segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

QUISERA










E se houvesse um lugar...
que não fosse tão longe assim.
Desses... que é só virar a curva.
Desses... que é só descer a rua,
e encontrar leveza.
 
E se houvesse um tempo...
que não demorasse tanto.
Desses... revestidos de recomeços.
Desses... que se parecem ventania,
transvestidos de delicadeza.
 
E se houvessem humanos melhores,
que não fossem tão hostis.
Esses... com coragem de dizer “eu te amo.”
Esses... que ainda cuidam da alma.
Esses... que ainda sonham sem ilusão.
 
E se houvessem aqueles...
que não tropeçassem em seus próprios vazios,
e soubessem enfrentar a si mesmo,
amenizando o seu desespero,
sem alimentar a sua solidão.
 
E se houvessem os que não tivessem tanta certeza,
Esses... que não morrem por dentro.
Esses... que se reinventam.
Esses... que vão se construindo vida afora,
e manifestam gratidão.
 
Como estou entardecendo...
e já não há duvidas que caibam em mim.
Quisera eu... por um descuido...
por um instante... “estar” nesse lugar e tempo,
e chama-lo de meu,
e leva-la para passear com o meu silêncio,
conhecer do meu amor,
da minha loucura,
sem se importar com o fim.
 
Ari Mota

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

A SENSATEZ DO TEMPO


Que sensatez foi-me... o tempo,
olha-me inofensivo e com ternura.
Às vezes me remete,
naquelas ruas desvestidas que vivi,
onde fluíam momentos invisíveis,
e ensejos de abandono.
Mas, foi lá... que cresci,
e hoje envelhecido,
sei que crescia para dentro e não sabia.
Foi lá... que distraído,
encontrei a minha resiliência,
o meu amor.
E nunca sofri de solidão,
nem de lonjura.
 
Que sensatez foi-me... o tempo,
rememora tudo que passei.
Ocupei-me, tanto em resistir,
que nem me lembro... se sofri.
E hoje o tempo... 
olha-me... como se eu fora um menino,
sussurra-me noite adentro,
como uma aragem descomprometida,
e confessa-me que sobrevivi aos vazios.
É que todas às vezes,
que eles atreveram-se a entrar,
invadir a minha alma...
encontrou despertando,
todos os sonhos que guardei.
 
Que sensatez foi-me... o tempo,
vivi tão intensamente,
que nenhuma espera me foi infinita,
tudo foi uma apoteose sem igual,
uma magia descabida,
e efêmero foi... existir.
Sacie-me de amores,
e envelheci amando,
carregando leveza, lucidez,
e silêncio.
Como, ainda tenho sonhos...
ando seduzindo o tempo:
- a estender o dia de partir.
 
Ari Mota


terça-feira, 13 de dezembro de 2022

OS MEUS AMORES


 









Eu de mim, nada sei...
ainda assim, continuo sendo eu,
nunca procurei ser outro,
fiz tudo o que coube em mim,
e a tudo amei.
E quando tudo for solidão...
nada mais, me será relevante,
existir me foi um assombro,
fui resiliente, fui silêncio,
convivi com quatro dos melhores humanos,
que conheci...
e tudo me foi um encanto... pura emoção.
 
Eu de mim, nada sei,
ainda assim, continuo sendo eu,
não aprendi a ser mais ninguém,
vivi todos os meus temores,
tive fome de estrada,
de destino,
sofri de vazios,
e os preenchi com os meus amores.
E quando tudo for tempestade,
nada mais, me será assustador,
nem relâmpagos, nem ventania,
já não terei mais sentimentos inferiores,
restará contemplar o que vivi,
por amor...
restará transcrever em poesia:
- o que ficou como saudade.
 
Eu de mim, nada sei...
ainda assim, continuarei sendo eu,
e nem quero me aprofundar tanto,
nem descobrir tantas vidas que vivi,
essa me foi o bastante,
foi nessa que eu... os conheci.
 
Ari Mota




domingo, 23 de outubro de 2022

APLAUSOS


 








Como foi bom não saberem...
onde guardastes o sonho,
escondestes o medo,
secastes o pranto.
 
Como foi bom não saberem...
que se alimentou da própria substância,
que se valeu da inconexão com o desistir,
e continuar em silêncio foi seu maior encanto.
 
