Que durante
as tempestades,
tente
desvendar os paradoxos,
que
incomodam a tua alma.
Talvez o
que está aí dentro...
não seja
solidão,
e o que
você chama de vazio...
seja
apenas a tua ausência:
- excessos
de outros,
e escassez
de si mesmo.
E nesta
busca você perceba...
que
sonhos escapam com tempo,
e por
onde andou... você não mais cabia,
seu
brilho ofuscou outros olhares,
e
tentaram tolher a plenitude do seu voo,
e tudo
isso o fez... seguir a esmo.
Que
depois da tempestade...
Possa,
equalizar
a tua loucura,
com a tua
lucidez.
Viva
como se tudo fosse hoje,
sem
precisar ser... um outro,
sem
precisar sair em sua própria procura.
Gaste
todas as vidas agora,
exista
para descortinar-se,
ame-se...
sem se consumir,
dentro
deste silencio que te devora.
Seja
intenso num só dia,
transpasse-o
com leveza,
seja mansidão
invés de ventania,
e silencie
em delicadeza.
Sofra de
amor, mas nunca de lonjura,
e que ele
resida na tua alma,
pulse livre,
e exale entrega,
e que
enquanto durar... seja por ternura.
E se um dia
a tempestade voltar...
Vá ao
fundo de si mesmo,
equalize
as respostas,
reconstrua-se
sem medo de amar.
Equalize
o medo e a coragem,
se tiver
medo...
que
seja, o de não encontrar a coragem em ti.
Ari Mota
terça-feira, 22 de março de 2022
EQUALIZE
quinta-feira, 6 de janeiro de 2022
HELENA
Demorei só um pouquinho.
De onde vim... falaram tanto de você,
que... tive que me preparar para te reconhecer.
Minha alma ínfima tinha que crescer,
para lidar com a sua imensidão,
o seu grito transcendeu as estrelas me chamando,
eu sei...
Há boatos no universo sobre o nosso amor,
disseram-me que estivemos juntas em outras vidas,
já fomos fadas encantadas,
bruxas em noites de solidão,
por isso voltei...
Aí... uns anjos atrevidos,
colocaram-me nesse ventre.
Sou um presente angelical,
um pedacinho de ternura,
um encantamento.
Verdade é que sou você por inteira,
sou o que tens de visceral.
Estive em cada desejo seu,
sou a sua teimosia.
Já fiz parte do seu desespero,
sei que cada lagrima caiu para dentro,
mas, hoje lhe ofereço a minha calma,
saiba, estive ao seu lado, vivi também o seu silêncio,
Mas, cheguei para ser a sua poesia.
Oi!!! Mamãe!
Sabes quem sou?...sou:
- Helena.
Vim para um estágio de vida:
- aprender a ser a mulher que você,
se tornou.
-------------------------------
Helena é minha neta,
enfeitiçou o meu espirito.
Ela, ainda não se apresentou,
para o grande show da vida,
mas, já me fez infinito.
Ari Mota
segunda-feira, 20 de dezembro de 2021
UM LUGAR SAGRADO
Viver...
é esse disparate,
essa
insensatez indescritível,
esse
absurdo.
De
repente, sem se perceber...
saciamo-nos
de inutilidades,
absorvemos
a vida dos outros,
e permitimos
sem desvelo,
invadirem
nossa alma:
- Esse
lugar sagrado,
sem qualquer
embate.
E chegam
assim... em aflição,
despejam
suas dúvidas,
sua
agonia, seu cinismo,
dissimulam
a sua vileza,
entopem-nos
com os seus vazios...
sua
miséria espiritual,
sua
sofreguidão.
Prudente
é não arrastar esse desassossego,
para não
tornar-se vitima de si mesmo,
e dele
ficar refém.
É
preciso resguardar esse refúgio:
- para
suportar a solidão dos outros,
e a
solidão de si.
Filtre
quem ficará ao seu lado,
e quem
permanecerá lá dentro,
não
vislumbre o seu amanhã... sem ninguém.
A alma
tem que ser intocável.
