalar o amor,
e perder-se nos versos de uma poesia.
Andar mais com você, aqui, ou nas estrelas,
e em silêncio seguir se reinventando,
e se perder, somente com quem te reinicia.

Ari Mota


sábado, 24 de agosto de 2019

AJUSTADOR DE VELAME

Sei que o tempo me escapa,
não consigo fazê-lo parar.
Trata-me com desdém,
foge como quem não quer companhia,
e com sutileza nos rouba a juventude,
e em quietude encarquilha a pele,
desbota o cabelo, endurece o andar,
e não tem o hábito de esperar ninguém.

Sei que o tempo mais parece uma ventania,
quando penso nele, ele já passou,
já tentei descobrir a direção dos ventos,
mas, só encontrei em meu caminho...velas entreabertas,
como se as descobertas só dependessem de mim.
E assim, passei a reescrever o meu existir,
viver sem deixar pedaços,
passei ser a soma do que sou,
desmedindo todos os meus atrevimentos.

Sei que o tempo me escapa,
e fui aprendendo ludibriar a sua impetuosidade,
caminho sinuosamente até contra o vento,
só para esbanjar vida antes que ela silencie,
e me distancie da dinâmica que é florescer,
amar em demasia.
E assim, me afasto do desespero, sou harmonia,
e em vez de pedir... só faço por agradecer.

Sei que o tempo me escapa,
mas ando manuseando minhas velas com maestria,
sou aprendiz de ajustador de velame,
ando sabendo aonde chegar,
só aporto nos braços de quem me ame,
escolho o que colocar na alma, com toda a magia,
virei silencio, calmaria,
ajustei minhas velas para poder voltar.

Sei que o tempo se esvai,
e não estou nem aí, o deixo ir,
sei que ele irá além de mim.
Já ajustei as minhas velas,
para elas, levar-me onde estão os meus amores,
esses primores da minha existência,
esses que amenizam a minha solidão,
e que estarão comigo até depois de partir,
não permitido que eu jamais tenha um fim.

Ari Mota


terça-feira, 23 de julho de 2019

EXAGERE

Exagere...
Ouse exagerar vez em quando,
e sem sofreguidão,
só exagera... quem deixa de olhar para fora,
e passa a se encontrar na parte de dentro,
faça tudo com mais intensidade, mais alento,
podes até dançar sozinho em noites de solidão,
só não pode deixar de se atrever,
antes de ir embora.

Não esqueça... tudo é fugaz como uma ventania,
talvez não tenha tempo de viver todos os sonhos,
e ser tão racional.
Não queira concretizar todas as obras,
calçar todas as ruas, beijar todas as bocas,
talvez, seja exígua a sua passagem por aqui,
e tudo será tão somente um escasso temporal,
e o pouco que fizer, terá que o fazer com ousadia.

Exagere...
Mude de perspectiva... busque outro ângulo,
descortine a sua resiliência, insista mais um tanto,
faça o silencio te tocar por dentro com esplendor,
procure atravessar os seus desertos,
desapareça para dentro de si mesmo,
e preencha todos os seus vazios,
e entre a fúria e o desespero... fuja com o seu encanto,
enlouqueça mais... desvaire mais... de amor.

Exagere... e se despertares,
e uma sensação estranha apossar da alma,
e sentires como se hoje fora o seu último dia,
e perceberes indo... sem despedir,
não... não se deixe enganar pela dúvida,
somos acometidos com esses deslizes do existir,
são os sinais, vindo do interior,
agarre-se no talvez, e talvez não seja o dia de ir,
não antecipe a dor,
inda será possível se reinventar,
e dará tempo de... exagerar.
E exagere... na emoção,
no sentimento, na suavidade do olhar,
na contemplação:
- exagere ao amar.

Ari Mota