E que ao sonhar...
não encontrou paradigmas que não estivesse em ti,
tudo estava dentro,
e tudo foi um exagero, e a quase tudo renunciou.
 
Como foi bom não saberem...
da solidão que lhe fez companhia,
e das vezes que a quietude escondeu o grito,
e os desertos que atravessou.
 
Mas... se só, depois de 40 anos,
chegaram os primeiros aplausos,
mesmo assim, veja o tamanho,
o quanto imenso foi sua obstinação.
 
E o que valeu foi o duelo com si mesmo,
a exuberante batalha com a alma,
em lidar com as incertezas,
e das vezes que as engoliu em noites de solidão.
 
Como foi bom não saberem...
que tudo que lhe obstou o caminho,
desmistificou o perigo de viver, o fez voar,
o fez se olhar, se aplaudir.
 
Como foi bom não saberem...
que vagarosamente estava construindo pontes,
crescendo para dentro,
tornando-se maior, uma referência, antes de partir.
 
Que bom que ninguém soube...
que o destino... sem você saber, fez como o mar:
depositou na sua praia, aplausos que são seus,
veio lhe restituir.
 
Ari Mota

domingo, 11 de setembro de 2022

QUANDO FOI QUE TUDO MUDOU


 








Vez por outra...
A razão vem sondar a minha alma,
e com sutileza me indaga:
Quando foi que tudo mudou?
 
E às vezes me pergunto... quando?
Quando a cura emergiu de dentro,
como esse processo irrompeu em mim,
e aqui... aportou.
 
Talvez...
Foi quando me vi sozinho...
e tive que me fazer companhia,
e desnudei-me,
exibindo a minha fragilidade e força,
e deparei com esse que hoje sou.
Talvez...
Foi quando tive que me olhar...
sem estar no espelho,
e atravessar-me como se fora transparente,
e passei a me tratar com mais leveza.
Talvez...
Foi quando tive que me encontrar...
sem nunca estar perdido,
e tive que dimensionar a estrada,
e saber aonde chegar.
Talvez...
Quando tive que me amar... quando me faltou amor.
Quando tive que voar... quando acabou o caminho.
Quando tive que me reencontrar... recompor.
Talvez...
Foi quando deparei com as dores,
e tive que ter paciência com as minhas emoções,
que descem vez por outra dos olhos:
- Só de pensar em partir,
e não saber como despedir dos meus amores.
 
Mas, foi mesmo... quando tive que elevar-me,
e deparei com um universo em mim,
e tive que lidar com essa imensidão,
descobrir este que sou.
E saiba, pode até parecer que tudo foi efêmero,
um relâmpago ensandecido,
uma tempestade de verão,
mas, só eu sei o quanto demorou.
 
Mas... quando tudo mudou...foi:
Quando me amei.
 
Ari Mota



domingo, 31 de julho de 2022

GRATIDÃO



 







Envelhecer foi-me paradoxal...
em nada encontrei lógica.
Para crescer...
foi preciso esvaziar a alma.
Para enriquecer...
não foi preciso amealhar coisas,
e fiquei rico sem saber,
quase me sufoquei com tanta riqueza.
E ela veio de dentro,
estava escondida na minha alma,
e foi colossal.
 
Que disparate foi envelhecer...
eu que tinha certeza de tudo,
hoje nada sei.
Eu que estava aprisionado com a insensatez,
hoje ando esbarrando com a lucidez.
Que privilegio foi chegar até aqui,
foi tanta vida, tanta emoção,
é que... não me permitiram conhecer a solidão,
e tudo amei.
 
O tempo foi-me um desatino,
diversas vezes... pedi... vá mais devagar.
É que convivo com gente destemida,
que me permitem estar onde estou,
e entendem que eu... não iria brilhar em outro lugar,
senão com eles...e aqui.
E esses são... os três melhores humanos que conheci,
que olham nos meus olhos,
falam sem dizer uma palavra... que me ama,
e levantaram-me todas as vezes que caí.
 
O tempo... só ele... mais ninguém,
desconstruiu a minha pequenez,
fez-me silêncio... contemplação,
colocou leveza na minha alma,
ensinou-me a ter pela vida,
e por tudo que vivi:
GRATIDÃO.
 
