domingo, 31 de julho de 2011

O DIREITO DE ERRAR


Confesso errei em demasia... provei muitos desacertos,
enganei-me em diversas encruzilhadas, me perdi em diversas estradas.
Quase fui vencido pelo abandono dos sonhos, quase desisti de mim.
Mas, todos os erros estavam revestidos de inocência,
e eu na verdade...  só procurava os acertos.
Houve um tempo, que não compreendia os meus erros,
em fúria... tive uns ataques de loucura,
andei desdenhando o meu próprio andar,
não suportava o desencontro, o desassossego... a desventura.
Por vezes, inventei... redesenhar os meus vôos e vivê-los sem fim,
saltei algumas vezes em desespero, em busca de respostas,
desconhecia o meu direito de errar.
Tentei até uma nova reengenharia para o meu caminho,
o que eu queria era delinear uma nova trajetória, e voltava sempre sozinho.
Nada suavizou as quedas, continuei destilando os meus sacrifícios.
Um dia despertei assustado, minha alma em solavancos, gritava,
mas, como tudo passa... até o meu desalento virou calmaria,
resiliente, assumi os imprevistos do meu existir, entendi toda a agonia.
E cai-se muitas vezes, levantam outras tantas, são as tentativas do viver.
Também pudera, a vida é acometida de ensaios... não conseguia entender.
Só depois de envelhecido que percebi o quanto ensaiei, caí e levantei.
Fiz dos meus erros, alicerces, fundamento... fui me construindo,
passei a ser eu, a conceber tudo como crescimento,
hoje venho edificando o meu equilíbrio, o meu rumo,
ando aperfeiçoando os meus gestos, os meus saltos,
falo com candura, olho com brandura,
mudo as palavras, dito-as de forma amena, sem mudar o sentido,
não agrido, nem firo, nem ofendo os que erram como eu,
sustento a calma.
Errar... legitima o risco e enaltece a alma.

Ari Mota

segunda-feira, 25 de julho de 2011

OS NÃOS DO MEU CAMINHO


Quando deparei com o mundo,
inda escondido nas Minas Gerais dos meus sonhos.
Confesso, a timidez fazia-me companhia,
assustei com o tamanho do caminho, com a longa estrada.
Acanhado, muitas vezes escondia... temia expor a natureza da minha alma,
corri dos convívios, quase fiquei insocial, em agonia.
Carregava espanto nos olhos, desespero no riso,
mas pudera, eu era diferente, atrevido... já fazia as minhas escolhas.
Nunca aceitei o segregar social... sempre fui livre no que verbalizo.
Visível foi... que tudo aconteceu com mais rigidez,
mas, quando o destino despejou em mim os nãos do existir,
achei que não suportaria o peso, quase fui à queda... superei em solidez.
Queriam imprimir a negativa do vôo, e cercear minhas vontades,
vi que todos vigiavam a todos, para que ninguém sobressaísse dos demais,
como sempre tive um olhar para dentro, e de mim mesmo,
sobrevivi aos vendavais.
E assim assisti que tudo não era permitido, fui bombardeado pelo proibido,
recebi tantos nãos, que um dia resolvi conhecer o inusitado,
era essencial que sonhasse, soubesse o barulho do tombo.
Até que um dia encontrei uma única asa caída ao chão,
tomei distancia para o salto, e fui... mesmo ouvindo o não,
de tudo, algumas coisas ficaram: ousadia e solidão,
depois... bem depois dos combates... sobrevivi e aprendi:
Que... para os pessimistas o não é um destino,
para os otimistas o não é um sim.
Mais, para os que transcendem o medo do não,
tudo é puro estímulo, desafio.
A vida é uma provocação.
Fui viver...

Ari Mota

quinta-feira, 21 de julho de 2011

ALÉM DAS ESTRELAS


Quando o fulgor da inocência brincava com os meus sonhos,
eu já dispunha de um olhar para as estrelas,
minha ingenuidade já indagava quem as acendia em noites de luar.
Perplexo sentia o sopro do conhecer, ávido queria saber,
e tive que abandonar as mentiras, o ceticismo que queriam me sujeitar.
Vivi espiando o infinito, andei a procura dos segredos celestiais.
E assim cresci olhando para os céus... em observações,
memorizei alguns nomes, sei... até onde ficam as constelações.
Mas... tudo era pouco, e eu necessitava de muito mais.
O universo é uma grande morada, viagens astrais,
eu que sempre acreditei na raça humana,
não poderia desdenhar outras raças celestiais.
Sei que lá estão, ou que podem até estar chegando,
vivem ali depois do firmamento... e é conceitual,
não são delírios, nem tão pouco devaneios de criança,
creio na sua existência, embora saiba da sua distância.
Apaixonei-me pelas estrelas, e pelo que tem depois,
como não fui navegador para tê-las como referência,
nem astrônomo para estudá-las, tê-las como ciência,
virei aprendiz de poeta... e nelas fui passear,
em espanto e na descoberta, vi que não estamos sozinhos,
pretensão se estivesse...
Hoje e depois de tudo, já tomado de lucidez envelhecida,
falo de moradas além das estrelas, de raças que desconheço,
sou princípio, espaço paralelo, partículas de ousadia, começo.
Quando faço vigília no universo sei que já partiram,
não... não estão atrás de nossa tecnologia, nem de nossa riqueza material,
nesta área somos até primitivos,
buscam outros valores... que ficaram esquecidos,
eles tornaram-se autômatos, esvaziaram a alma, mecanizaram a emoção,
esqueceram a essência do afeto, a graça do riso,
a sutileza do olhar, o embriagante perfume da flor.
Outras raças... além das estrelas estão chegando,
querem embriagar-se de todos os nossos sentimentos,
estão vindos em busca de algo, que lá... já extinguiu,
e que ainda, aqui... em ruína, encontram:
Amor.