E quem nela
transitar:
Tem que
estar descalço,
e ter
leveza no andar.
Tem que
compreender a sua loucura,
e seus
temporais.
Ouvir o
seu silêncio,
e tolerar
os seus rituais.
Tem que aceitar
a sua imunidade,
venerar sua
alma... como um templo em delicadeza,
e nela
nada entulhar, nem levar,
apenas...
vasculhar a sua profundeza.
Esse é o
seu lugar sagrado,
e
guardarás nele, o seu segredo:
- a
dimensão da sua coragem,
e o
tamanho do seu medo.
Só deixe
entrar quem chegue com brandura,
e seja cúmplice
de seus sonhos, da sua dor,
e na hora
do cansaço... conceda-lhe o braço,
e admire
a sutileza como você manifesta o seu amor.
Ari Mota
segunda-feira, 22 de novembro de 2021
REGRESSE EM TI
Podes
até roubar um segundo do tempo,
chamá-lo
de seu.
Mas,
não demores muito,
se
nele não tiver encanto.
Podes
até achar que ele é apenas um instante,
efêmero
como um vendaval.
Mas,
não acredites em sua intensidade,
se
ele não carregar delicadeza.
Assim...
é o existir,
às
vezes tem o tamanho de um “agora”,
a
beleza de um relâmpago,
e
tudo pode mudar...
-
saiba o que fazer com o que já viveu.
Atenha
aos ventos ocasionais,
esses
que chegam em silêncio, e a esmo,
esses
brandos, suaves e inocentes,
que
às vezes arrastam uma neblina densa,
e
sutilmente umedece a alma,
fazendo
gotas distraídas caírem face abaixo,
implorando...
recomeços,
suplicando...
o repaginar dos sonhos,
o
equilíbrio com as estrelas,
e
a transcendência de si mesmo.
E
existir é isso...
É
um manobrar entre o medo e a intrepidez,
é
entrelaçar entre a coragem e o desistir,
entre
o abandono e o desejo de amar,
é
entender de lonjura e admitir a solidão,
e
depois transitar com equilíbrio entre as duas,
diminuindo
a profundidade do desespero,
e
se revitalizar todos os dias,
sem
se machucar.
Regresse
sempre...
A
alma é o único porto para se voltar:
-
regresse em ti.
Ari
Mota
domingo, 10 de outubro de 2021
RETALHOS DA ALMA
Mesmo
sabendo das águas incertas,
dos
ventos intempestivos,
não
parei de navegar, e sempre...
estou à
procura do que me tornei, e sou.
Tive alguns
cuidados comigo:
- não me
machuquei com os próprios pensamentos,
nem me
flagelei com as vicissitudes,
quando o
dia me apequenou.
Vim...
recolhendo retalhos, do que vi e senti,
e fui
costurando tudo em minha alma,
ela
ficou maior que eu.
cerquei-me
de silencio e sutileza,
de
gratidão e poesia,
e orbita
em mim, os melhores humanos que conheci,
e fui me
edificando com retalhos,
remendei-me,
me consertei,
com o que
a vida me ofereceu.
Mesmo
sabendo da fragilidade humana,
das
tempestades ocasionais
espelhei-me
em grandes almas,
naquelas
que exalam ternura,
e são
sensíveis, silenciosas e invisíveis,
aquelas
que verbalizavam com os olhos,
e dançam
felizes em noites de solidão,
parecem
poetas desvalidos, mas são resilientes,
uma é
uma bailarina louca e as outras... duas borboletas,
transbordam
de amor e finura.
E venho
me formatando... assim.
Desses
humanos que me amam,
capturo
pequenos gestos,
que refletem em mim... luz e calmaria,
tocam-me
como aragem celestial,
reinicio-me
todas as manhãs,
e todas
as vezes que deparo com o medo,
mantenho
o olhar, o encaro de frente,
hoje...
o medo tem medo de mim.
