domingo, 27 de fevereiro de 2011

AS ESCOLHAS DO CAMINHO


O destino, certa feita impôs-me romper a indolência,
arremessou-me na estrada, soltou das minhas mãos,
e em desamparo, em desatino fitei o horizonte... segui o caminho,
no princípio cismei que o trajeto seria somente linha reta,
e que mesmo sozinho, era só continuar.
E assim... derrapei na primeira curva, tive que parar,
recompor o susto, bater a poeira, realinhar o existir,
tomar fôlego, redimensionar a direção, e seguir.
Eu que visualizei uma via única para caminhar,
a deparei sinuosa, ondulante, vaga, distante,
serpenteava em minha frente, flutuava no meu olhar.
Perdia o foco em madrugadas de neblina,
tremia de medo em noites de ventania,
parei muitas vezes, e muitas foram as que quis voltar.
Resiliente... sempre seguia em frente.
Procurei atalhos, vereda secundária, rua imaginária,
intentei ir... fui seduzido pela dúvida de chegar,
transpirei de cansaço, de incerteza,
fiz da minha alma companhia, fortaleza.
E hoje envelhecido...
Sei o quanto foi magnífico que minha trajetória,
transcorresse em vias contraditórias,
em ruas descalças, em avenidas infindas,
em curvas tortuosas, teimosas.
Cresci com o meu caminhar... fiz de mim,
um caminhante, que de errante nada tem,
caminho oferecendo carona
aos que me olham com amor,
fazem-me...
bem.

Ari Mota

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

REINVENTAR OS ÍDOLOS


Andei bisbilhotando o homem dos tempos de hoje,
os encontrei sem referências humanas,
carentes de símbolos, com ausência de ídolos,
alienados... dispersos... sem sonhar.
Apartado da lógica, do senso, do livre arbítrio, do evoluir.
Sem contemplar a critica, nem mensurar as diferenças,
sondei sem inquirir, averiguei sem questionar,
olhei sem ser torpe, com olhos de águia... espiei a distancia,
sem expressar indiferença, nem intolerância.
Distanciei-me da multidão, como tigre em noites de solidão,
olhei sem impor censura, os encontrei sem desaprovar.
Vi nas atitudes, nos vazios existenciais:
falsas ideologias, discursos tirânicos, demagogia.
Vi gerações perdidas, implodidas, inúteis.
Sem escolha de comportamento ético,
cético no amanhã, perambulando pelas ruas,
sem buscar outros paradigmas,
sem mudar o ângulo, nem virar as paginas,
nem trocar de livros, nem ultrapassar fronteiras,
sem derrubar cercas, sem no gestual ter outras linguagens,
e no andar... instalar outras paragens.
Os encontrei naufragados em si mesmo,
carecendo de uma reengenharia que pudesse colocar esperança,
onde se encontra desprezo, onde está a dor,
consciência onde falta o saber,
porque se muda um país quando o faz com seus ídolos,
e os reinventa sempre...
até encontrar um que fale
de amor.

Ari Mota



sábado, 19 de fevereiro de 2011

O HOJE ME FASCINA


Pela manha batem em minha porta três figuras espectrais,
esboços quiméricos, fantasmas de mim.
Espio pela fresta do destino,
e deparo com o passado, o presente e o futuro,
ambos na espreita... querendo invadir minha alma,
e em delírios frenéticos tomar de assalto meus sonhos,
brincar com o meu dia, sacudir minha calma.
Hesitei... quase não os permiti... entrar.
Hoje... envelhecido estou no tempo da escolha,
sou livre no desejo, solto no planear,
salto profundo em todos os abismos,
e desponto livre dos conceitos e das cercas,
traço o meu vôo, desenho o meu andar.
Permito o invadir do inusitado, do incomum,
resisto ao medo de existir, de enfrentar os caminhos,
suporto o rigor da estrada, de estar sozinho.
Convido o passado a sentar comigo em noites de solidão,
trocamos lembranças, falamos de desencontros,
de soluços, de saudade... o denomino professor,
mas... logo em seguida o alojo no porão.
E depois... fito com ternura o futuro, fantasio-me de amanhã,
sou sempre esperança, sou infinitamente esplendor,
mas... o convido a recolher-se, e me esperar.
Depois... ou logo em seguida, danço loucamente com o presente,
harmonizo-me a suas fantasias, e vivo sem ensaios,
sou tocado pela beleza de todos os amanheceres,
eles me fascinam, 
vivo somente o hoje,
por amor.

Ari Mota

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O MEU ANJO


Um dia... na meninice percebi que alguém me seguia.
O tempo fluiu, tomei corpo, adaptei-me as intempéries,
fui nuvem em noites de ventania,
fui riso em madrugadas de calmaria.
E sempre aquele espectro em meu passo,
agarrado ao meu vestígio, debruçado em meu cansaço.
Em uma destas esquinas do destino, o esperei em desatino,
e indaguei seu nome?
Manso como uma borboleta em transformação,
sereno como uma orquídea em perfeição,
segredou-me a meia voz... sou seu anjo,
o acompanho pelo caminho,
e nunca o deixei sozinho.
Em êxtase...
Não tinha o que ofertar, tenho tão pouco, sou tão pequeno.
Tímido, ofereci minha alma para ele morar,
pactuamos nunca um deixar o outro, até tudo terminar.
Hoje... envelhecido.
Sei que ele sempre foi minha bússola, meu norte.
Fiz dele meu mapa, não me perdi pelas estradas,
faço dele meu GPS, ensina-me os caminhos, é meu suporte.
Ele me acalma, é meu rumo, meu prumo.
Ele é amor.