Ari Mota

domingo, 17 de julho de 2011

A ÚLTIMA PRECE

Eu que no princípio e por vezes, e em súplica... em prece, pedia ajuda,
eu que alterei tanto que até a alma quase soçobrou desnuda,
eu que me agarrei ao destino, e nele acreditei,
e não tive outra maneira... nem bruta, nem amena,
de viver as experiências que passei,
e as vivi intensamente... óbvio que teve e foram noites de agonia.
Mas, tudo teve seu curso, fluiu aos solavancos,
sobrevivi as prolongadas tempestades em busca de calmaria.
Com o decorrer do tempo tive que sintetizar a minha vida,
podei as intemperanças que rondavam os meus caprichos,
abreviei... os discursos que falavam de enganos,
recopilei as minhas verdades e redefini os meus planos.
Fiquei seletivo, aperfeiçoei-me nas escolhas,
encurtei os desesperos, restringi os medos, conjecturei os riscos,
condensei na alma o meu grito, sem perder a voz no que acredito.
Eu que assustava com o imprevisto, passei a aturar os combates,
suportar a exaustão do caminho, e a desilusão dos debates.
Eu que no princípio e por vezes achei que era só pedir, implorar.
Abandonei a espera... a fatigante condição de vítima,
coloquei na estrada a minha ousadia, e saí... meio que sem destino.
Evidente que fui ao chão... varias vezes, em desatino,
mas escapei a inércia, resisti às derrotas, ao descaminho.
Sobrevivi as minhas próprias dúvidas, a mim mesmo.
Estou no tempo da brandura, da instigante quietação,
hoje o meu existir já não é um tropeço,
de tudo que decorreu, foi-me o tempo do pedir,
neste instante, só agradeço.
Fiz de mim candura, do meu olhar mansidão.
Todos os dias... como não sei, se é o derradeiro, oro em gratidão,
faço minha última prece... por que tudo valeu, sinto-me alentado,
faço minha última oração,
e de uma única palavra:
Obrigado.

Ari Mota

domingo, 10 de julho de 2011

ELEGÂNCIA


Quando a juventude acariciava os meus sonhos, e era tempo de aprender,
saí em desespero e em busca de elegância.
Cismei que a encontraria no encanto do porte ou na maneira de trajar,
até usei os adornos da moda, desfilei com as tendências da época,
alonguei-me na gíria, alterei até a maneira de falar.
Mas tudo era sazonal, fugaz como vento,
e eu necessitava de algo que durasse por mais tempo,
e que perpetuasse na minha postura, no meu existir.
Poderia ser... uma vida, talvez,
ou apenas residir para sempre dentro da minha alma, em solidez.
Não tive êxito, não consegui ser reflexo de alguém,
precisava ser eu, senhorio das minhas vontades, do meu aguerrir.
Mas, um dia... no mais puro acaso, na mais linda descoberta,
e como o tempo se esvai...
passei aperceber os gestos, o olhar de ternura, de amor... do meu pai.
E eu que não o compreendia, e nem o percebia... o via, como solidão,
descobri que a sua elegância... residia no seu silêncio, na sua mansidão.
Ele falava com os olhos, expressava com brandura,
seus movimentos eram de um maestro, ouvia todos com doçura,
orquestrava as relações, recebia a todos no singular... até os desiguais,
nunca o vi... vociferar em rancor descontentamento, nem ódio,
tinha um sorriso maroto quando não concordava, ia embora em quietude,
ouvia as histórias dos mais velhos, e também os devaneios da juventude.
Era gentil em demasia, era tomado de simplicidade o seu dia,
jamais tolheu os vôos individuais, nem a franqueza de expressão,
retribuía o riso, era solidário na dor, sua elegância estava na atitude.
Tinha apreço pelos desvalidos e deferência aos que viviam em solidão,
viveu assim, ao meu lado... tinha um olhar de gentileza,
em tempo nenhum o vi fazer perguntas pessoais, ou outra indelicadeza.
Vez por outra achava que pertencia a uma nobreza,
era um cavalheiro, não dava para confundi-lo com outro, era distinto.
Era sublime a sua alma... olhava-me ternamente... com calma.
Eu que procurei elegância... a recebi como herança.
E aprendi, que se não conseguir ofertar uma flor:
abrir uma porta, um sorriso.
Ser mais tolerante... elegante com a vida,
falar mais de amor.

Ari Mota

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O SILÊNCIO EM GRITOS

Escrevo para arrancar da alma o silêncio que me persegue,
quando jovem achei que era timidez,
depois, o tempo... efêmero, traduziu que tudo não passava de sensatez.
Como não dispunha de uma outra arte, de uma outra maneira de acontecer,
o destino ofereceu-me os vocábulos, as letras... só para entreter o caminho.
E hoje, sou um aprendiz, um artesão rústico das palavras,
às vezes em descompasso, às vezes em desalinho,
perco-me ao meio de um poema, de uma poesia sem fim,
sou um poeta desajustado, às vezes escrevo só pra mim.
Mas... falo de esperança, recito versos em reverso falando de solidão,
declamo em devaneio os medos, os desassossegos do existir,
mas também recito em coragem, as noites frias de inquietação.
Sou meio que guia de mim mesmo, sempre estou indo, para nunca desistir.
Sou mais que expectativa, uma espera descomunal,
vivo transcrevendo resiliência, reedificando minha essência,
suportando todas as ventanias, todas as quedas, em paciência,
resisto em demasia ao desconforto de um temporal.
Escrevo para arrancar do silêncio o meu grito,
nem que seja na ponta de um lápis, num escrever aflito,
numa estrofe descomprometida, de uma inspiração atrevida,
falando de abandono, de suportar um vendaval.
Sou um autor de obras inacabadas, um artífice da emoção,
ando lapidando lágrimas, soluços, poetando os desesperos,
mas... do mesmo modo, afagando a aflição,
acarinho a minha própria angustia, que quase descorou o meu olhar,
escrevo para não morrer, para não findar.
Falo de borboletas azuis, de uma bailarina louca,
danço às vezes em fantasia, em alegria.
Mas... para quem passeia nos meus escritos,
tudo isso pode ser em silêncio... os meus gritos,
ou palavras em agonia, sem sentido... ou em desvario... vazias.
Transcendo às vezes a imaginação com todo o esplendor,
só não escrevo, nem falo,
em desamor.