Fiz tantos
remendos para retribuir o que recebi,
para
amar como fui... que utilizei de todos os atalhos,
atravessei
todos os meus desertos, todos os meus acasos,
hoje...
sou a soma de outras almas, de outros amores,
de
outros sonhos, de outros abraços,
deixei
de ser eu, de ser sozinho,
até
posso deixar os meus excessos pelo caminho,
e em fez
de receber... oferecer o que me tornei,
em
retalhos.
Ari Mota
segunda-feira, 23 de agosto de 2021
TENHO PRESSA DE MIM
Sei da fugacidade do tempo, e agora em outro compasso.
E isso já me amedrontou,
arrancou-me da cama em madrugadas de insônia,
desesperei-me com vidas que não vivi,
estradas que não passei,
viagens que não fiz.
Mas, toda essa ausência...
formatou esse... que hoje sou.
Sei que... agora,
tenho que descobrir o que ainda não sei de mim.
Foram tantos experimentos,
foram tantas travessias para lugar nenhum,
procurei tanto, que quase me perdi,
- também pudera... procurava: olhares alheios,
para preencher esse vazio no peito, esse vão,
quis buscar lá fora algo para me por em sossego,
acalentar a minha solidão.
Sei que... O amargo do silêncio, já me importunou,
mas foi nele que escutei os gritos que não dei,
e eclodiu o amor por três dos melhores humanos...
que conheci.
- E me encontrei.
Tenho pressa de mim...
Foram tantas barbáries que vi,
foram tamanhas insanidades que presenciei,
que preciso agora no final... de refúgio,
de abrigo, que me permita desacelerar,
sem perder a ousadia pelas batalhas.
Preciso viver em êxtase o que me resta,
e em gratidão... o que me tornei.
Tenho pressa de mim...
O destino me tratou com delicadeza,
permitiu-me envelhecer.
Embora tudo que vi, me embruteceu,
é hora de resgatar a candura.
E que de ora em diante, seja tudo apoteótico:
Que em todos os amanheceres rebrote vida,
que o meu olhar sereno contemple mais,
que todas as estradas revele um encontro,
e cada passo seja uma longa viagem,
e eu compreenda as vibrações da própria essência,
- e defina: esse sou eu, esse é o meu tamanho.
Como tenho pressa de mim...
Que esse último lapidar, esse último brilho...
Seja eu a fazer... com lucidez e brandura.
Ari Mota
domingo, 25 de julho de 2021
DESCONSTRUA-SE
Ao perceber
que o frescor da alma...
desmaia
em noites de desespero,
e uma
estreiteza desponta por dentro,
saqueando
o riso,
desconstruindo
a brandura,
roubando-lhe
a quietude,
criando
uma aflição incomum,
- não
desaponte os sonhos.
Isso tem
cura:
O que será
preciso é... desvestir-se,
de tudo
que incorporou vida afora,
é hora
de despojar de todos os paradigmas,
procurar
outra estrada,
diferenciar...
não ser mais um.
Se for
preciso...
fuja de
tudo que te inutiliza,
dispa-se
desses seus disfarces,
daquilo
que você não é,
dos
medos que te atemoriza.
Desconstrua-se
para não adoecer.
Em vez
de...
potencializar
a dor,
loucure-se...
passe a carregar leveza,
pressentir
o instante,
a grandeza
das coisas simples,
e não
permita a fugacidade do tempo,
subtrair-lhe
um grande amor.
Em vez
de...
estigmatizar
o lamento,
silencie
em vez de desatar o grito,
não dê,
a saber, a muitos, os seus desassossegos,
cada um
tem a sua historia,
desaposse
da sua verdade,
viva
como se estivesse indo aonde o vento sopra,
espalhe elegância...
espalhe atrevimento.
Descontrua-se...
Como se
fosse um… desfolhar,
mas, não
perca o viço... o fulgor,
e nem o
fim,
ressurja
com toda a sua exuberância,
com toda
a sua resiliência,
volte
maior,
diferente
do que foi... melhor,
inda
tens muito para amar,
e
tempestades para transpor.
Ari Mota
sábado, 12 de junho de 2021
SEGUIR
Que
desatino é esse...
