terça-feira, 28 de setembro de 2010

EQUILÍBRIO


Por tempos recorri a instrumentos para atingir coerência no meu
existir.
Vaguei desmedidamente a procura de harmonia para o meu
andar.
Busquei alternativas para ordenar meus passos
e identidade absoluta para poder sonhar.
Corri aos livros, aos mestres zens, as literaturas de auto-ajuda.
Fui meditar com os monges budistas,
andei descalço no Tibete,
e toda a sabedoria me chegou sem palavras,
ouvi em silencio o sermão da flor,
e arranquei do peito todo o ódio,
todo o meu rancor.
E como tudo não bastasse, inda me enveredei nas minhas vidas
passadas.
E tudo transcendeu... revelaram-se mundos, e tudo se tornou um,
e fiz do corpo apenas um domicílio espiritual.
E tudo foi muito pouco...
Inda, tendi as tradições xamânicas e recuei no tempo,
e em cânticos dancei com todos os ancestrais... em devaneios,
fui areia, pedra bruta, pedra filosofal.
Mas, certa noite, sozinho... percebi um vazio no peito,
um ardume, uma veemente vontade, uma busca.
De todas as emoções que tive... uma me faltou,
ou foi pouco, ou de tão ínfima que não a percebi.
E relutei tanto na procura... obstinei-me tanto no encalço,
que a encontrei dentro de mim.
Procurava EQUILÍBRIO... o encontrei em abraços com minha alma,
falando de amor.

Ari Mota

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O MEDO É UM VÍCIO

Quando dei meus primeiros passos deparei com minha primeira
queda.
Fui ao chão sem saber o que era desabar, estatelei no solo sem
conhecer o pavor do tombo,
sem chorar.
Ergui-me... e em gritos, e em zelo correram em minha direção,
arrebataram o meu primeiro andar,
minha primeira aventura solo, o meu primeiro vôo,
pelas estradas do caminhar.
Fizeram da minha criancice um cismar de medo,
um revelar do proibido, uma negação ao livre.
Tudo não podia... e então andei em quimeras escondendo-me
de fantasmas.
E em fantasia ideava lendas que em espanto me entristecia.
Passei a temer o inusitado, escondia-me dos olhares,
afastava-me dos abraços... fugia dos amores,
fizeram do medo minha companhia.
Hoje, depois da brancura dos cabelos,
da enrugues da pele, e da sensatez dos atos,
rompi em descoberta,
e sei que na verdade tudo foi para cercear meu bater de asas,
e inibir meu alarde aos próprios desejos.
Esconderam de mim que o medo é um vício,
e que fui tomado pelo receio do recomeço,
da estupidez da queda, da ausência, do abandono.
Mas, tudo transpassou como uma ventania,
e pactuei com minha alma... sobreviver à este vício,
e fizemos do existir um exercício de coragem,
e dos reveses do destino... crescimento.
Hoje dos vícios que carrego:
um está em evoluir desmedidamente... todos os dias,
e o outro é ser feliz e amar em demasia.

Ari Mota

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

TATUAGEM


Nosso amor tem sobrevivido todo este tempo,
todos estes temporais,
e mesmo assim, eu queria que ficasse para sempre,
e sempre eu ainda acho pouco,
preciso que permaneça mais um tanto,
algumas vidas a mais.
Já o coloquei dentro de um coração feito a canivete
naquela arvore da praça.
Depois docemente fantasie-me de poeta e o depositei para
dentro de um poema tímido,
de um verso ingênuo,
de uma rima descabida.
E naquela noite sussurrei em prosa, e o perpetuei no infinito.
E na madrugada seguinte... em delírios, o gravei nas estrelas.
E quando o sol se fez, convidei milhares de borboletas azuis
e saímos cantarolando todo o meu amor por você.
E tudo foi muito pouco,
preciso perpetuá-la em todo o meu existir...
Pensei... deixá-la tatuada na minha pele,
mas, efêmero lugar... e já envelhecida.
Não teve jeito,
a tatuei na alma.