Ari Mota

quinta-feira, 30 de junho de 2011

REMÉDIO PARA A ALMA


Houve um momento que achei que a juventude ia perdurar por mais tempo,
em alucinação.
Cismei que iríamos assistir o reapresentar do Woodstock em delírios,
e em paixão.
E que Joe Cocker cantaria no coreto da minha cidade, perdida nos confins
das gerais.
E Jonis Joplin cantaria só pra mim, e eu dançaria com minha louca
bailarina na praça, com toda a graça, e um bando de borboletas azuis,
aplaudiria em vôos radicais.
E depois... já na madrugada, sairia em serenada com Elvis Presley,
e embebedaria com os Beatles, até desfalecer na calçada.
Mas tudo ficou esquecido nas noites geladas dos meus sonhos.
E o tempo inexorável, não cedeu um intervalo maior...
para a minha jovialidade.
Impiedoso... roubou-me o olhar de menino e a inocência,
rigoroso... afugentou a doçura dos devaneios,
implacável... escondeu a fantasia da adolescência.
Só não foi mais cruel, porque aceitei as transformações,
adaptei-me ao deformar da expressão.
Mas confesso...
tentei escapar das marcas do tempo, das dobras na pele,
da falta de negrura nos cabelos, do passado em solidão.
Até corri aos tratamentos terapêuticos, atrás do remoçar,
e tudo foi muito pouco, inútil até... não consegui voltar.
O corpo desfigurou-se da beleza de outrora,
só a alma manteve-se intacta, não foi tocada pelas estações,
nem sequer a rudeza do inverno, nem o vigor do verão a mudou,
alterava somente nos outonos, e renascia em cada primavera, sem demora.
E eu que achava poder abandonar a fugacidade do tempo,
esconder a velhice... e fazer como nada acontecia,
tive que brincar de passado e de saudade, enganar o dia.
Houve um momento que achei que a juventude ia perdurar por mais tempo,
passou como uma ventania.
Não teve jeito, agarrei-me ao dever de cuidar da minha alma,
deixá-la sempre jovem, fazê-la existir.
Na descoberta, e resiliente... criei o seu melhor remédio:
amar
e rir.

Ari Mota

domingo, 26 de junho de 2011

EDIFICANDO O CARÁTER


Sem perceber foi chegando à mansidão no meu existir.
Óbvio... foi que na juventude criei passos largos, acelerei o olhar,
quis chegar antes de partir, quis emudecer antes de falar.
Fui vendaval em noites de calmaria, silêncio em manhãs de gritaria,
saí em desatino, querendo mudar o mundo... o meu destino.
E assim... desnudei-me em fraqueza, fui perdendo o sabor da pureza,
fugaz foram os meus desejos, efêmero a delícia dos beijos.
E cheguei ao meio da existência, na metade da minha vida,
e um dia fui testado pelo acaso... ganhei dinheiro e poder,
o primeiro escapou-me como uma folha seca em noites de ventania,
o segundo... fui espalhando pelo caminho, em agonia.
Das provas, a verdade da derrota foi a que mais me sacudiu,
bateu forte, cravou um vazio no peito, feriu.
Mas, foi o momento de maior crescimento, passei a ser eu em demasia.
Resiliente... tive que reinventar o caminho, redescobrir o horizonte.
Abandonei o esboço do que fui... passei a ser eu por inteiro, uma ponte.
E percebi que na verdade... fui me construindo sem saber,
e depois de tanto cair, eu e minha alma pactuamos... ressurgir.
Mas... há que se ter... momentos de lucidez,
e os tive... em fantasia, pura imaginação.
Em devaneios resolvi semear sonhos,
aclarar as sombras que habitavam minha essência,
evidenciei em mim, e pela vida... paixão.
Passei a não sentenciar as diferenças, nem outras escolhas.
Modelei um novo “eu”, redefini novos hábitos, encontrei outras virtudes,
tive que, ir retirando as mascaras que usei,
tive que oferecer os beijos e os abraços que não dei.
Sem perceber, a mansidão... apossou-se do meu existir,
eu que fui desespero, hoje sou contemplação.
Sou uma obra... inacabada, cresço desmedidamente,
passei a edificar... a mim mesmo,
vivo em desafio, sem ilusão, sem clamor
construo esperança, em silêncio,
e o meu caráter,
com amor.

Ari Mota

terça-feira, 21 de junho de 2011

O QUE VOCÊ PROCURA


Se todos os dias engolir a seco a própria existência,
sem cadenciar os passos, sem rumar à direção,
e com o olhar acelerado... contemplar o horizonte, e nada perceber.
Abrir os braços suplicando carinho,
estender as mãos com medo de caminhar sozinho,
e em sobressalto, perder a intimidade com o próprio silêncio,
necessitar de companhia a todo tempo, em todo o viver.
Você pode até achar que tudo virou solidão,
mas esse... é o momento da busca, do que você procura.
Se olhar com ódio, terá como reenvio desamor,
se acarinhar com um sorriso, a vicissitude lhe trará amor,
se falar com brandura, ouvirá em melodia... ternura,
e na descoberta encontrará tudo que buscas... ai dentro.
Mas... acalme-se... tudo isso é um exercício sem fim,
olhe infinitamente para você mesmo, com todo o cuidado,
regue-se com fervor... como se fora um jardim,
ponha equilíbrio... harmonia na sua caminhada,
cuide-se desmedidamente, sem temer a jornada.
Atente-se ao desassossego que permeia a alma,
e que lhe acompanha em todo o existir.
Aperceba essas emoções que entalam na garganta, querendo sair.
São dúvidas, acasos, ingênua inquietação,
impulsividade em desespero... ou em aflição.
Talvez... falta-lhe preencher os vazios, perceber os desvarios,
ou com toda a bravura, descobrir para que veio, o que procura.
Uns, saem por ai... atrás do vil metal, outros atrás de aventura,
uns até perdem-se no horizonte em busca de seus objetivos.
Outros já chegam perdidos e nunca se encontram... ficam esquecidos.
Mas há os que buscam tracejar o seu destino, esculpir seus sonhos.
Esses procuram tanto, que no fim,
escancaram intensamente a vida...
a procura e... encontram... amor,
e são felizes.