Ari Mota.


terça-feira, 28 de junho de 2022

NUNCA DESEMBARQUE DE SI MESMO


 








Que... esta dinâmica de sempre recomeçar,
nunca acabe.
E saiba...
quem perde o caminho... já estava indo,
Já estava... enfrentando os seus próprios medos,
Já estava... afrontando os seus fantasmas.
E... é só refazer a trajetória,
e não há mais nada a fazer... senão ir,
viver a sua história.
 
Que... sua coragem seja revestida de metáforas,
reafirmando a força que te equilibra.
Que... nessas horas de tempestades,
em que a vida chega a lhe sacudir,
não o amedronte com as incertezas,
nem que o caminho o fizer dançar com a solidão.
Que... você possa abrandar o desespero,
e silenciar a aflição.
 
Mas...
Nunca desembarque de si mesmo,
não te abandones.
Não deixe suspenso o seu destino... Vá.
Podes até parar e se orientar para os voos,
mas, não permita que batam as suas asas.
Podes até pedir auxílio nas estradas,
mas, não permita que impeçam os seus passos,
nem altere suas coordenadas.
 
Nunca desembarque dos seus sonhos,
arraste-o... vida afora.
Obstine-se mais um tanto,
teime como se fora a primeira vez,
resista como se não tive outra escolha.
Remova da alma, toda a sua sinergia,
e tenha tempo para amar e ser feliz,
e que essa seja a ordem da ousadia.
 
Nunca desembarque de si mesmo,
desperte o que habita em ti.
Caminhe para dentro:
Há vazios a ser preenchidos,
há energias sem utilidades,
há desertos intactos, e sem divisória.
E, é lá... que existe uma força maior, incomum,
que vai embelezar a sua trajetória.
 
 ARI MOTA



terça-feira, 24 de maio de 2022

AS DORES QUE SENTI


 









Quando doeu-me... viver,
e me senti... à deriva,
você estava ali ao meu lado,
como um alívio ao meu desespero,
como uma porção lenitiva,
sem ninguém saber.
 
Quando doeu-me... existir,
e a vida me bateu,
você já estava dentro de mim,
como uma guardiã de outras vidas,
provocando o meu despertar,
atiçando o meu reagir.
 
Quando doeu-me... a solidão,
e a ausência quase me fez companhia,
já existíamos um para o outro,
e visceralmente éramos um só,
você já me fazia reviver por dentro,
já descontruía a minha aflição.
 
Quando doeu-me... o tempo da velhice,
e a minha pele amarrotou,
você compassiva... lembrava-me da lucidez,
do fascínio que tive em transpor os limites,
e a sedução em conseguir tudo em silêncio,
e me pedia que não me desiludisse.
 
Quando doeu-me... o medo,
e fiquei sozinho... sem estrada,
você foi embora comigo... sem destino,
ultrapassamos as divisas dos nossos desertos.
E você me... permitiu voar para dentro,
em busca do nosso segredo.
 
Quando tudo doeu...
Só o seu amor acalentou-me a alma.
E existir ao seu lado, foi-me... um espetáculo,
você atenuou todas as dores que senti:
- e espero você... em outras vidas,
você foi o meu refúgio... foi maior que eu.
 
Ari Mota


sábado, 30 de abril de 2022

O ÚLTIMO SENTIMENTO










Se... faltou-lhe na emoção escondida,
e no último dos sentimentos,
o abraço que você nunca deu.
Se... faltou-lhe no silêncio que arrastas,
e na frieza das palavras,
que você nunca disse:
estou aqui “esse sou eu”.
 
Cuidado... se em descuido,
perguntarem-lhe,
do riso e da leveza,
da vida que não lhe condiz,
e inadvertido dizer:
doeu-me a alma,
faltou-me... ser feliz.
 
Atente... para  a fugacidade do destino,
e o que carregas agarrado à pele,
- pode ser tão somente uma ânsia descabida.
Cuidado se esqueceu de enamorar a si mesmo,
e autômato colecionou vazios,
empilhou ressentimentos,
embruteceu o olhar, a vida.
 
E distraído permitiu escapar...
a última das emoções,
essa que encanta, extasia,
completa todos os nadas,
preenche todos os silêncios,
desconstrói qualquer solitude,
estremece... arrepia.
 