Ari Mota

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

DOSAR OS VÔOS


Não almeje dimensionar somente as coisas da conquista,
o prazer do desfrute, o despender da moeda,
a insensatez do consumo.
Não devore o tempo como se fosse o último instante,
não desfoque o rumo,
nem o viva com se eterno fosse.
Pondere os saltos, os delírios,
a embriagante jornada de estar aqui.
Seja prudente nos vôos...
mas salte profundo somente para dentro de si mesmo.
Mas antes de tudo...
Vislumbre planear o tamanho da luta,
saiba secar o suor que destila, a carne que sangra,
aceite as batalhas que se perdem, não fuja da disputa.
Suporte os medos dos duelos e a solidão dos combates,
desmistifique os vazios que acampam na alma,
plante ali mudas de resiliência.
Resista às ventanias do existir, e ao cheiro da terra quando cair.
Ataque a inércia, a indolência... sem se perder pelo caminho,
e siga seu destino sem se sentir sozinho.
Mescle o riso com a sisudez, simplicidade com altivez,
impetuosidade com calmaria, prudência com loucura
tristeza com alegria, rudeza com candura.
Olhe com delicadeza para você, e para o mundo,
e pelo que já conquistou... que tudo será muito simples,
às vezes em um segundo
a vida que é amor...
finda,
e pode não dar tempo de ser feliz
ou de dizer adeus.

Ari Mota

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

SOBRAS DE MIM


Em regresso fui vasculhar o passado...
E lançar ao mar das minhas emoções,
sobras de mim.
Deixar à margem do meu caminho,
restos de desilusões.
E de tudo que me aconteceu, de tudo que ficou empilhado,
guardado nos porões da alma,
engavetado como angustia, ou escondido como ilusão,
tudo que me estreitou, apequenou o meu existir,
toda a fúria em disfarce, todo medo em desistir,
tudo que fez de mim rancor, do meu abraço desamor,
do meu olhar em desalinho, do meu carinho em desafeição.
vasculhei a alma... joguei fora tudo o que me era de mais,
esvaziei-me por dentro.
Hoje...
Quando regresso ao passado,
minha alma, que de tão calma... nada trás de desprazer,
desliza pura e ingênua sobre o meu destino,
já não caminha, flutua a procura de mim,
voa sem esvaecer,
resiliente busca em devaneios... ser feliz,
vasculho minha alma todos os dias,
a procura de ódio, a procura de dor,
só encontro sobras de
amor.

Ari Mota

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

MORRER É ABANDONAR A ALMA


Ando tão feliz...
Que esqueci que tinha que morrer.
Como acho que morrer é um acinte ao sonho,
prefiro sonhar.
Vivo visceralmente...
Descubro a sutileza do toque, e a beleza do olhar,
o perfume das rosas, a emoção de amar.
Não permito a companhia do desalento,
nem a ausência do sentimento,
Vivo assim...
Uns morrem lentamente, agonizam toda uma vida,
sofrem sem ter dor,
clamam carinho sem oferecer amor.
Eu...
Tenho exagerado no afeto, amo em demasia,
sou colo, sou pequeno, grande, sou lago profundo, calmaria.
Ando tão feliz...
Que tem madrugadas, que eu e minha alma... dançamos sem parar,
ela me sussurra e me apalpa... diz que me ama.
E que morrer... é quando um abandonar o outro,
­grudo nela, e ela em mim.
Somos apaixonados um ao outro, nem ventania separa,
nem solidão desampara.
Ando tão feliz... que...
tenho esquecido de morrer.

Ari Mota

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

REABASTECER A ALMA


Acelerei os passos, disparei pelas estradas,
perdi a prudência da quietude, fiz da juventude desassossego,
do olhar frieza, dos sentimentos desapego.
Parti mais...
Celebrei infimamente as chegadas,
fui descuido, desatenção, palavras em descortesia,
isolamento em demasia.
Mas um dia...
o tempo surrou-me nas esquinas do existir,
quase perdi o fôlego, quase cai em descompasso,
por momentos e sem força quase não consegui resistir,
por pouco fiquei sem o calor de um abraço.
Cai por vezes... mas levantei por outras tantas.
Resiliente e na descoberta...
vi que tinha que reabastecer a alma,
e inútil... somente afiar a espada... é preciso as vezes encontrar a calma,
e entre um combate e o outro, vez por outra... dançar na praça,
brincar com borboletas, gargalhar em devaneios, abandonar a caça,
colher rosas vermelhas, bebericar gotas de singeleza,
realinhar sonhos, perder-se na dúvida, e jamais ter certeza.
Hoje...
Amenizo a severidade que tinha comigo mesmo, me aceito como sou.
Reabasteço-me, de mim mesmo... do meu silencio.
Minha alma perdeu a fúria, deixou de ser inquieta,
estou aproximando do tempo da razão,
olho a mim... faço versos... virei poeta,
não sou mais solidão.
Reabasteço-me, de mim... como um sonhador,
continuo... insisto,
por amor.