O que você procura?

Ari Mota

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O VENTO

Quando menino, li que do outro lado do mundo, nascera o vento.
E tudo foi por um bater de asas... de uma borboleta enlouquecida.
Ela... queria ganhar os céus, ser livre, desmedida,
voar sem destino, independente, desimpedida,
buscava a liberdade de si mesma, o próprio caminho.
Um dia... vestiu-se de ousadia, celebrou saltar em alegria,
e lançou-se no abismo da coragem... de decidir por si só,
audaciosa, arriscou o vôo... isentou-se das amarras,
fluiu descomprometida,
e foi embora, somente olhou a todos com ternura, com carinho,
sem domínio... ganhou o espaço,
sem despedir, sem entregar um beijo, ou roubar um abraço.
Partiu...
Mas, pediu ao vento que saísse espalhando a história,
e que ela estaria em cada expressão do existir,
e que todas às vezes ao passar por alguém... como um louco,
brincasse com os seus cabelos, tocasse a sua pele sem ferir,
e como não bastasse, deixasse uma mensagem para todas as almas:
que fossem livres, tolerantes e tivessem em demasia... amores,
e que além de lucidez... fossem sonhadores.
Eu que desde menino olhei o vento com olhos de desejo,
e em volúpia sei que distribui liberdade a quem quer que seja,
até hoje e já envelhecido o vento me fascina, me encanta... alucina.
Despeja em mim, transformação, o novo que vem de algum lugar.
E em silencio, respiro fundo e tiro-lhe a essência,
sei que ali sempre tem daquela borboleta... inocência
e amor.

Ari Mota

quinta-feira, 9 de junho de 2011

QUANDO ACABAR O CAMINHO

Se num dado momento do existir,
tiver que reduzir bruscamente os passos, não ter mais como andar,
findar as referências, as coordenadas, encontrar-se perdido,
meio que no abandono, esquecido.
E perceber que desapareceu o caminho,
e como se não bastasse... ser alcançado pela solidão,
refém de si mesmo... sozinho.
E depois o peito apertar em aflição,
e de repente...  sentir que escapou o riso, desabou o choro,
caiu uma cerração sem igual, e um frio entrou carne adentro,
silenciando a delícia da travessia, e a alegria do encontro, do abraço.
E uma angustia brotar dentro da alma em descompasso,
agarra-se em desespero ao próprio medo,
e o novo, o inusitado lhe fizer segredo,
não... não será possível voltar.
Nem intentar converter o rumo, nem redirecionar a trajetória,
nem achar que errou o norte, ou soçobrou em desalinho.
Terás mesmo... é que arregaçar as mangas,
criar, tracejar... dar existência ao próprio caminho.
É chegada a hora de não mais seguir os outros, nem ninguém,
e na descoberta... ver que naquele instante inicia a própria historia.
você que era dúvida, um enigma... agora transformou-se em paradigma.
Não se perde quando o caminho acaba,
perdem-se quando não descobre outros horizontes,
outras maneiras de saltar profundamente no desconhecido,
e alçar outros vôos... sem destino, e achar sempre uma saída.
Quando acabar o caminho, vá...
Guia-se pelo entusiasmo que carregas na alma,
arranque esta sisudez da cara, ria em demasia,
cante uma canção em alegria,
brinque com os seus medos,
não hesite em ser feliz.
Este é o caminho.

Ari Mota

sexta-feira, 3 de junho de 2011

ESVAZIAMENTO DE SI MESMO


Se com o transcorrer do tempo o crepúsculo lhe incomodar,
e um vazio assaltar a alma, e em ansiedade... deixar um vão.
E não conseguir aquietar-se em repouso, nem em descanso,
nem sossegar o corpo, ou fazer a alma entregar ao sono,
e depois de tudo... um desespero romper de dentro sem motivo,
e aperceber o inundar dos olhos... em gotas feito abandono.
E como se não bastasse, um soluço brotar em silencio,
escondendo o choro,
e não conseguir refugiar-se para dentro em solidão.
Isso poder ser...
o esvaziamento de si mesmo.
Terás que desafogar o medo que te aperta,
que te comprime em aflição, que te desatina em sofreguidão.
E romper com essa angustia, com essa dor incerta,
e redimensionar a estreiteza do desafio, do inusitado,
e saciar-se novamente de esperança,
nutrir a alma de sonho e o existir de amplidão.
Terás que cavar profundamente o íntimo, e ser diferente,
tirar dali destreza, arrancar os talentos que sempre escondeu,
e se expor ao mundo, com um olhar resiliente,
suportar o acaso, amar o desconhecido,
entender as vaias...
refazer, reconstruir os erros, e ser aplaudido.
Porque tudo aqui... mede-se, mensura.
Vê-se o tamanho da beleza, a intensidade do brilho.
A grandeza do desafio, o barulho da queda.
O silencio do vôo e a leveza da ternura.
Não permita o esvaziamento de si mesmo,
se você continuar como está...
vai terminar igual aos outros,
vazio...
Sem amor.

Ari Mota

sábado, 28 de maio de 2011

OS CICLOS DA ALMA


Demorei... a entender os sinais do destino,
quase fiquei preso a mesmice,
a chatice de achar que tudo era uma repetição,
e que nada se renovava no meu caminho,
e que meu existir era sem ação.
Até que em uma dessas retas sem fim,
apressei os passos, coloquei rapidez no andar,
e não consegui... concluir a curva à frente.
Estatelei no chão, esfolei a pele, sangrei sem chorar.
Levantei... bati a poeira... engoli a seco a timidez da queda,
o embaraço do tombo, o encontro com o chão.
Como não sei ser outra coisa... além de aprendiz,
fiz do tremor, do medo que nasceu na alma... ciclos,
e todas as vezes que sucumbo ao desalento,
reergo em altivez para mim mesmo,
respiro fundo, como se fosse buscar lá dentro... inspiração.
Recorro aos sonhos, aos devaneios, e aos ventos.
Não perco o simples prazer de recomeçar.
E ai... vem tudo outra vez... mas sempre diferente,
tudo que começo... crio um espaço para o fim,
e o defino de outras maneiras, e em novas descobertas.
Meu existir nada mais é que... ciclos de mim,
retiro os invólucros que aparentemente me protege,
arranco as cascas da minha aparência, desnudo minha essência,
e com brandura recolho para dentro do peito... o meu desfolhar.
E passo a ser eu... não muito, nem muito pouco... assim,
reconheço os meus ciclos, descubro os instantes de mudar,
de reeditar os paradigmas, as travessias.
Mudo tanto, altero-me tanto,
que há dias que volto por outros caminhos,
e quando chego... entro em casa portando alegria,
sorrindo sorrisos que nunca tive, olhando como nunca olhei,
amando como nunca amei.
Antes meus ciclos chegavam de tempos em tempos,
hoje... acontecem todos os dias, sem temor.
vi... que quem teme as mudanças permanece... perdido,
quem as descobre, inova:
o amor.