Ao meio
de tanta selvageria,
-eu aqui
insistindo com a minha poesia.
Que
desvario é esse...
Ao meio
de tamanha irreflexão,
- eu
aqui regendo a minha solidão.
E tudo
era tão simples,
quase
não se ouvia o pranto:
- era um
tocar de almas, e tudo era encanto.
Bastava
ir e a vida esbarrava na gente,
cortejar
era apenas com um riso,
abraçar
era só cingir os braços sem aviso.
E hoje
parece que viver ficou proibido,
encontrar
tornou-se uma insensatez, um perigo,
não se
pode abrir o peito... oferecer abrigo.
A praça
virou um desperdício,
e a
solitude sentou-se à mesa de bar,
impedindo
o ensejo para amar.
Que
esquisitice é essa...
Mascaramos
o riso, andamos tão impreciso,
que
estamos distanciando do esplendor.
Deslembramos
o tocar da pele,
intervalamos
a carícia na cama,
vagamos
por aí como um autômato,
e hoje o
que nos separa,
e o que
nos medeia é o amor.
E tudo
era leveza...
Foi nos
escapando do olhar... a simetria,
levamos
ao sacrifício a emoção,
que não
mais nos arrepia.
De
repente tudo ficou estranho,
expirou
a quietude, a harmonia,
permitimos
o despertar dos nossos fantasmas,
e esquecemos
da nossa teimosia.
Que
desatino é esse...
Vamos
ter que brotar de novo.
Mergulhar
nas profundezas da alma,
não deixar
o medo submerso:
- e emergir.
Remendar
as asas, revitalizar os sonhos,
ter
novas escolhas, novos caminhos,
nova
tribo, novos livros, novos amores.
E
seguir.
Ari Mota
domingo, 25 de abril de 2021
EM BUSCA DE LUCIDEZ
mesmo... nesses dias ensandecidos,
não se desespere, e se pensas em fugir,
e se precisas fugir... serena-te.
E fugir para onde?
Mas, se foi seduzido pela dúvida,
e ainda não sabe onde ir...
experimente fugir para dentro,
procurar seus pedaços desconhecidos.
A magia deste lugar... enternece,
e se queres lucidez... este será o seu palco,
encontrará tudo que procurou fora de ti.
verdade foi que... quando saiu para viver a vida,
inalou incertezas, ingeriu sonhos,
absorveu energias de outras almas...
e abandonou a si mesmo.
É hora de renunciar das inutilidades e voltar.
E se queres lucidez... fuja da rudeza cotidiana,
da indiferença espelhada em cada olhar,
da avidez sobre as coisas,
e agasalhe-se da frieza dos homens,
abrigue-se onde ninguém te hostilize.
- Dentro é o melhor lugar.
Aquieta-te...
A lucidez está onde guardas teus mistérios,
esse tesouro que tanto busca,
essa sinergia que tanto precisas,
e tudo está envolto... onde esconde o seu amor.
Não se desespere... salte para dentro,
e não se preocupe... se deparar com a solidão,
será o melhor ensejo para se encontrar,
varrer as impurezas da alma,
e reaprender a falar com os olhos,
ouvir além das palavras,
entender a fugacidade do existir
e aceitar que entre o começo e o fim...
tudo foi apenas uma ilusão.
Não se desespere... se procuras lucidez.
Silencie... ela está dentro de ti.
- ela tem hábitos estranhos:
Mas, pondera quando verbaliza,
ouve quando alguém se manifesta,
é compassiva com as diferenças,
tem a sua própria luz, ama o improvável,
passado e futuro não lhe pertence, só o momento,
e vagueia enlouquecida por aí... com a sensatez.
ARI MOTA
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021
REVERBERE OUTRAS ALMAS
Quem em quietude orbite em ti, por amor.
Quem chega para deixar uma digital em tua alma,
quem te abraça demoradamente,
quem não permite que a vida lhe machuque tanto.
- Queiras alguém... que possa tardar a tua solidão,
quem não permite que role sozinho em teus lençois,
quem jamais irá desfazer quem tu és, ou pretende ser,
quem possa impedir o teu pranto.