Ari Mota


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

DISPO-ME DO MEDO DE SER EU


Um dia o destino concedeu-me o existir,
ainda menino percebia o aumentar dos músculos,
o esticar da pele, o ascender da vida.
Maravilhei-me com a descoberta, e me perdi na duvida,
percebi que cheguei inteiro de corpo, mas fracionado de alma,
eram pedaços por todos os lados, espalhados, amontoados,
uma desordem sem igual, um desalinho... um temor,
faltava-me essência, brotava vazios, 
doía o peito sem ter ferido a carne,
descia lagrimas sem ter tido a dor.
Foi quando o tempo fez-se de mestre, e eu de aprendiz...
Foi quando tive que recompor a mim mesmo,
andei recolhendo e resgatando pedaços de mim, pedaços de alma,
às vezes em noites de solidão,
às vezes em tardes de ventania,
às vezes em dias de calmaria.
E assim recomponho-me em sinergia,
dispo-me do medo de ser eu.
Busco-me a todo o momento, me reconheço em todas as manhãs,
sou conhecedor de mim.
Não coleciono coisas, agrego coragem para ser feliz,
sou forte, fraco, simples, imenso... calmo,
estou quase inteiro, e minha alma também.
Pactuamos celebrar o último pedaço, antes do fim,
e em devaneios, e com todo o esplendor,
gritar... a mim mesmo, que a vida é apenas um instante,
e que para ser inteiro...
o último pedaço de alma:
tem que ser amor.

Ari Mota

domingo, 23 de janeiro de 2011

ENTREGADOR DE CORAGEM

Já andei em desespero, sangrei de medo,
chorei em noites de solidão,
fiquei no abandono em madrugadas frias,
errei caminhos,
perdi-me em desertos,
tremi sozinho em aflição.
Sobrevivi ao desamparo, escapei da culpa,
supri todos os vazios da alma
repus todas as ausências,
sequei todas as lagrimas,
fiz da minha vida... calma.
Hoje... em tudo isso, e depois de tudo...
aprendi a não desistir, tento sempre,
e sempre mais um pouco... agarro-me em cada esperança,
renovo todos os meus sonhos,
alço sempre novos vôos em perseverança.
Mas... se por ventura...
os ventos da incerteza vierem acompanhados de duvidas, feito ventania,
posso sufocar com risos, seus soluços... todos os dias,
e em vertigem colocar alegria na sua dor.
Posso lhe dar colo, afogo, acarinhar sua face,
partilhar todo o meu amor.
Mas... Se, contudo entre nós existir estradas,
um horizonte que nos separa,
uma infinita distancia que nos desampara:
Não se desespere, entregarei tudo que sinto,
porque tudo...  transcende o tempo, o longo caminho,
e continuarei olhando para você com todo o carinho.
Se o destino interromper sua jornada,
e necessitar de abrigo em sua viagem,
ofereço-lhe minha alma,
vou a sua busca
entregar
coragem.

Ari Mota

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

CONCLUIR O PASSADO


Houve um tempo em que olhava para trás e alguém me perseguia,
acelerava os passos, virava as esquinas, corria...
E sempre alguém no meu rastro, pisando em minhas pegadas,
seguindo minhas trilhas, farejando meus vestígios,
tomando poeira em minhas estradas.
Parecia minha sombra, parecia em meu encalço,
de sôfrego, apercebi que era meu percalço.
Até que um dia... agarrou na minha carne,
apoderou-se da minha alma, ficou pegado a mim.
Saracoteei-me, bamboleei-me para repeli-lo... não consegui.
Resiliente que sou... e em combate, e em imensa luta,
e na descoberta... vi que era o passado... o que vivi.
O que não acabei... o que ficou por terminar,
ou achei que era o fim.
E acintoso cobrou-me desfecho, e riu do meu desleixo,
zombou da minha estupidez.
E em silencio, e depois que passou a raiva, ponderei...
busquei em retrospectiva, sensatez.
Saí... fui reparar respingos de desatenção,
retocar obras inacabadas, lagrimas suspensas no ar,
medos perdidos em noites de solidão,
derrotas escondidas, desejos a terminar.
Tive que concluir o passado...
E pactuamos jamais um romper com o outro,
ele transformou-se em recordação, e eu em perspectiva,
ele seguiu outro destino, e eu o meu.
Sou amanha, não sei retornar, nem voltar,
expurguei algumas coisas, compactei outras tantas,
e arquivei na alma... sou hoje...sou  vida,
sou um poeta a delirar.
Sou mais ousadia, tento sempre... todos os dias,
sou pura emoção.
Tive que concluir o passado... o deixei vazio,
metamorfoseei-me em futuro, mudo sempre,
adapto-me a todo instante,
sou evolução.

Ari Mota

sábado, 15 de janeiro de 2011

NÃO IMPERMEABILIZE A ALMA


A rudeza do dia... transforma-nos em autômatos,
repetimos gestos sem criar emoção,
não permitimos a delicadeza transpor a carne,
passar para dentro e tocar-nos profundamente,
e chegar a alma sem aflição.
Despertamos em defesa, portamos escudos, mascaras,
e em severidade omitimos o riso,
e colocamos aspereza no olhar,
inibimos o que descortina em afago,
e disfarçamos a leveza do acalentar,
petrificamos em gelo...
quando o destino nos brinda com a chance de amar.
Fingimos atitudes, formatamos imagens aparentes, vazias,
e de tão individualistas... tornamo-nos clandestinos no existir,
calculista no interesse, frios no mentir.
E ficamos assim toda uma vida... dissimulando brandura,
teimamos em desaplaudir outros talentos,
reinventamos distancias, afastamos da ternura,
perdemos-nos ao meio de tanto sentimento.
Escondidos e em medos... e em solidão,
não extasiamos diante de uma melodia,
nem encantamos... aos versos de um poeta,
nem deliciamos ao toque, ao que acaricia,
perdemos a força da contemplação.
Impermeabilizamos a alma...
Sem fôlego agonizamos em madrugadas frias,
temos vergonha de desmanchar em risos, em alegria,
em fuga, em disparada correria, e em pavor,
fugimos do encontro, dos abraços,  
dos beijos,
dos desejos,
e do amor.