Ari Mota

terça-feira, 24 de maio de 2011

O COLAPSO DO SONHO


Há que se ter um olhar para dentro, postar vigília sobre si mesmo,
agarrar-se ao efêmero existir, sem desistir de sonhar,
sincronizar o destino a utópica morte,
e viver como se nada fosse acabar.
Realinhar as vontades, tracejar os novos caminhos,
reinventar os abraços, os afagos... para não ficar sozinho.
E depois... bem depois... do silêncio,
sondar sem exagero os passos da alma,
e vagar ao seu lado... ao acaso.
E um socorrer o outro em tardes de temporal,
em madrugadas de vazio,
em noites de desespero, em meio ao frio.
E mesmo com o desalento do abandono, não esmorecer,
ressurgir, rebrotar na aridez da angustia,
nem que tenha que repartir o cansaço, o fracasso,
o riso, e no improviso, compartilhar a solidão.
Porque existe uma fronteira tênue entre o sonho e o desistir,
entre ficar e querer partir,
abandonar a si próprio durante a caminhada... fugir.
Mas, há que aprender:
Quem não sonha, cresce pequeno.
Diminui subitamente na subida, e descontrola-se na descida.
E indubitavelmente pode produzir o colapso do sonho,
acabar antes de acontecer, morrer antes do fim.
Mas... haverá que redefinir a ausência de ousadia,
a estupidez do desanimo, o chegar da apatia,
e ressurgir do revés do dia, e recomeçar.
E em fantasia... ser feliz... revestir-se de alegria.
Porque tudo é breve, é pura utopia.
Que possa redescobrir os desejos, os beijos,
virar poeta... sonhador.
Fazer do existir,
amor.

Ari Mota

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O QUE VOCÊ VAI SER QUANDO ENVELHECER


De tudo ficou a certeza da dúvida, e que nada sei.
Quando menino, o mundo cobrava-me o que ser,
quando crescer.
Vieram às desconfianças patológicas, quase virou maluquice.
Saí à procura de referência, corri aos livros,
desespero de juventude... pura tolice.
Fui procurar o “eu” em outra história e outras almas,
quase fui abatido pelo vazio, pela ausência de mim.
O tempo implacável fluiu como um vendaval,
fui esticando sem crescer.
Por um triz, quase nasceu um vão aqui dentro, sem igual,
sorte foi que a circunstância não me deixou fútil,
nem a necessidade, vil.
Sobrevivi à rudeza do cotidiano e a estupidez juvenil.
Eu que necessitava ser alguém quando crescesse,
tornei-me “eu” sem saber.
Errei em demasia, corrigi sem temor e acertei em analogia,
houve tempos de derrotas, outros de alegria,
e eu que não sabia quem seria... encontrei-me.
E na descoberta, cresci... sou assim, do meu tamanho.
Hoje não mais me pergunto o que vou ser quando crescer,
a pergunta do agora é o que vou ser quando envelhecer,
e esta é a questão do amanhã, acontecer sem iludir.
Como já fui surrado pelo existir,
hoje quem faz as escolhas sou eu e minha alma,
vivo em volta dos meus desejos, que me acalma,
e antes que vá a lucidez.
Danço em madrugadas de solidão e ao léu,
e sempre... com uma louca bailarina, outra vez,
ao som de uma orquestra de borboletas azuis,
tocando Ravel.
De tudo ficou a certeza do sonho,
e como sou aprendiz... de mim.
Hoje sei o que vou ser quando envelhecer:

Feliz.

E você?

Ari Mota

domingo, 15 de maio de 2011

UM NOVO NORTE


Se depois de tudo, e ainda... um vazio não desgrudar da alma,
o peito arder de solidão, e uma lágrima escapar em espanto,
descer lacerando a carne, como se queimasse o sonho,
e o soluço contido esconder o pranto.
E sentir o ofuscar do brilho, e o sumir do encanto,
correr em desespero a procura de um carinho,
sentir-se perdido ao meio do existir, não sabendo aonde ir.
Pode ser... que esteja somente a deriva, procurando um norte.
A mesmice o levou ao cansaço, o individual o deixou sem o abraço.
A voracidade do ter o abandonou pelo caminho,
quando procurou abrigo... se viu sozinho.
Há que se realinhar o próprio magnetismo,
reparar a própria bússola e redirecionar o seu destino.
Há que se fazer outras perguntas e não temer as novas respostas.
Há que se partilhar o riso... o que for preciso e o olhar.
Mas, terá que reinventar o afeto que se perdeu como um objeto,
ao longo do andar.
E terá que abster-se do medo da entrega e de amar,
ter a coragem de repaginar a insanidade que viveu,
traçar outras referências, outras verdades,
abandonar os discursos... e encarar o silêncio de si mesmo,
e aceitar o que aconteceu.
Se depois de tudo... inda faltar insensatez,
haverá uma chance de nortear o destino outra vez.
Ninguém se perde quando reedita os sonhos,
reconhece os enganos, os desacertos,
pede desculpas... faz-se... os consertos.
E depois de tudo... inda é possível preparar o fim.
A vida nos permite reflorescer, cobrir-se de flores,
abandonar os rancores.
Encontrar um novo norte... em esplendor,
e depois... além da volta,
ressurgir por amor.