- Queiras quem chega sorrindo quando tudo fica difícil,
quem admira e descobre o que você procura,
quem reconhece a tua imensidão.
- Queiras quem enfrenta teus temporais,
e permanece compassivo ao lado do teu desespero,
tocando teu rosto em delicadeza.
- Queiras quem ouça o teu silêncio,
e reverencia o teu grito,
habitando os teus desertos com fineza.
Cuide de tudo que orbita em ti,
tudo que chega para juntar tua bagunça,
influenciar a tua alma, fazê-la melhor,
mesmo sendo ela incomensuravelmente louca,
infinitamente endoidecida, pela magia de viver,
pelo encanto de estar aqui,
sem sentir... se ela é muito, ou se é pouca.
Existir é algo inexplicável...
fugaz para os desatentos,
e sem pressa... para os aflitos.
Mas o que a vida quer mesmo:
É que sejamos brilho, algo que irradia,
contamina, transforma por dentro,
algo que provoque... estimule os desafios,
e faça cada um criar a sua historia,
torna-la inesquecível.
Não desperdice um amor,
faça-o cúmplice dos teus devaneios,
tenha-o como a sinergia que irá orbitar em ti,
e depois... depois, reverbere outras almas,
e quando estiver... indo para o outro lado do sonho,
esbarrando no fim,
um possa olhar para o outro e dizer:
Você foi a melhor parte de mim.
Ari Mota
terça-feira, 26 de janeiro de 2021
NÃO DEMORES
e não demores...
para celebrar a vida,
e nem espere viver de novo,
para se alcançar uma nova chance,
hoje é o dia... mergulhe dentro de si mesmo,
negocie com os seus fantasmas,
com os seus intermináveis medo,
seja lá com o que for.
Não demores...
com quem te machuque,
com quem não aprecia os seus voos,
não reconheça a sua luz.
Não demores nem com o olhar...
para com quem não te contempla com amor.
Vigie-se...
não há sonhos irrealizáveis, nem tardios,
o que existe são caminhos,
nasça de novo... e em prece,
sem precisar arrastar tanto peso,
tanta imprecisão:
- enche-se de leveza,
todos os caminhos são incertos,
não há fórmula para idealizar uma vida,
siga como se soubesse aonde quer ir,
e com quem encontrar,
podes até andar sozinho,
mas, não se encante com a solidão.
Cure-se...
de todo e qualquer ressentir,
e depois, povoe os seus desertos,
seus vazios... com singeleza,
e que os temporais virem brisa,
e as batalhas... encantamento,
e ao se olhar...
entenda que tu és o seu próprio refúgio,
e na espessura do seu silêncio,
perceba o que viveu,
e o quando amou.
Não demores...
onde não possa ser você mesmo,
nem onde o tornam... invisível,
e nem sabem o que você se tornou.
Ari Mota
terça-feira, 1 de dezembro de 2020
SÓ SOBRARAM OS OLHOS
Primeiro
foi a distancia...
E veio o
desespero em ficar sem o abraço,
- e nasceu
um vazio descomedido,
e um encontro
abrupto com os nossos desertos.
Depois
foi o toque...
Brotou
um abismo entre o calor dos corpos,
- um
nada, que nos aparta,
um
separar que nos apavora.
E como
se não bastasse... e, em disfarce,
pregaram-nos
uma máscara na cara,
e
extraíram... o riso,
arrancaram...
dos lábios o beijo,
asfixiaram...
a alma,
- E
tudo, nublou, sufocou a expressão,
mutilou
a linguagem corporal,
e por
pouco não intimidou o nosso amor,
inibiu o
nosso afeto,
desconstruiu
os nossos sonhos,
ofertando-nos,
a solidão.
De
repente… só nos sobrou os olhos,
que a
muito perdera o brilho,
e quase
apagou,
entorpeceu-se
de tanto ouvir a boca balbuciar tolices,
palavrear
vazios,
e com
ludíbrio nada dizer.