Que existir não lhe doa,
que ao menos seja um espetáculo,
um ritual lúdico e não um desconforto,
que pequenas partidas virem saudades,
e chegadas... encantamento apoteótico,
e um olhe para o outro com amor,
e sejam assim... até o fim... um porto.
 
Que para os tormentos, tenha lenitivos,
e saiba reger com maestria a solidão.
Para a aridez da alma... o mais puro bálsamo,
e saiba transpor os seus desertos,
em busca do encontro, da entrega.
Que em seu último sentimento,
esse que habita em ti, ainda possa dizer:
Eu te amo.
 
Ari Mota.


terça-feira, 22 de março de 2022

EQUALIZE










Que durante as tempestades,
tente desvendar os paradoxos,
que incomodam a tua alma.
 
Talvez o que está aí dentro...
não seja solidão,
e o que você chama de vazio...
seja apenas a tua ausência:
- excessos de outros,
e escassez de si mesmo.
 
E nesta busca você perceba...
que sonhos escapam com tempo,
e por onde andou... você não mais cabia,
seu brilho ofuscou outros olhares,
e tentaram tolher a plenitude do seu voo,
e tudo isso o fez... seguir a esmo.
 
Que depois da tempestade...
Possa,
equalizar a tua loucura,
com a tua lucidez.
Viva como se tudo fosse hoje,
sem precisar ser... um outro,
sem precisar sair em sua própria procura.
 
Gaste todas as vidas agora,
exista para descortinar-se,
ame-se... sem se consumir,
dentro deste silencio que te devora.
 
Seja intenso num só dia,
transpasse-o com leveza,
seja mansidão invés de ventania,
e silencie em delicadeza.
 
Sofra de amor, mas nunca de lonjura,
e que ele resida na tua alma,
pulse livre, e exale entrega,
e que enquanto durar... seja por ternura.
 
E se um dia a tempestade voltar...
Vá ao fundo de si mesmo,
equalize as respostas,
reconstrua-se sem medo de amar.
 
Equalize o medo e a coragem,
se tiver medo...
que seja, o de não encontrar a coragem em ti.
 
Ari Mota


quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

HELENA











Oi!!!...
Sou eu...
Demorei só um pouquinho.
 
De onde vim... falaram tanto de você,
que... tive que me preparar para te reconhecer.
Minha alma ínfima tinha que crescer,
para lidar com a sua imensidão,
o seu grito transcendeu as estrelas me chamando,
eu sei...
Há boatos no universo sobre o nosso amor,
disseram-me que estivemos juntas em outras vidas,
já fomos fadas encantadas,
bruxas em noites de solidão,
por isso voltei...
 
Aí... uns anjos atrevidos,
colocaram-me nesse ventre.
Sou um presente angelical,
um pedacinho de ternura,
um encantamento.
Verdade é que sou você por inteira,
sou o que tens de visceral.
 
Estive em cada desejo seu,
sou a sua teimosia.
Já fiz parte do seu desespero,
sei que cada lagrima caiu para dentro,
mas, hoje lhe ofereço a minha calma,
saiba, estive ao seu lado, vivi também o seu silêncio,
eu só estava dormindo no lado oculto da sua alma.
Mas, cheguei para ser a sua poesia.
 
Oi!!! Mamãe!
Sabes quem sou?...sou:
- Helena.
Vim para um estágio de vida:
- aprender a ser a mulher que você,
se tornou.

-------------------------------
Helena é minha neta,
enfeitiçou o meu espirito.
Ela, ainda não se apresentou,
para o grande show da vida,
mas, já me fez infinito.
 
Ari Mota 


segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

UM LUGAR SAGRADO


 









Viver... é esse disparate,
essa insensatez indescritível,
esse absurdo.
De repente, sem se perceber...
saciamo-nos de inutilidades,
absorvemos a vida dos outros,
e permitimos sem desvelo,
invadirem nossa alma:
- Esse lugar sagrado,
sem qualquer embate.
 
E chegam assim... em aflição,
despejam suas dúvidas,
sua agonia, seu cinismo,
dissimulam a sua vileza,
entopem-nos com os seus vazios...
sua miséria espiritual,
sua sofreguidão.
 