Ari Mota

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

APRENDIZ DE MIM


Desde menino olhei o mundo com olhos de descoberta,
fui seduzido pelo inusitado, e ávido por saber,
refugie-me nos livros, nas narrativas, nos contos,
li em demasia...
fantasiei-me em personagens,
devaneei em madrugadas frias.
Perdi-me em noites de insônia,
interpretei poetas e seus poemas, sofri com seus dilemas,
chorei com sua dor,
fui despedida, fui partida, virei silêncio,
sangrei com os espinhos, solucei com os vazios,
e depois... e bem depois, acerquei-me do amor.
Mas... tudo foi palavras em fantasia,
gracejo de escritor, paixão em utopia.
Quando a juventude deu de assalto nos meus dias,
aventurei-me em aclarar os pensadores,
abonei inteligências, aplaudi o erudito,
pesquisei... deliciei-me com o enciclopedista,
acreditei em alguns, duvidei, desconfiei,
uns deixaram verdades, outros mentiram,
e muitos esconderam seus horrores.
Quando o tempo apoderou-se dos meus sonhos,
travou rugas na minha face, e roubou-me a ilusão,
tudo que li ficou apenas como referência,
histórias mal contadas, mentiras invertidas,
verdades adormecidas, gritos de solidão.
Hoje...
Redijo o meu destino, componho minha história,
ando esculpindo nas estrelas minha louca trajetória,
e... acho-me a cada dia.
Ando... preparando o meu fim,
carrego somente minha alma,
em verdades...
sou aprendiz de mim.

Ari Mota

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

SUPORTAR A FELICIDADE

Andei colecionando pranto, e guardando choro,
e dores inexplicáveis,
e todas as vezes que gotas jorravam dos olhos,
e desciam face abaixo, as depositavam em cavidades da alma,
em abismos insondáveis,
as escondiam em pingos, amontoavam-nas liquefeitas em solidão,
e em soluço, sozinho, morria de medo...
em aflição.
E fui surrado pela dúvida, hesitei no esboço do riso,
no tracejo do abraço, verguei-me ao cansaço
afastei-me do lúdico, improvisei o olhar,
em fuga abandonei o desejo, a doçura de um beijo,
fugi do improviso,
assustei-me com a incerteza do ousar.
Mas... tudo passou... como uma ventania.
Sangrei os meus abismos, esvaziei os meus vazios,
arremessei ao vento os meus soluços,
joguei fora os meus prantos.
Atrevo a ter coragem para ser feliz e amar,
às vezes em madrugadas de loucura... agonizo no gargalhar,
rasgo-me em rir... às vezes de mim mesmo.
Vago em devaneios chutando ondas na beira do mar,
brinco com borboletas azuis,
chuvisco gracejo nas minhas rosas vermelhas,
danço com minha louca bailarina ao luar.
Ando por ai... pulando de uma nuvem a outra,
belisco algumas estrelas, embriago-me de orvalho,
e em ventura... salto para dentro de mim mesmo,
em busca de horizonte, e não mais de atalho,
ouso colecionar verdades.
Hoje... além da coragem...
preciso ter força para suportar a felicidade,
e seguir minha viagem,
como um sonhador,
por que... como se não bastasse,
o destino me fez suportar em delícia...
o amor.

Ari Mota

domingo, 2 de janeiro de 2011

ROBUSTEZ DE ALMA


Que os rituais sejam respeitados, os ciclos experimentados,
mas, que a transformação, o renascer, o reinventar-se,
o despertar... aconteça em todas as manhãs.
Celebrar por períodos é demasiadamente longo,
podemos deparar com o risco do fim, o encontro da ausência,
e às vezes pode não dar tempo de ser feliz.
Portando... cuide da fugacidade do tempo,
da efemeridade das horas que impera,
da débil existência do destino... que pode não suportar a espera,
nem a ociosidade do desejo, do indeciso,
e lhe roubar o existir, furtar o sonho, matar o riso.
Não espere ciclos, nem estações...
Aconteça hoje... ame, dance, beije, abrace, ria, caia na folia,
ouse ser você, ultrapasse os paradigmas de si mesmo,
rasgue estas normas impostas a sua própria alma,
desancore suas emoções, desamarre suas ilusões,
dispa-se dos medos, ria dos fracassos.
Mude, renasça... reinvente-se,
e que sua mudança não venha de outros quintais,
nem de outros olhares, nem de reflexos de outros destinos,
nem seja baseada em outros modelos, nem em outras tentativas.
Que a sua mudança possa vir de dentro...
de dentro de você mesmo,
e sai para o mundo acompanhado de verdades... da sua verdade.
E que venha carregada de gestos autênticos,
e de abraços sinceros,
E não queira mudar costumes, nem persuadir vontades,
nem convencer, nem dissimular aparências,
ou demolir liberdades.
Desperte em todas as manhãs, em robustez, em festa,
como um sonhador,
não espere os ciclos, estações,
viva como se hoje fosse sua última manifestação
de amor.