Ari Mota

quarta-feira, 11 de maio de 2011

AS PORTAS ESTÃO ENCOSTADAS


Quando o destino nos convoca para partir,
a incerteza fica ali do lado de fora, na espreita a nos olhar.
Sorrateira, nos vê com olhos de desdém.
Traiçoeira, nos reveste de duvida... como ninguém.
Depois nos abandona em noites frias,
e nos esquece, trêmulos em madrugadas vazias.
Encaramos o existir com sofreguidão,
e achamos que todas as portas estão fechadas.
E uma inquietude seqüestra nossos sonhos,
e planta em nossas almas... solidão.
Teimamos em não ter teimosia,
morremos de receio da ousadia.
Apequenamos quando erramos,
em desassossego fingimos nossos desacertos,
ficamos vítimas do nosso próprio medo.
Uns... passam toda uma vida... assim,
sem conhecer o desprazer das vaias,
nem a delicia e o glamour dos aplausos.
Dissimulam o riso, disfarçam o choro,
emudecem o soluço, engolem o desaforo,
escondem demasiadamente do palco da vida,
sem tentar mais uma vez... partir, sem despedida.
Quando o destino nos convoca para partir.
Há que se levar na bagagem... mais coragem,
nem que no caminho... ao procurar um abraço,
no descompasso... encontre-se... sozinho.
Há que se esmurrar e empurrar todas as portas.
Há que se bater palmas, pedir... gentileza antes de entrar.
Há que se abrir todas elas... durante a caminhada,
o destino nem sempre... as deixam trancadas,
às vezes elas somente estão encostadas.
E lá dentro sentado em devaneios: o acaso... o risco,
em aplausos... esperando-te, e pedindo bis.
Porque ousou... abriu uma a uma,
atrás de um só dever... e seu... só seu,
o de ser feliz.

Ari Mota

quarta-feira, 4 de maio de 2011

EM BUSCA DE SENSATEZ


Eu sempre me olho, faço uma varredura no que sou,
e em vigília, e em metáfora... sou um barco a navegar,
tenho madrugadas de calmaria, noites de ventania,
delírios de medo e tempestades em alto mar.
Quando cessa os movimentos das ondas e dos ventos,
estendo as velas sobre o meu peito, e com todo o jeito,
remendo os furos, conserto os rasgos, costuro os vazios,
emudeço os soluços, enxugo as lagrimas, e afago os desvarios,
e a reconstruo para a próxima tempestade.
Fiz de mim um barco... da minha alma uma vela,
com toda a intensidade,
andamos pelos mares do existir,
como dois aventureiros... somos cúmplices, amantes,
solitários... errantes.
Vivemos assim...
Às vezes a deriva, às vezes sabendo aonde ir.
Recomponho-a... reparo sempre e sempre depois dos temporais.
Ela gruda em mim como se eu fosse um mastro,
e eu a ela... como se fosse um lastro.
Estamos em conivência em nossa viagem,
às vezes quase morremos de incerteza,
e depois de coragem.
Vivemos assim...
Atracamos ao anoitecer,
zarpamos sem destino ao por do sol,
como dois enamorados contando estrelas,
plantando rosas vermelhas e girassol.
Eu sempre me olho, sou mais alma... que corpo.
Mais vela... que barco, mais vento... que mar.
Embora tenha devaneios de poeta,
sou mais certeza... que talvez.
Eu e minha alma navegamos,
em busca de sensatez.

Ari Mota

sábado, 30 de abril de 2011

SEM VOCÊ


Até tentei...
Já fiz alguns ensaios, já provei o sabor da solidão,
esbocei um projeto de fuga, até uma rota ao meio da madrugada.
Experimentei o gesto do adeus,
e a dor da partida... da despedia em aflição.
A mala por diversas vezes ficou pronta, escondida atrás da porta.
Mas, tudo ficou no desassombro do vazio,
na incerteza de um dia ter que voltar:
Atrás do seu jeito... do seu olhar,
do seu calor que sempre me aqueceu no frio.
Da embriagante fragrância do seu corpo.
Até tentei...
Em desespero... inventei viver sozinho,
fingir amparo sem seus beijos,
abrigo sem seus abraços,
e refugio sem seus desejos.
Já ensaiei a estupidez do abandono,
e até quis abandonar o adeus e partir,
pensei em renunciar o fim, e ir embora,
sem soluço, sem lagrimas, sem despedir.
Até tentei...
Mas... Minha alma, sempre grita... a sua ausência,
esmurra meu peito... te chamando,
querendo seus chamegos,
clamando o seu amor.
Até tentei...
  Não
        consigo 
                     andar
                               sem
                                       você.

Ari Mota

terça-feira, 26 de abril de 2011

SOU O PRESENTE


Dia desses... após uma conversação,
alguém me disse: como era no seu tempo?
Em silencio escapou-me um sorriso que me tirou o jeito,
tomado de pasmo, sem estar pendurado na dúvida,
entendi ser apenas um conceito.
Tolerante que sou... complacente, flexível,
olho com docilidade as diferenças,
e salto livre nos abismos que separam as gerações.
Bem sei... que o tempo andou desgastando minha beleza,
alvejou a pele... a deixou meia que pálida,
disfarçou a cor ao rosto,
perdi o ruborizar da meninice, sem se magoar com o que passou,
não fiquei enroscado em lembranças, ou perdido em recordações.
Logo...
Atrevo-me, a abandonar pelas margens do meu existir,
os meus incômodos,
meus medos,
o que não posso fazer voltar.
Pertenço ao presente... sou do agora,
sou hoje, o passado é apenas alicerce,
minha estrada... construo a cada amanhecer,
em cada forma de amor, em cada maneira de amar,
refaço todos os dias minha visão de mundo... de mim,
por isso...
Se... querem me ver, me achar, identificar-me,
aprofundem na contemplação.
Não sou o que aparento,
sou o avesso,
sou o de dentro.
De mim... só a alma vale.