Prudente é não arrastar esse desassossego,
para não tornar-se vitima de si mesmo,
e dele ficar refém.
É preciso resguardar esse refúgio:
- para suportar a solidão dos outros,
e a solidão de si.
Filtre quem ficará ao seu lado,
e quem permanecerá lá dentro,
não vislumbre o seu amanhã... sem ninguém.
 
A alma tem que ser intocável.
E quem nela transitar:
Tem que estar descalço,
e ter leveza no andar.
Tem que compreender a sua loucura,
e seus temporais.
Ouvir o seu silêncio,
e tolerar os seus rituais.
Tem que aceitar a sua imunidade,
venerar sua alma... como um templo em delicadeza,
e nela nada entulhar, nem levar,
apenas... vasculhar a sua profundeza.
 
Esse é o seu lugar sagrado,
e guardarás nele, o seu segredo:
- a dimensão da sua coragem,
e o tamanho do seu medo.
Só deixe entrar quem chegue com brandura,
e seja cúmplice de seus sonhos, da sua dor,
e na hora do cansaço... conceda-lhe o braço,
e admire a sutileza como você manifesta o seu amor.
Ari Mota


segunda-feira, 22 de novembro de 2021

REGRESSE EM TI










Podes até roubar um segundo do tempo,
chamá-lo de seu.
Mas, não demores muito,
se nele não tiver encanto.
Podes até achar que ele é apenas um instante,
efêmero como um vendaval.
Mas, não acredites em sua intensidade,
se ele não carregar delicadeza.
Assim... é o existir,
às vezes tem o tamanho de um “agora”,
a beleza de um relâmpago,
e tudo pode mudar...
- saiba o que fazer com o que já viveu.
 
Atenha aos ventos ocasionais,
esses que chegam em silêncio, e a esmo,
esses brandos, suaves e inocentes,
que às vezes arrastam uma neblina densa,
e sutilmente umedece a alma,
fazendo gotas distraídas caírem face abaixo,
implorando... recomeços,
suplicando... o repaginar dos sonhos,
o equilíbrio com as estrelas,
e a transcendência de si mesmo.
 
E existir é isso...
É um manobrar entre o medo e a intrepidez,
é entrelaçar entre a coragem e o desistir,
entre o abandono e o desejo de amar,
é entender de lonjura e admitir a solidão,
e depois transitar com equilíbrio entre as duas,
diminuindo a profundidade do desespero,
e se revitalizar todos os dias,
sem se machucar.
  
Regresse sempre...
A alma é o único porto para se voltar:
- regresse em ti.
 
 Ari Mota 


domingo, 10 de outubro de 2021

RETALHOS DA ALMA


 







Mesmo sabendo das águas incertas,
dos ventos intempestivos,
não parei de navegar, e sempre...
estou à procura do que me tornei, e sou.
Tive alguns cuidados comigo:
- não me machuquei com os próprios pensamentos,
nem me flagelei com as vicissitudes,
quando o dia me apequenou.
 
Vim... recolhendo retalhos, do que vi e senti,
e fui costurando tudo em minha alma,
ela ficou maior que eu.
cerquei-me de silencio e sutileza,
de gratidão e poesia,
e orbita em mim, os melhores humanos que conheci,
e fui me edificando com retalhos,
remendei-me, me consertei,
com o que a vida me ofereceu.
 
Mesmo sabendo da fragilidade humana,
das tempestades ocasionais
espelhei-me em grandes almas,
naquelas que exalam ternura,
e são sensíveis, silenciosas e invisíveis,
aquelas que verbalizavam com os olhos,
e dançam felizes em noites de solidão,
parecem poetas desvalidos, mas são resilientes,
uma é uma bailarina louca e as outras... duas borboletas,
transbordam de amor e finura.
 
E venho me formatando... assim.
Desses humanos que me amam,
capturo pequenos gestos,
que refletem em mim... luz e calmaria,
tocam-me como aragem celestial,
reinicio-me todas as manhãs,
e todas as vezes que deparo com o medo,
mantenho o olhar, o encaro de frente,
hoje... o medo tem medo de mim.
 