Ari Mota

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

PARA SEMPRE


Quando a juventude apossou-se dos meus sonhos,
ouvi uma musica vinda de longe, uma linda melodia,
e ela dizia... sussurrava impiedosamente,
atormentava o meu dia,
punha dúvida nas minhas emoções,
me sacudia,
seus versos em reversos fez de mim espera,
fez do meu querer silencio, da minha angustia...
quimera.
E a letra traiu a minha inocência... enganou o meu coração,
diz que o amor machuca,
fere e depois se transforma em solidão.
Receei sucumbir ao abandono, ficar ao desalento,
esfriar a carne nas madrugadas e ao vento.
Mas... um dia o destino, jogou no meu colo,
atirou nos meus braços, aderiu na minha pele,
e fez passar para dentro do meu peito em esplendor,
uma louca bailarina... algumas borboletas azuis,
e tudo isso chamou de: amor.
E assim tenho vivido... abandonei o medo de amar,
danço sempre em devaneio,
e salto profundo nas minhas vertigens,
porque além da procura, busco alucinadamente o que anseio.
Hoje sou mais desejo, mais delírio, aprendiz em desvairar.
Ando às vezes vasculhando a alma atrás de cicatrizes... de vestígio,
de algum estrago que o amor causou, e nada encontro, nada a olhar.
Presencio tão somente um refugio de mim mesmo,
onde preservo, guardo
nutro todo o amor
que cintila, brilha
por você...
e para sempre.

Ari Mota

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

UM PRESENTE PARA MIM


Andei distribuindo coisas, presenteando amigos e amores,
brindei com o amarelo esplêndido do ouro,
e o brilhante reluzente das pedras e flores.
Abracei em noites de festa e beijei em madrugadas de desejos,
celebrei ciclos, solenizei esperanças,
aplaudi a pirotecnia das noites em brilho,
brindei ao bater das taças a procura de ensejos.
Comemorei em cobiça e apetecido, e em busca... fui atrás da alegria,
e em euforia comovi em êxtase o mudar dos tempos.
Dancei valsa à meia noite, beberiquei vinho em fantasia.
E mesmo assim e embriagado... voltava sozinho.
Eram tempos... de vazios, de procura.
E presentear coisas, era como se fosse conquistar afeto e carinho.
E em busca... procurava a mim mesmo.
Mas, um dia... após uma ventania... que até chorei,
apercebi que as raízes da minha alma estavam expostas,
tive que escorá-las, ampará-las... e a replantei,
a cravei forte dentro do peito,
borrifei delicadeza e a umedeci com gotas de sutileza.
E desde então, passei a presentear a mim... todos os sentimentos.
Renasço em todas as manhãs, em todos os olhares,
não vivo de ciclos... vivo de hoje... somente do agora.
E todos os dias... amanheço em festa, em contentamento,
doei a mim mesmo, coragem para ser feliz.
E o destino, como se não bastasse, também me presenteou:
sempre colho rosas vermelhas, por onde vou,
sempre borboletas azuis cantam para mim,
e uma louca bailarina... baila comigo,
e em juras disse-me, que é por amor,
e até o fim.

Ari Mota

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

REPAGINAR O FIM


Regressei em revisão às paginas da minha história,
e percebi que não houve extravio e todas estavam lá.
Bem que... umas já amareladas tinham resto de solidão,
outras vazias... estampavam em suplica, sofreguidão.
Encontrei, algumas com resíduo de incerteza,
ainda umedecida de lagrimas que escaparam da alma,
mas regaram meus dias, e tudo se fez beleza.
E fui folheando uma a uma.
As paginas da meninice... continham inocência,
tolices, mais eram repletas de sonhos,
despertava a descoberta, provocava êxtase onde havia dúvida,
desmentia a volta, porque acreditava que tudo seria partida,
incitava a insolência, e tudo era atrevimento, de forma desmedida.
Tempos de insensatez, travessura, descuido e aventura.
E fugazes foram os anos... cresci, tive que fazer minhas escolhas,
amadurecer as pressas, correr contra as intempéries, os temporais,
adaptar-me ao rigor da existência, da indelicadeza do cotidiano,
da rudeza dos homens, da distancia dos desiguais.
E as paginas foram sendo viradas, relembradas.
Uma... de tão intensa, que doeu o peito, encontrei os ausentes,
verteu soluços do que passou, saudade dos que não estão presentes.
Uma até... roubou-me o riso, arrancou-me a graça,
meus desacertos, meus erros, meus fracassos,
e consegui rir de mim mesmo... porque tudo passa.
Regressei em retrospectiva para repaginar o meu existir,
quis reparar alguns enganos,
restaurar abraços esquecidos,
refazer caminhos que não terminei
recuperar olhares perdidos.
Quis repaginar o meu existir, e não foi possível,
o destino proibiu alterar a minha história, a deixou inacessível.
Hoje... só posso escrever o meu fim, com todo o meu fulgor,
com toda a minha loucura,
meus devaneios,
meu amor.

Ari Mota

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

INSPIRAÇÃO

Já vivi outras tantas vidas,
mas o destino as lançou no esquecimento,
não me lembro de nenhuma delas... fugiu-me da lembrança.
Não consegui... inspiração para esculpi-las nas estrelas,
nem entalhá-las no horizonte, nem estampá-las ao vento.
Foi me permitido apenas a emoção de viver esta que estou atravessando,
e em segredo, em sussurros, disse-me que tudo seria efêmero,
e que a fugacidade do existir iria interromper o riso,
cessar os desejos, calar a voz, suspender os beijos,
e tudo findaria inesperadamente, e tudo seria impreciso.
E assim... apenas com a emoção da descoberta, e o desejo de querer,
insisto... teimo em ser feliz, faço do instante incerteza,
embriago-me da duvida, e faço dela beleza,
destemido brinco com as vicissitudes, com o acaso,
sou mais hoje... que amanhã, sou mais o agora,
sou mais silencio, sou mais olhar, sou muito mais o que extravaso.
Já vivi outras tantas vidas... e sei como são tênues as horas, frágil o tempo,
não me permito o desassossego da ausência, nem a inquietação do vazio.
E em resiliência ofusco a negrura do medo, a melancolia da solidão,
ilumino minha alma todas as manhãs, em inocente inspiração.
Perpetuo minha essência na arte de construir versos, de fazer poesia,
eternizo-me em palavras, em sensações... em magia,
refugio-me em noites frias dentro de minha própria alma,
inspiro-me... em sempre ter coragem para ser feliz, sem provocar dor.
Já vivi outras tantas vidas... talvez em conflitos, talvez em imensa calma,
mas esta... decidi vivê-la melhor...
vivê-la por amor.