Ari Mota

quinta-feira, 21 de abril de 2011

AUTENTICIDADE


Se depois do fatigante dia, e no limiar do crepúsculo,
voltar ao seu refugio... encontrar vazios, inquietação,
e se todas às vezes... tiver que despir da beleza que carregas,
das vestes que usa, dos adornos que exibe,
e em desespero...  cair em solidão:
É hora de um olhar verídico sobre si mesmo.
É tempo oportuno de desvestir o que apresenta, e ser o que é.
É vez... de descortinar o que esconde, desapossar das coisas,
que em delírio faz razão.
São eternos instantes, são disfarces... que trazes na cara,
aplica na pele, perpetua no gesto, e pode um dia não poder tirar,
são mascaras invisíveis, são inverdades travestidas de ilusão.
Dispa-se do dissimulado...
Escolha o amanhã para desfilar sem os adereços.
Ressurja sem fantasia... sem cartão de credito, celular.
Use aquela sandália de dedo, aquela camiseta de algodão.
Dê bom dia ao porteiro, ria o dia inteiro,
dê flores, amores... olhe-se no espelho, silencie aos falantes,
aos... quietos, faça uma declaração.
Reapareça como você...
Renuncie ao que nunca foi, intenta apenas ser por inteiro,
verdadeiro.
Consulte sua alma antes de sair, de acontecer,
ela lhe contará... da sua resiliência,
da sua coragem de se transformar e ser autêntico
e como reconstruir
o seu existir, o seu viver.

Ari Mota

sábado, 16 de abril de 2011

A VELHICE



Só consigo mensurar o tempo quando pelas manhãs deparo-me no espelho,
e em desespero atento pela suas medidas, suas marcas na minha face,
e em disfarce, o quanto me roubou de juventude, e a quase impublicável aparência.
Fingiu edificar belezas entre as rugas da pele, e na palidez dos cabelos.
Suprimiu alguns movimentos, subtraiu a doçura da adolescência,
arrebatou a avidez da luta, e a voracidade do vencer.
Furtou sem pressa... a impaciência juvenil, e os devaneios da ambição.
Restou-me talvez muito, ou pouco, ou quase nada, ou quase tudo.
Hoje... sou mais silêncio em sofreguidão,
sou calmaria em manhãs de ventania,
tenho minha alma como companhia,
e olhar de solidão.
Não culpo o tempo... sou grato a ele.
Quando tudo virou ausência... encontrei-me.
Fiquei fã de mim... sou palco e platéia de mim mesmo,
ando me vaiando menos nos últimos tempos, me amando, eu sei.
Ando as voltas com a resiliência, estico-me, adapto-me ao abandono,
refaço-me, reinicio-me com o cair das folhas, com a chegada do outono.
O tempo ensinou-me... a olhar a mim...
Ando explorando regiões desconhecidas, perdidas... aqui dentro do peito.
Todas as manhãs... olho para o espelho, sem ser torpe... e embelezo a minha feiúra,
que pura, me enobrece, enaltece.
Barbeio-me, olho-me como um vencedor,
sobrevivi à rudeza do cotidiano, sem ser leviano.
Saio para viver... o que ainda me resta...
com amor.

Ari Mota

quarta-feira, 13 de abril de 2011

DEPOIS DAS LÁGRIMAS



Se um dia romper de dentro um soluço descomunal,
como se fora um choro em descompasso,
um desespero em aflição.
E em sobressalto se ver no meio de uma tormenta,
uma ventania sem igual,
e descomedir-se no abandono,
vitimar em solidão:
Será preciso que se baste por si só, suporte a dor,
tolere a inquietação das perguntas,
e admita a verdade das respostas,
e depois compreenda o gotejar das lágrimas em confusão.
Tudo passa... nada permanece, tudo é cíclico,
somente perpetue na alma... suas escolhas,
e primaz que seja... ser feliz.
Portando, arrume-se para... depois das lágrimas,
e por falar nelas... não as deixem... rolarem para o chão,
chuvisque-as no seu existir, como regasse uma flor,
regasse sua própria alma,
porque depois das lágrimas,
você pode ser tocado
profundamente
pelo amor.

Ari Mota

domingo, 10 de abril de 2011

REPENSAR O EXISTIR



Há que se debruçar sobre si mesmo um dia,
e se olhar como nunca o fez,
e depois descortinar a alma, e repaginar o fim.
Nem que no último instante seja tocado pela solidão,
nem que tenha que discutir a dúvida, o talvez.
E encarar os erros, afrontar a dor, e abafar o grito.
E na descoberta... vê que não se conheceu,
perdeu ao longo do existir contato com o próprio eu.
Olhou em demasia para os outros,
não teve prudência de si para si,
feriu a própria a carne,
flagelou-se com medo... do medo,
atormentou-se com o silêncio,
estremeceu com as incertezas e com os vazios.
Há que se debruçar sobre si,
nem que seja no último instante.
E ter coragem de olhar... com amor para o que viveu,
olhar para a alma, para si... como há muito não via,
e, todavia...
ter a certeza...
que tudo valeu.

Ari Mota

quarta-feira, 6 de abril de 2011

APOTEOSE MENTAL


A vida me deixou assim... meio que esquisito,
e em vigília, fiz do olhar mais que contemplação.
Fui em zelo, triagem... fiz escolhas nas companhias,
sem jamais sentir-se sozinho, desconfortável, aflito.
Fiquei seletivo no convívio, implacável na solidão.
Fugi dos falantes, dos locutores de vazios,
dos que vociferavam o engano, malogravam a verdade,
esboçavam impiedosamente suas neuras, sua apoteose mental.
Corri toda a minha vida... dos insolentes, dos desvanecidos,
dos revestidos de ridícula soberba, dos entristecidos.
Afastei dos insensatos, dos que queriam o centro, a divinização.
Hoje... movimento minhas asas com autonomia, sem influência,
salto livre nos abismos das minhas vontades, sem domínio.
Dispo-me dos meus medos, sem prudência,
sou descomedido no pensar, solto no andar,
não creio, nem julgo... faço silêncio com o olhar.
Sou senhorio do meu arbítrio, comando minhas vontades,
faço experiência com os meus desejos.
Distancio-me dos contadores de histórias... das inverídicas,
ninguém direciona meus abraços, meus afagos, meus beijos.
Encontro grandeza no que é simples, no imperceptível,
contemplo pétalas de rosas vermelhas, faço versos,
virei aprendiz de poeta.
Aqueço-me em madrugadas de insônia com minha alma,
que calma... afaga-me, me acalenta, e ao meu lado aquieta,
deixa-me sereno, feliz, não me faz pequeno,
estou no tempo da sensatez.
Danço em devaneio com uma louca bailarina, que me alucina,
ouço o acordar da natureza, observo os bem-te-vis, e o beija-flor.
Hoje... convivo somente com os que em apoteose,
fale de amor.