Fiz tantos remendos para retribuir o que recebi,
para amar como fui... que utilizei de todos os atalhos,
atravessei todos os meus desertos, todos os meus acasos,
hoje... sou a soma de outras almas, de outros amores,
de outros sonhos, de outros abraços,
deixei de ser eu, de ser sozinho,
até posso deixar os meus excessos pelo caminho,
e em fez de receber... oferecer o que me tornei,
em retalhos.
 
Ari Mota

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

TENHO PRESSA DE MIM











Sei que... Tenho muito passado e pouco amanhã.
Sei da fugacidade do tempo, e agora em outro compasso.
E isso já me amedrontou,
arrancou-me da cama em madrugadas de insônia,
desesperei-me com vidas que não vivi,
estradas que não passei,
viagens que não fiz.
Mas, toda essa ausência...
formatou esse... que hoje sou.
 
Sei que... agora,
tenho que descobrir o que ainda não sei de mim.
Foram tantos experimentos,
foram tantas travessias para lugar nenhum,
procurei tanto, que quase me perdi,
- também pudera... procurava: olhares alheios,
para preencher esse vazio no peito, esse vão,
quis buscar lá fora algo para me por em sossego,
acalentar a minha solidão.
 
Sei que... O amargo do silêncio, já me importunou,
mas foi nele que escutei os gritos que não dei,
e eclodiu o amor por três dos melhores humanos...
que conheci.
- E me encontrei.
 
Tenho pressa de mim...
Foram tantas barbáries que vi,
foram tamanhas insanidades que presenciei,
que preciso agora no final... de refúgio,
de abrigo, que me permita desacelerar,
sem perder a ousadia pelas batalhas.
Preciso viver em êxtase o que me resta,
e em gratidão... o que me tornei.
 
Tenho pressa de mim...
O destino me tratou com delicadeza,
permitiu-me envelhecer.
Embora tudo que vi, me embruteceu,
é hora de resgatar a candura.
E que de ora em diante, seja tudo apoteótico:
Que em todos os amanheceres rebrote vida,
que o meu olhar sereno contemple mais,
que todas as estradas revele um encontro,
e cada passo seja uma longa viagem,
e eu compreenda as vibrações da própria essência,
- e defina: esse sou eu, esse é o meu tamanho.
Como tenho pressa de mim...
Que esse último lapidar, esse último brilho...
Seja eu a fazer... com lucidez e brandura.

Ari Mota 


domingo, 25 de julho de 2021

DESCONSTRUA-SE


 








Ao perceber que o frescor da alma...
desmaia em noites de desespero,
e uma estreiteza desponta por dentro,
saqueando o riso,
desconstruindo a brandura,
roubando-lhe a quietude,
criando uma aflição incomum,
- não desaponte os sonhos.
Isso tem cura:
O que será preciso é... desvestir-se,
de tudo que incorporou vida afora,
é hora de despojar de todos os paradigmas,
procurar outra estrada,
diferenciar... não ser mais um.
 
Se for preciso...
fuja de tudo que te inutiliza,
dispa-se desses seus disfarces,
daquilo que você não é,
dos medos que te atemoriza.
 
Desconstrua-se para não adoecer.
Em vez de...
potencializar a dor,
loucure-se... passe a carregar leveza,
pressentir o instante,
a grandeza das coisas simples,
e não permita a fugacidade do tempo,
subtrair-lhe um grande amor.
 
Em vez de...
estigmatizar o lamento,
silencie em vez de desatar o grito,
não dê, a saber, a muitos, os seus desassossegos,
cada um tem a sua historia,
desaposse da sua verdade,
viva como se estivesse indo aonde o vento sopra,
espalhe elegância... espalhe atrevimento.
 
Descontrua-se...
Como se fosse um… desfolhar,
mas, não perca o viço... o fulgor,
e nem o fim,
ressurja com toda a sua exuberância,
com toda a sua resiliência,
volte maior,
diferente do que foi... melhor,
inda tens muito para amar,
e tempestades para transpor.


Ari Mota



sábado, 12 de junho de 2021

SEGUIR











Que desatino é esse...
Ao meio de tanta selvageria,
-eu aqui insistindo com a minha poesia.
Que desvario é esse...
Ao meio de tamanha irreflexão,
- eu aqui regendo a minha solidão.
 