Ari Mota

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

CARINHO

Hoje envelhecido...
percebi que a minha vida não me foi um imprevisto,
nem o destino um acaso.
Embora sendo o meu existir uma súbita viagem,
um segredo, um desconfiar e às vezes uma dúvida,
em miragem,
tive tempo de sondar minhas emoções, e aprender com elas.
Quando jovem me faltou carinho, afago, abraços,
e na descoberta, e como aprendiz, e antes da solidão,
propus oferecer os meus chamegos, rendi-me a brandura
prestei em caricias meus beijos, e a pele em ternura.
Fiz do toque minha primeira forma de carinho,
e em cortesia afaguei a face, sequei a lagrima,
não deixei ninguém sozinho.
Usei minhas mãos para acarinhar meus amores,
os acalentei em meu peito, e lhes ofereci flores,
e nada foi ilusão.
O tempo passou... o carinho me fugiu das mãos,
mas, os perpetuei no olhar.
Passei a contemplar tudo com mais leveza,
encaro as perdas com mais resiliência,
e antes de tudo... faço do meu existir mais beleza.
O carinho que ainda tenho na pele,
o tenho mais intenso no que encaro, no que vejo,
sou mais meiguice, sou mais desejo.
Hoje...
Todo o meu carinho alojou-se dentro da minha alma,
Inda... abraço, todos os meus amores.
Inda... contemplo tudo com ternura.
Mas, hoje... o carinho é para mim mesmo,
porque eu me amo
em loucura.

Ari Mota

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

NÃO EMBRUTECER A ALMA


Não esquivei dos caminhos, nem procurei atalhos,
minha trajetória foi em sol de meio-dia.
Suportei o desgaste do improvável, o medo da incerteza,
o descaminho da duvida, e o pavor do vazio.
E tudo foi crescimento... dilatava-me no silêncio,
difundia-me nos refúgios, fui mais recolhimento,
que revelação.
E sem os aplausos... fui quietude... contemplação.
Tornei-me aprendiz de mim mesmo...
Aprendi que às vezes não dá tempo para retardar os adeuses,
e de nada adiantaria colocar rosas nas despedidas,
elas são energias na vida, e quase nada valem nas partidas.
Aprendi não embrutar à alma antes do amor,
e que... não poderia paralisar o segundo, nem comprar o tempo,
para abreviar a dor.
E se um dia tiver que ir embora... em vez de ausência...
deixe saudades.
E que o afeto possa ser mais forte que o orgulho,
e que não fique preso ao ontem,
nem refém de lagrimas já vertidas da alma,
e que eu possa em vez de oferecer desequilíbrio,
distribua calma.
E que o destino me permita repartir todos os sentimentos...
menos a solidão.
E que no palco da vida possa ensaiar todas as emoções,
e apresentá-las em verdades, sem ilusões.
Aprendi... aprimorar o olhar...
e não embrutecer a alma.
Hoje ando colhendo flores,
espiando as borboletas, reconhecendo rosas,
cuidando dos meus amores.
Virei poeta...

Ari  Mota

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

CALMARIA


Vislumbrei achar que tudo seria fácil, calmaria,
e que brisas, vindas do sul trouxessem aromas de alfazema,
e as ventanias recendessem sândalos em alegria.
Devaneei em espera, como se a perspectiva fosse iludir a vida,
e a aparência em disfarce fosse uma mascara pegada a alma.
Fingi alegria, simulei emoção, dissimulei afeto em alucinação.
Fantasiei-me de outros, e não de mim mesmo, fui ilusão.
Enganei-me, e em desacertos cometi algumas tolices,
mais tudo coisas da meninice...
E tudo passou como uma tempestade, resiliente que sou,
catei todos os cacos, recolhi todos os fragmentos,
colei os pedaços, recompus os sentimentos,
lavei a alma, arranquei do peito toda a dor,
abandonei os discursos, fiz do olhar franqueza,
do abraço beleza, da declaração um ato sem temor.
Fiz silêncio onde tinha ausência, e me encontrei.
E hoje envelheci... sem cair em desuso,
fiquei seletivo... às vezes ando só, e comigo mesmo, recluso,
sem estar em solidão, existo em calmaria, em mansidão.
Falo comigo, em noites de isolamento, me chamo,
grito o meu nome, berro para dentro a procura de eco,
e para mim, sempre é todo dia, e nunca estou sozinho,
nem quando me passam e me deixam a beira do caminho.
Vislumbrei achar que seria fácil... e tudo vivi, e tudo aconteceu.
Hoje é o meu tempo de calmaria, nada ficou, nada se perdeu.
Quando me pedem coisas, corro ao jardim e ofereço flores,
quando indagam meus afetos,
suspeitam dos meus beijos,
duvidam dos meus abraços... olho com ternura...
para todos os meus amores.
Vislumbrei redimensionar o meu existir em calmaria,
e o fiz... com todo o esplendor,
e hoje tenho coragem de viver em alegria,
e amor.