Ari Mota

sábado, 18 de setembro de 2010

QUANDO O AMOR TE INVADE


Não teve jeito, não consegui esconder...
a porta já estava entre aberta, a te esperar.
Cansei da aridez das emoções,
dos desertos que crescem dentro de minha alma,
do meu andar.
Chega de transitar com a solidão,
abrigar em meu peito sofreguidão... empurre a porta sem bater,
pode entrar.
Vou me aventurar, deixar-me seduzir pelo inesperado,
viver estes abalos, que chegam de dentro, como se fora um canto,
como se fora uma ópera de dois enamorados,
como se fora versos de um poeta apaixonado.
E se o imprevisto me vier fazer companhia,
e trouxer a tiracolo a delicadeza, e em mimos me abraçar com leveza,
vou pedir que além de tudo isso... também me ame.
Porque hoje... espalhei rosas vermelhas pela casa,
e fui ao bosque... e convidei milhares de borboletas azuis,
para enfeitar nossa festa, e cantarolar coisas de amor,
e espiar maliciosamente nossos lençóis.
Não teve jeito... a porta está entre aberta, é só entrar.
Tenho insistido em ser feliz e não posso viver tudo isso,
sozinho.
Separei o que de vazio eu tinha, para ocupá-lo, completá-lo,
e que seja de você.
Como não sei o sabor do vinho, vou me embriagar de orvalho,
como não sei os passos de um dançarino, vou sambar no meio da sala,
como não sei ficar sem você, fiz-me poeta... para revelar meus desejos,
declarar meu silêncio, e tornar publico meus beijos.
Hoje resolvi fazer de mim... alegria,
e de você... amor.

Ari Mota

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

REFÚGIO


Quando jovem distribuía meus lamentos,
presenteava aos outros... minhas lamurias.
Destinava ao convívio, todo um exalar de pranto,
um repartir de choro.
Entregava-me... a deplorar ressentimentos,
e a queixar-se das desventuras.
Vertia-se em lagrimas de desespero e amimava meus medos
e mitigava minhas fraquezas.
Combalia-me nos combates, e debilitava-me nos confrontos.
Atemorizava-me com o não, com a recusa, com o adverso.
Necessitava da robustez de um ombro para suportar os soluços,
e a amparar o estremecer do corpo.
E atravessei o tempo, transpassei os ciclos,
fiz-me... prudente, discreto.
Evoluí... com os meus erros, enganos e desacertos,
e eu, que quando jovem me refugiei em outras almas,
hoje...
Fiz de mim... um porto.
Olho o mundo, as pessoas,
convivo com as diferenças,
com a inconstância humana,
com a desproporção e a aspereza do desamor,
e em silencio... me calo.
Retorno todos os dias para o colo da sensatez,
e faço do amor o ultimo sentimento do existir.
E hoje, fiz... da minha alma um refúgio eterno.
Recolho-me ao por do sol, ao chegar da negrura da noite,
asilo-me na quietação da minha própria serenidade.
Refugio-me das inverdades, e do falaz discurso,
e não o faço por medo, nem para esconder,
refugio-me para preservar...
Refugio-me... para dentro de mim mesmo,
por amor.

Ari Mota

domingo, 12 de setembro de 2010

VOLTEI A ME ENCONTRAR

Andei por muito tempo à procura de remanso para as águas
do meu existir.
Quietação para este peito que não só batia, sangrava
vez por outra.
Busquei retiro para esta alma que desesperada e inquieta
borbulhava na amplidão da noite.
E recolhimento para estes olhos que entre abertos
só vislumbrava estreiteza.
Sossego para este corpo que combateu diuturnamente
as desventuras.
E harmonia para o existir, para o continuar... prosseguir.
Foram tantos os embates...
Persisti, resisti, perseverei todos os instantes,
estremeci com o inesperado, e atemorizei-me com o volúvel,
exalei pelos poros... medo das derrotas e a decepção dos fracassos,
destilei pela pele o suor da duvida e transpirei a incerteza do talvez.
Mas, andei por muito tempo à procura...
e encontrei-me em mim mesmo.
Planeei minhas sutis batalhas, entranhei na própria essência
e voltei a me encontrar.
Passei a transitar com a minha verdade,
e desfilar com o que tenho de autêntico.
Fiquei tão eu... que as vezes de singular encontro-me no plural,
e em metamorfose reinvento-me em todas as manifestações de amor.
O meu coração voltou a bater na freqüência dos meus sonhos,
voltei a me encontrar.
E ter coragem de ser feliz.