De
repente... só nos sobrou os olhos,
é hora
de redimensionar o olhar,
fazê-lo
ressurgir.
Por
tempos...
toda a
comunicação da alma emergia dele,
toda a
manifestação de amor exalava dele,
o seu
silencio tinha voz,
seu
luzir provocava mansidão.
De
repente... só nos sobrou os olhos,
e nossos
ancestrais já diziam:
Olhos
não mentem, nem enganam,
resplandecem...
quando felizes,
murcham...
quando magoados,
ficam sombrios...
quando sozinhos,
e em
estase... quando amam.
Como
só... sobraram-nos os olhos,
que ele
nos revele tocar com a alma,
outra
alma,
e nos ensine
a contemplar com gratidão.
Ari Mota
sábado, 17 de outubro de 2020
VIAJO ATRÁS DE LUZ
dessa viagem descomunal.
E poucos foram os instantes de insanidade,
coloquei harmonia na minha loucura,
equilibrei o meu ímpeto, dominei a minha fúria.
Virei silêncio, solidão,
não me afoguei em desespero,
nem me descompassei na hora de sonhar.
Virei calmaria,
e presentearam-me três humanos para amar,
construí-me... reinventei-me.
Suportei a dimensão dos combates,
e nas derrotas deparei com a minha resiliência,
persistia tanto... que iniciava tudo outra vez,
e quase nada me fugiu do controle,
tolerei as vicissitudes que me infligiu,
e percebi que a vida é uma ventania colossal.
E já são quase sete décadas...
E hoje, tudo que vivi me pareceu efêmero,
e o faria do mesmo jeito, tudo que fiz até hoje me seduz,
é que passei a me espelhar na natureza, em suas estações.
E vivo assim... em ciclos... sem intermitência,
e quando percebo o meu outono entreabrir aqui dentro,
e iniciar um frio descomprometido,
e as folhas soçobrarem no chão:
vou rastelar o meu jardim...
e aproveito rastelo a minha alma,
e depois semeio amor nos meus desertos.
E logo em seguida desponta o inverno, frieza,
o sol tímido e a noite mais longa me faz recolher,
arqueio o corpo, transmudo para a alma... quietude,
espero tudo passar.
E de repente despenca a primavera...
o desabrochar das flores, o despertar dos sonhos,
e aí, saio enlouquecido... redescubro-me.
E de súbito resplandece o verão,
os dias se alongam, o sol despeja esperança,
saio regando as flores que plantei e tudo se renova.
E essas são as minhas estações,
que se repetem de tempos em tempos,
e me faz o que hoje sou: Um artífice do recomeço.
E como não tenho intervalos,
hoje é toda a minha vida,
e como tudo é um imenso segredo,
preparo-me para as outras vidas,
outras travessias,
viajo atrás de luz.
segunda-feira, 14 de setembro de 2020
O QUE PERDEMOS PELO CAMINHO
demorei a perceber a distancia abissal entre perder e deixar.
Até dias desses, achava que estava perdendo coisas pelo caminho,
tive que deixar até alguns “eus” pela estrada,
alguns beijos, algumas camas, suspiros, risos,
olhares, ninharias e intimidades,
e intentava voltar para trazer de volta... o que foi ficando,
e olha, olhei por diversas vezes para trás,
que vazio incomensurável nascia aqui dentro, que deserto.
Tardei a ver que era uma trapaça do existir,
eram ciclos para ultrapassar.
O tempo não foi perverso com a minha insensatez,
por que pactuei comigo mesmo, fingir que ele não existia.
E com isso, deu tempo para perceber que nada eu perdia,
estava sutilmente deixando,
descartando os meus excessos,
e foi o maior dos acontecimentos da minha alma:
- e não era vazio, nem deserto, nem solidão o que sentia,
era a minha sutil excentricidade de despertar,
alterar a frequência,
preencher-se de emoção,
e deixa-la livre:
- para cuidar com mais intensidade dos meus amores,
e nunca perder a ânsia de preparar-se para novos tempos,
nem a resiliência de sempre continuar.