Ari Mota

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

UM ANJO CHAMADO SOLIDÃO


Todas as vezes que a solidão tomou meu braço,
reclinou sua face no meu ombro, querendo colo,
reclamando chamego, e querendo minha companhia,
gritei ao vento...
o mundo estava ocupado, as pessoas apressadas,
absolutamente só, transparente, ninguém me ouviu.
Resiliente que sou, fiz dela companheira,
segui seus passos, e muitas das vezes o seu caminho,
partilhei estradas, horizontes, segredos,
e ela vagueou ao meu lado como uma sombra,
importunou-me como uma aparição.
Acordamos... um não ingerir no existir do outro.
E assim, ela vive ao meu lado,
não esvazia minha alma, nem esgota minha essência,
não me traz desassossego, nem cerceia minhas vontades,
não me inquieta, nem me provoca medo,
não me perturba, nem eu a ela.
Trocamos sempre olhares de respeito, nunca de desdém,
finjo que ela não existe, e ela também.
Na verdade dispo-me da solidão em dias de loucura,
mas, visto-a em manhãs de lucidez.
Acostumei tanto com sua presença, que a chamo de anjo,
a transformei em meu silêncio...
em quietude,
na minha calma.
E antes que a solidão rebele-se em dor,
finjo que ela é um anjo,
e amor.

Ari Mota

sábado, 27 de novembro de 2010

A ALMA EM GUERRA


O mundo talvez esteja em guerra, e homens em conflitos,
sua rua em desordem, sua cidade em chamas,  
calçadas vazias... praças em solidão,
vidas aos gritos.
Tudo é desarranjo, desconcerto, imensa confusão.
Os olhos em desespero... buscam ternura, vagam em desalinho,
procurando abrigo, respostas, procurando um caminho,
em sofreguidão.
São dias de tormenta, vendavais, noites em desalento,
que tudo passa, muda e atravessa o tempo.
São instrumentos de evolução, transformam o humano,
aperfeiçoa corações,
em sofrimento.
Mas não é ainda a pior das guerras:
a que aniquila o sonho, obstrui os vôos, impede os saltos.
Porque a pior delas... esconde, disfarça em medos,
dentro de sua própria alma.
E isto é guerra...
E é preciso que crie uma estratégia para invasão,
planeje os combates, ataque em noites de silêncio,
assalte em madrugadas de ocupação,
e que tudo seja para vencer os conflitos existenciais,
os inimigos utópicos, os medos imaginários.
Que possa invadir sua própria alma, e aniquilar os confrontos pequenos.
Que resista, persevere, tenha resiliência aos reveses do destino,
e não permita guerras íntimas, desconforto de alma,
ausência de coragem, e não tenha medo de ser feliz.
E quando olhar o mundo e deparar com os seus horrores,
não atemorize, ofereça flores.
Prepare sua alma para defrontar com a intolerância,
com a indiferença, a arrogância,
se um dia, em companhia, chegar a dor...
possa oferecer
amor.

Ari Mota

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

MEDITAÇÃO


Tive períodos de impaciência,
provoquei celeridade no tempo,
quis rapidez, tentei urgenciar a minha vida.
Na percepção a defini efêmera, no existir... de curta duração.
E quis tudo as pressas, tudo ao mesmo tempo, tudo na emoção.
Quando a juventude fez-me companhia, tudo foi transitório,
pareceu-me breve o riso, fugaz a brandura, passageiro o amor.
E assim... velozes foram os beijos, os toques, finito os desejos.
Houve momentos que fui lacônico, os demais só discursei,
e de tão repentino, de tão superficial, fiquei comum, trivial.
Tive períodos de inquietação, provoquei desespero nas horas,
quis adiantar os amanheceres, antecipar os tremores,
sofrer antes da dor, abandonar os amores.
Mas, tudo passou... sobrevivi ao rigor da pressa,
a ligeireza da marcha, as intempéries do caminho,
e na descoberta e sozinho,
encontrei o tempo da delicadeza,
fiz de mim reflexão.
Garimpo nas profundezas da alma... essência.
Nas entranhas da carne, argumentos.
Cavo profundamente e de forma visceral, minhas verdades.
Embrenho para dentro de mim, atrás dos meus medos,
negocio sua saída, os arranco um a um, como um guerreiro.
Hoje... envelhecido, não tenho mais pressa,
deixei de ser corredeira para transformar em lago profundo.
E sem segredo... medito desmedidamente,
todos os dias, em busca...
de uma consciência
que continue abastecendo 
minha alma
de amor.

Ari Mota

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

HOJE ESTOU MELHOR QUE ONTEM


Quando volto o olhar para o passado,
encontro-me em pedra bruta, rústico,
tempos de ausência... falta de raciocínio, coerência,
estradas tomadas de túneis, curvas infindáveis,
época... das dúvidas, das incertezas, da falta de caminho,
procurava um acesso à alma, um despertar, um desprender.
Era bravio nas emoções, tímido no afeto, severo no soluço,
áspero no abraço, rude nas lagrimas, ríspido nas respostas,
exigente nas coisas,
sentenciava como relâmpagos em noites de tempestades,
sem fluência... caminhava sozinho.
E percorri todas as estradas que o destino me concedeu,
andei ao léu, vaguei pelos sonhos, pelas veredas utópicas,
dei ensejo às vontades, aos desejos e nada aconteceu.
Busquei minha verdade em outros braços, em outras narrativas,
quis para mim o existir dos outros,
em retrospectivas,
comparei... confrontei... quis tudo igual, em simetria.
Na descoberta... vi que nada era possível, tudo era utopia,
e antes que a solidão me fizesse companhia,
caminhei em busca do fulgor da quietação, do sossego da alma,
do silêncio que me acalma,
de mim mesmo.
E desde então, no mais veemente encontro,
deparo-me...
corrigindo-me, acertando-me, sucessivamente.
Melhoro todos os dias, prospero a cada amanhecer.
Desprendo dos medos, tenho todas as emoções,
o soluço e as lagrimas já não são mais segredos.
Abraço... em demasia, faço silencio nas perguntas,
desapego... das coisas, já não julgo em teimosia.
Diferencio-me em cada principiar de dia,
faço tudo ficar melhor,
faço tudo ser
amor.

