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quinta-feira, 15 de julho de 2010

O USUÁRIO



Bateu em minha porta um jovem em farrapos,
vazio,o conheci quando criança, o conheci quando ainda inocente,
quando ainda o luzir da esperança brincava em seus olhos,
e resplandecia em sua alma... vida, e festa em seu existir.
Havia esperanças de pais, e sonho ingênuo de filho,
toda uma vida de busca, de combate... ainda por acontecer.

Sem culpa, sem sentenciar... um dia desprendeu-se do nexo,
afastou-se da coerência, perdeu a conexão com a lógica,
e jamais conseguiu voltar para a casa.
Perdeu-se nos labirintos da dependência química,
e jamais encontrou o caminho de volta, perdeu-se no imaginário,
desperdiçou o aprimorar da consciência, o evoluir da essência,
encheu-se de nada, procura em vão o riso, e em desespero a si próprio.
Bateu em minha porta um jovem que perdeu sua primeira luta,
foi vencido pela droga.
Absteve de apresentar seus talentos, mostrar seus afetos,
romper a solidão, amar, virar poeta.
Inerte, vaga pelas ruas, pelos delírios químicos, pelas noites frias,
tornou-se um desnecessário, uma incerteza...
Incomodou-me... não consegui abrir a porta,
não consegui achar saída,
fiquei pequeno,
decresci,
morri mais um pouco,
não tive coragem de fazer por ele
o que faria por um filho.
Morrer.

Obs. E como se não bastasse (Elvis Presley, Jimi Hendrix e Janis Joplin)  
meus ídolos morreram de overdose...

Ari Mota