Ari Mota


sábado, 2 de abril de 2011

2012 O ASCENDER DO AMOR

Se um dia... lá pelas tantas de 2012,
uma vibração irromper de dentro, sacudir sua essência,
e um magnetismo transpassar e estremecer a alma,
como uma ventania em descontrole, como sismos em violência,
não se atemorize, nem se sobressalte em desordem,
desacredite nestes ensaios apocalípticos, nestes medos de tudo findar.
A dimensão do existir ultrapassa a fronteira do fim,
a vida é muito, é intensa, imensa... para tudo acabar.
Você na verdade, pode estar no melhor do seu tempo,
tempo de redefinir, redirecionar o que tem de sentimento,
é o momento de aumentar a intensidade da luz, do seu próprio brilho,
da sua mudança consciencial, rever paradigmas, rotas,
dimensionar o que é... e para que veio,
nada termina, tudo se transforma, muda, encare as mudanças sem receio.
É chegada à hora de se realinhar com o universo, consigo mesmo,
e não mais vagar em desvario, perder-se à esmo.
Ilumine-se... a escuridão é apenas a ausência da luz.
Terá que impor algumas podas, repaginar o olhar,
desembrutecer a alma, sorrir, abraçar, alentar.
Será o tempo do ascender do amor,
jogue fora a sisudez de profeta, brinque de poeta,
iluda a solidão, rompa a emoção,
procure alguém para amar,
não esteja sozinho.
Procure alguém para receber,
seus carinhos.
2012... a era do amor,
ame em demasia,
em fantasia,
e para sempre.

Ari Mota

domingo, 27 de março de 2011

VIVER OU FILOSOFAR


Um dia, meio que perdido nas esquinas do tempo,
um velho sábio mostrou-me dois caminhos:
Viver ou filosofar.
O destino já conhecia as minhas escolhas...
só ficou no caminho a me esperar.
E assim... como desconhecia a arte dos vocábulos,
só detinha o saber da luta, a solidão das batalhas,
fui viver.
E de tão intenso, de tão amargo... nunca terminou,
virou rotina, um hábito, acostumei ao desconforto,
mas... resisto às madrugadas de insônia,
rompo as noites de vigília, esperando o sol,
enxugo o suor que vem da alma, aqueço o tremor do corpo,
refaço todos os sonhos... eu me ilumino, sou um farol,
adapto-me as ventanias.
E hoje envelhecido... estou no melhor do meu tempo,
tempo de calmaria.
Faço musica com os meus soluços, virei poeta,
fiz da minha alma poesia, serena... quieta.
Transformo lagrimas em brisa...
como se fossem aragem no meu existir,
no meio da solidão... planto flores,
cuido de borboletas azuis, de amores,
na descoberta aprendi o que é o amor... amar,
hoje além de viver,
passei a filosofar.

Ari Mota

terça-feira, 22 de março de 2011

O DIA QUE ME ENCONTREI


Um dia entrei em casa e o destino estava a me esperar,
as malas prontas, os documentos na mesa... tive que partir,
como cresci olhando o caminho, observando a longa estrada,
segui sem muito recear a caminhada,
segui sem paradigmas, sem saber se um dia eu ia voltar.
Muitos passaram por mim, fiquei perdido em nuvens de poeira,
pedi carona, companhia, sem rumo e sem saber aonde ir.
Resiliente não me senti em desalento, fui seguindo o vento,
sem confrontar as diferenças... fui solidão, ausência,
uns perderam-se nas marginais de sua essência,
e outros tantos voltaram sem sentir o sabor da dúvida,
e o medo de se perder em meio a sua jornada.
E assim, lancei meus pés na via do meu percorrer,
fui escolta de mim mesmo, não receie perder,
tropecei, cai, levantei,
tive que transcender as quedas.
Encarei o que uns a chamam de vida, eu a concebo como existir,
fui combate, insisti, repeti muitas vezes,
fui quase à exaustão, desabei, fui emoção,
nunca desisti.
Mas... houve um dia... que abandonei todas referencias,
e passei a construir a minha história.
Só assim, consegui caminhar livre, voar em devaneios,
passei a ser personagem de mim mesmo, passei a ser eu,
até que um dia eu me encontrei.
Hoje escolho os meus caminhos, meus jardins,
minhas borboletas, minhas flores.
Fiquei tão seletivo, que só ando comigo,
e com meus amores.

Ari Mota

quinta-feira, 17 de março de 2011

TERREMOTOS DA ALMA


Não se esqueça de aperceber estes sismos vindos de dentro,
estes abalos que sacodem sem destruir,
estas vibrações que implodem a alma,
sem agredir.
Somos acometidos destes terremotos imaginários,
destas ondas em revolta, destes tsunamis vestidos de agonia,
destes pingos de lágrimas que dilaceram, sufocam feito maresia,
destes desamparos em noites de solidão, destas madrugadas frias,
em manhãs de aflição.
Mas... não se desespere... entre em estado de resiliência.
Como já não possuímos mais os caminhos, nem estradas para andar,
nem pistas para decolar.
Saia sem destino, sem hora e nem aonde chegar.
Há um talvez lhe esperando ali no horizonte,
um abraço escondido além do por do sol,
um amor em desejo aquém dos seus beijos,
um... outro vento, uma brisa diferente, uma ponte.
Só não desista de ser feliz.
Nem que custe, nem que doa,
nem que o faça caminhar sozinho,
nem que o medo venha lhe fazer companhia,
e em desassossego ser seu vizinho.
Insista...
Às vezes estes sismos vindos de dentro, estes abalos existenciais,
são nossas almas... reclamando carinho,
somos nós mesmos,
querendo amor.

Ari Mota