E tudo era tão simples,
quase não se ouvia o pranto:
- era um tocar de almas, e tudo era encanto.
Bastava ir e a vida esbarrava na gente,
cortejar era apenas com um riso,
abraçar era só cingir os braços sem aviso.
 
E hoje parece que viver ficou proibido,
encontrar tornou-se uma insensatez, um perigo,
não se pode abrir o peito... oferecer abrigo.
A praça virou um desperdício,
e a solitude sentou-se à mesa de bar,
impedindo o ensejo para amar.
 
Que esquisitice é essa...
Mascaramos o riso, andamos tão impreciso,
que estamos distanciando do esplendor.
Deslembramos o tocar da pele,
intervalamos a carícia na cama,
vagamos por aí como um autômato,
e hoje o que nos separa,
e o que nos medeia é o amor.
 
E tudo era leveza...
Foi nos escapando do olhar... a simetria,
levamos ao sacrifício a emoção,
que não mais nos arrepia.
De repente tudo ficou estranho,
expirou a quietude, a harmonia,
permitimos o despertar dos nossos fantasmas,
e esquecemos da nossa teimosia.
 
Que desatino é esse...
Vamos ter que brotar de novo.
Mergulhar nas profundezas da alma,
não deixar o medo submerso:
- e emergir.
Remendar as asas, revitalizar os sonhos,
ter novas escolhas, novos caminhos,
nova tribo, novos livros, novos amores.
E seguir.
 
Ari Mota 


domingo, 25 de abril de 2021

EM BUSCA DE LUCIDEZ
















Se, andas atrás de lucidez,
mesmo... nesses dias ensandecidos,
não se desespere, e se pensas em fugir,
e se precisas fugir...  serena-te.
E fugir para onde?
Mas, se foi seduzido pela dúvida,
e ainda não sabe onde ir...
experimente fugir para dentro,
procurar seus pedaços desconhecidos.
 
A magia deste lugar... enternece,
e se queres lucidez... este será o seu palco,
encontrará tudo que procurou fora de ti.
verdade foi que... quando saiu para viver a vida,
inalou incertezas, ingeriu sonhos,
absorveu energias de outras almas...
e abandonou a si mesmo.
É hora de renunciar das inutilidades e voltar.
E se queres lucidez... fuja da rudeza cotidiana,
da indiferença espelhada em cada olhar,
da avidez sobre as coisas,
e agasalhe-se da frieza dos homens,
abrigue-se onde ninguém te hostilize.
- Dentro é o melhor lugar.
 
Aquieta-te...
A lucidez está onde guardas teus mistérios,
esse tesouro que tanto busca,
essa sinergia que tanto precisas,
e tudo está envolto... onde esconde o seu amor.
Não se desespere... salte para dentro,
e não se preocupe... se deparar com a solidão,
será o melhor ensejo para se encontrar,
varrer as impurezas da alma,
e reaprender a falar com os olhos,
ouvir além das palavras,
entender a fugacidade do existir
e aceitar que entre o começo e o fim...
tudo foi apenas uma ilusão.
 
Não se desespere... se procuras lucidez.
Silencie... ela está dentro de ti.
- ela tem hábitos estranhos:
Mas, pondera quando verbaliza,
ouve quando alguém se manifesta,
é compassiva com as diferenças,
tem a sua própria luz, ama o improvável,
passado e futuro não lhe pertence, só o momento,
e vagueia enlouquecida por aí... com a sensatez.

ARI MOTA 


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

REVERBERE OUTRAS ALMAS














Não desperdice...
Quem em quietude orbite em ti, por amor.
Quem chega para deixar uma digital em tua alma,
quem te abraça demoradamente,
quem não permite que a vida lhe machuque tanto.
 
- Queiras alguém... que possa tardar a tua solidão,
quem não permite que role sozinho em teus lençois,
quem jamais irá desfazer quem tu és, ou pretende ser,
quem possa impedir o teu pranto.
 
- Queiras quem chega sorrindo quando tudo fica difícil,
quem admira e descobre o que você procura,
quem reconhece a tua imensidão.
 
- Queiras quem enfrenta teus temporais,
e permanece compassivo ao lado do teu desespero,
tocando teu rosto em delicadeza.
 
- Queiras quem ouça o teu silêncio,
e reverencia o teu grito,
habitando os teus desertos com fineza.
 