O tempo sempre foi compassivo com os meus sonhos,
esperou sentado na esquina do meu destino,
reconheceu os meus limites, e as minhas dúvidas,
olhava-me ternamente em noites de desespero,
e ajudou-me a inundar a alma de singeleza,
entender que muitas das vezes, nada se perde,
deixa-se pelas margens do caminho,
tudo que nos importuna,
machuca, constrange, e desgasta.
O tempo pode ter sido até inexorável na velocidade,
mas consegui entender que nada perdi pelo caminho,
só fui deixando as minhas sobras,
e tudo me foi espetacular,
surpreendi-me... com o que a vida me ofereceu,
e o quanto consegui amar.
domingo, 16 de agosto de 2020
RECOMEÇO EM MIM
e a solidão...
São dois lugares mágicos,transcende a lógica, e o descritível,
esvaziam o peito, mas liberta a alma,
e livre, ela devaneia no lúdico,
e depois distancia do fútil, não mais coleciona ninharias,
e se encontrar...
Não acredites no inelutável,
lance-se ao acaso e em todos os temporais,
recapitule o que já viveu,
descarte as desnecessidades,
em nada há um desfecho, ou como fazer melhor,
reedifique tudo que possa esperançar.
Que tenhas tempo de curar as feridas profundas,
as magoas descabidas...
E possa resgatar amores perdidos,
e tê-los novamente dentro de si mesmo,
isso preenche nossos vazios, ameniza a nossa solitude,
auxilia-nos a atravessar nossos desertos,
aquecer nossos abraços,
e permitirá até oferecer nossos adeuses nas partidas.
Que tenhas tempo de inundar a alma de amor,
e os olhos de ternura...
Saiba, fugaz é o caminho, efêmero o riso,
podes não dar tempo de ser feliz.
Alguns coisificam a emoção,
amealham o tangível e esquecem o afago,
esmolam afeto, sem saber manifestar carinho,
perdem a sutileza do encontro, perdem a candura.
Que tenhas tempo para um dia dizer:
- de todas as descobertas, enfim,
a mais sublime,
a que mais me estremeceu,
rompeu a minha escuridão,
foi quando tudo clarificou aqui dentro,
e descobri que se tiver que recomeçar.
- recomeço em mim.
ARI MOTA
segunda-feira, 27 de julho de 2020
EM QUE ALMA EU EXISTO
nesse silencio, que me devora,
que descortinei em que alma... eu existo.
Obvio foi... depois de algumas tempestades,
algumas descrenças... que não mais me apavora,
e nem me faz descobrir em que momento eu desisto.
Mas pudera... extenuei de tanto narcisar,
até avistar que aquele no espelho... não era eu,
tudo que via era raso, era do tamanho da minha insensatez.
Evidente foi... um desespero encontrar a minha fundura,
e tudo estava ali... lá dentro... e tudo era meu,
o melhor que poderia ser, e tinha que brotar com solidez.
Foi nesse vazio que me achei,
nessa quietude descomunal que renasci,
não havia poesia, nem delicadeza, nem emoção.
O embate íntimo foi imperceptível,
doeu sem sangrar, dilacerou... mas resisti,
hoje, nada me é... aflição.
Foi nessa ilusão que me desperta,
nesse disparate que é sonhar,
que a vida me provoca e me atiça.
Cuido tanto da minha alma,
que vez em quando, lembro-me do corpo e vou andar,
temos um caso às escondidas, e ela me enfeitiça.
Foi nessa solidão que me assusta,
que deparei com a minha alma... nítida energia,
acalenta-me, me apruma... fez-me o que sou, enfim.
Ela me faz possuir excessos, transcende de tudo que sei,
e ando distribuindo para os meus amores, em demasia.
- e entro em êxtase, quando eles, apoiam-se em mim.
Foi nessa exorbitante descoberta,
nesse universo que não se vê, nesse imprevisto,
nesse recanto que escondo a minha cortesia,
que visceralmente está a minha alma, e eu existo.
