Ari Mota

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O ÚLTIMO DIA DO AMOR

Quando jovem... amei em pedaços,
em partes,
em gotas,
em momentos...
Planeei ser eterno, constante,
e em tempo nenhum atingir o fim,
tive pressa, realcei o disfarce, o instante,
e desmedido quis todas as emoções só pra mim.
Tudo me tocou ao ritmo, e ao descompasso da fugacidade,
desviei-me do aconchego, afastei-me dos abraços,
beijei diversas bocas, dormi em varias camas,
acomodei em colos inertes, em almas estranhas.
Beberiquei gotas de fingimentos,
lagrimas dissimuladas de gratidão.
Tive momentos prazerosos, amores de curta duração.
E tudo foi pouco...
faltou-me a cumplicidade com tempo, com o amor.
Mas o destino, em desatino e magia, eterna loucura.
Colocou no palco da minha vida, uma louca bailarina,
que em fantasia, se faz mulher, se faz menina,
e com toda a avidez de afeto, com toda a sinceridade em ternura,
transforma tudo em contentamento, a todo o momento,
com todo o esplendor.
Hoje... envelhecido,
amo por inteiro,
ao todo,
com toda a intensidade, e tudo.
Tenho tido êxito em lograr o destino,
o iludo todos os dias, o seduzo todas as noites,
“ele acredita que meu amor terminará somente amanhã”
E assim sigo minha trilha:
Amo somente hoje, desmedidamente.
Como se amanhã... fosse o último dia
do amor.

Ari Mota

terça-feira, 16 de novembro de 2010

LICENÇAS E DESCULPAS


Quando a voracidade da juventude fez-me companhia,
atropelei o meu próprio silêncio.
Apressei-me no grito, no gesto, fiz do olhar atrevimento,
afoiteza na conquista, arrojo na descoberta.
Aventurei-me no inusitado, encorpei vaidade,
quis ser mais veloz que o vento.
Quando a inconstância balizou a fugacidade do risco,
e a ousadia ritmou o percorrer, fiz do manifesto um atacar,
demasiadamente... sangrei almas, debilitei sonhos,
usei da franqueza, quando podia amenizar a critica,
renunciei a paradigmas, achei-me singular.
E o existir cobrou-me postura, atitude de alma,
o destino pediu-me que amenizasse o julgo, o supor.
Evoluísse na compreensão, habilitasse na inteligência,
tivesse... mais altura, mais volume, mais intensidade,
quis de mim amor.
E que pedisse mais licença que desculpas.
Quando a serenidade da velhice fez morada em minha alma,
fez-se calma, quietação no andar,
fiz do silêncio uma arma, da contemplação um costume.
Hoje... ao por do sol... peço licença à vida, para continuar,
peço licença à partida... para mais um pouco ficar.
Hoje, deixei em desamparo as desculpas, e sem culpa,
peço licença ao existir... e que me suporte mais um pouco,
com minhas verdades...
peço licença a vida, para amar mais um tanto.
E que eu possa ainda oferecer flores,
em devaneios,
em teimosia,
aos meus
amores.


Ari Mota

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

INVENTARIANDO A VIDA


Quis o destino, um inventário da minha vida.
E em retrospectiva regressei ao passado,
fui perambular em devaneios aos trechos que atravessei,
nas veredas que me perdi, no imprevisto do acaso,
no improviso do gesto e nas circunstâncias que me achei.
Voltei...
Encontrei escondido dentro da alma, três grandes momentos.
Minha meninice, sonho infantil.  
Minha inebriante juventude, mais que dúvida... inquietude.
Minha reta final, rugas na alma, calma... quietude.
voltei...
Fui catalogar coisas... e vi que quase nada tinha.
Tive que listar em metáforas outras riquezas,
deparei com emoções, outros sentimentos, belezas.
Da infância, que ainda na lembrança, pouco listei:
um pião de corda, um estilingue, uma bola de gude.
Da juventude, que ainda resta-me alguma atitude:
sonhos em disparate, desatino nos combates, e vigor.
Da velhice, que me é o tempo da descoberta:
da lucidez que desperta, do luzir de um pensador.
Fui inventariar a minha vida, catalogar as minhas coisas,
e de tão pouco, não coube em uma linha,
de tão ínfimo, não tive coragem de imprimir,
de tão pouco, de quase nada, nada posso dividir.
Fui inventariar a minha vida, catalogar o meu existir,
de tão belo, de tamanha primazia, que em risos, em ufania,
descobri que tinha todas as riquezas, preciosidades em afetos,
cataloguei intensa convivência em alegria.                                             
Hoje... depois que o tempo redefiniu a minha alma,
pude inventariar a minha vida, e tudo é deslumbramento,
a transformei em esplendor...
não consegui ter coisas... nada tenho...
só amor.

Ari Mota