Cuide de tudo que orbita em ti,
tudo que chega para juntar tua bagunça,
influenciar a tua alma, fazê-la melhor,
mesmo sendo ela incomensuravelmente louca,
infinitamente endoidecida, pela magia de viver,
pelo encanto de estar aqui,
sem sentir... se ela é muito, ou se é pouca.
 
Existir é algo inexplicável...
fugaz para os desatentos,
e sem pressa... para os aflitos.
Mas o que a vida quer mesmo:
É que sejamos brilho, algo que irradia,
contamina, transforma por dentro,
algo que provoque... estimule os desafios,
e faça cada um criar a sua historia,
torna-la inesquecível.
 
Não desperdice um amor,
faça-o cúmplice dos teus devaneios,
tenha-o como a sinergia que irá orbitar em ti,
e depois... depois, reverbere outras almas,
e quando estiver... indo para o outro lado do sonho,
esbarrando no fim,
um possa olhar para o outro e dizer:

Você foi a melhor parte de mim.


Ari Mota


 

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

NÃO DEMORES


















Que a principio, haja sempre reinícios,
ensejos de se reinventar,
e não demores...
para celebrar a vida,
e nem espere viver de novo,
para se alcançar uma nova chance,
hoje é o dia... mergulhe dentro de si mesmo,
negocie com os seus fantasmas,
com os seus intermináveis medo,
seja lá com o que for.
Não demores...
com quem te machuque,
com quem não aprecia os seus voos,
não reconheça a sua luz.
Não demores nem com o olhar...
para com quem não te contempla com amor.

Vigie-se...
não há sonhos irrealizáveis, nem tardios,
o que existe são caminhos,
nasça de novo... e em prece,
sem precisar arrastar tanto peso,
tanta imprecisão:
- enche-se de leveza,
todos os caminhos são incertos,
não há fórmula para idealizar uma vida,
siga como se soubesse aonde quer ir,
e com quem encontrar,
podes até andar sozinho,
mas, não se encante com a solidão. 

Cure-se...
de todo e qualquer ressentir,
e depois, povoe os seus desertos,
seus vazios... com singeleza,
e que os temporais virem brisa,
e as batalhas... encantamento,
e ao se olhar...
entenda que tu és o seu próprio refúgio,
e na espessura do seu silêncio,
perceba o que viveu,
e o quando amou.
Não demores...
onde não possa ser você mesmo,
nem onde o tornam... invisível,
e nem sabem o que você se tornou.

Ari Mota

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

SÓ SOBRARAM OS OLHOS













Primeiro foi a distancia...
E veio o desespero em ficar sem o abraço,
- e nasceu um vazio descomedido,
e um encontro abrupto com os nossos desertos.
Depois foi o toque...
Brotou um abismo entre o calor dos corpos,
- um nada, que nos aparta,
um separar que nos apavora.
E como se não bastasse... e, em disfarce,
pregaram-nos uma máscara na cara,
e extraíram... o riso,
arrancaram... dos lábios o beijo,
asfixiaram... a alma,
- E tudo, nublou, sufocou a expressão,
mutilou a linguagem corporal,
e por pouco não intimidou o nosso amor,
inibiu o nosso afeto,
desconstruiu os nossos sonhos,
ofertando-nos, a solidão.
 
De repente… só nos sobrou os olhos,
que a muito perdera o brilho,
e quase apagou,
entorpeceu-se de tanto ouvir a boca balbuciar tolices,
palavrear vazios,
e com ludíbrio nada dizer.
 
De repente... só nos sobrou os olhos,
é hora de redimensionar o olhar,
fazê-lo ressurgir.
Por tempos...
toda a comunicação da alma emergia dele,
toda a manifestação de amor exalava dele,
o seu silencio tinha voz,
seu luzir provocava mansidão.
 
De repente... só nos sobrou os olhos,
e nossos ancestrais já diziam:
Olhos não mentem, nem enganam,
resplandecem... quando felizes,
murcham... quando magoados,
ficam sombrios... quando sozinhos,
e em estase... quando amam.
Como só... sobraram-nos os olhos,
que ele nos revele tocar com a alma,
outra alma,
e nos ensine a contemplar com gratidão.
 
Ari Mota