segunda-feira, 3 de agosto de 2026

ABRIGO


 









Entardeci... eu sei...
E nesse desenlace da existência,
relembro-me dos momentos de busca,
e desespero,
das vezes que estive a procura de um abrigo,
e tentei até um lugar seguro para os meus sonhos.
E tudo foi frágil, estupidamente fugaz,
foi mais temporal... que calmaria,
foi tempos de descobertas, aceitação,
renuncias, escolhas e travessia,
foi quando se aprende a ir sozinho,
mas também se descobre... a velocidade do tempo,
e a escassez da vida,
e depois o vazio do caminho,
e como saída... entende-se que tudo é uma ilusão,
e tudo vira uma doce magia...
só por existir mais um dia,
como o agora fosse o fim.
Resiliente...
Passei há contemplar o instante,
a garimpar leveza e poesia,
deparar com a sutileza das pequenas coisas,
e como nem todos vivem,
minha maior decisão... foi viver,
atravessei os meus desertos,
domei a minha loucura, enfrentei ventania.
Às vezes estava eu ali... naquela rua vazia,
dançando sozinho com a minha solidão,
mas... saibam, nunca quis ir embora de mim.
 
Entardeci...  eu sei
Mas antes tive que vencer minha própria escuridão,
e debelar esse incêndio que me consumia,
e depois disso... olhei para dentro,
e por um descuido conectei com a minha alma,
esse sopro vital escondido no peito,
preparado para ser abrigo.
E o destino com tamanha delicadeza,
ensinou-me e mudei:
-Eu sou a casa a que sempre quis voltar,
afinal, o meu lar nunca esteve lá fora,
precisei de tempestades para apreender a ser porto,
hoje, o entardecer não traz medo, apenas serenidade:
descobri que abrigo é quando a alma se abraça,
e assim... virei silencio... virei abrigo:
- me curei.
 
Ari Mota

 

Um comentário:

Sonhadora (Rosa Maria) disse...

Meu amigo... Uma viagem de vida. desde o amanhecer ao entardecer com todas as curvas dessa estrada que é viver. É sempre um prazer ler-te. Um beijinho