Ari Mota

terça-feira, 7 de setembro de 2010

UM LUGAR PARA ENCONTRAR LEVEZA


Ao longo do caminhar... o existir teve o peso da atmosfera,
exerceu sobre o meu andar... toda a sua rijeza,
imputou-me lentidão, sobrecarga, transitei sem a celeridade desejada,
pareceu-me que nos ombros carregava mais do que podia levar.
E assim, transcorreu o meu deslocar,
parei algumas vezes,
subjuguei-me as regras, sujeitei-me as imposições sociais,
agreguei coisas, juntei ressentimentos, e anexei sofreguidão no olhar.
Abdiquei em certos momentos de aplausos,
renunciei convívios,
e o destino cedeu-me como companhia a solidão.
Mas, como sou resiliente... avigorei os sonhos, robusteci os desejos,
e em delírio continuei minha lida, meu imenso capricho...
em ser feliz.
Em uma destas curvas do acaso, deparei com minha própria alma,
que serena e calma,
em uma das esquinas da existência estava a me esperar.
Saímos... eu e ela, reinventando a travessia, as frases vazias,
fomos redigir como continuar.
Pactuamos, subtrair a pressão do existir, e fazer dele uma doce viagem,
deixar pelo caminho, os fardos do medo, do que oprime, do que incomoda,
lançar margem afora toda a amargura, todas as angustias, e o desnecessário.
E tudo foi muito intenso, as coisas foram ficando pelo chão,
as lagrimas secavam com o vento, e o lamento perdia-se na escuridão.
Hoje não quero aplausos, basta-me, os meus... os bato silenciosamente,
hoje escolho os convívios, os amigos, os amores,
e o destino cedeu-me como companhia: a sensatez.
Passei a altear em vôos...
hoje procuro um lugar para encontrar leveza,
e amor.

Ari Mota

sábado, 4 de setembro de 2010

CONSTRUTOR DE PONTES

Quando principiei a percorrer meu existir,
fui encontrando pelo caminho alguns abismos existenciais.
Obstinado, desvie-me da verticalidade, desci ribanceira abaixo,
atravessei terreno arenoso, depois cruzei pântanos imaginários,
estepes áridas e deparei-me com muralhas indefiníveis.
Resiliente que sou, escalei os desfiladeiros dos meus medos,
e continuei a caminhar.
E mais uma vez o destino jogou em minha frente estes precipícios,
que muito próximo ao intransponível, quase me impediu de continuar.
E pertinaz, combati minhas fraquezas e fiz delas... resistência.
Resisti aos vazios do caminho, e ao abandono da convivência,
em vez de edificar muros... construí pontes.
E em desafio, o destino fez-me construir a maior delas,
a descomedida ponte entre eu e minha alma.
E desde sua inauguração meu caminhar teve outro norte,
de correr em desespero...
passei docemente a passear pelo meu existir.
As pontes que construo...
tiram-me da duvida e me leva ao outro lado onde encontro,
certeza.
Conduz-me ao sonho, e me faz em vôo... ser feliz.
Permiti-me afastar da estupidez, e cingir com os braços
a delicadeza.
Partir apressadamente da arrogância, e cobrir-se de
singeleza.
As pontes que construo...
são invisíveis, e imaginárias... transitam nelas...
somente as pessoas que amam... como eu,
e fazem do existir um edificar,
e transportem de um lado para o outro... amor.
Construo pontes para cruzar os abismos,
e não ficar indolente apenas de um lado do existir
com a solidão.

Ari Mota

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

REINVENTO-ME

Alterei tanto...
minha forma original,
que quando contemplei o passado, não me encontrei.
Em busca... deparei tão somente com espectros dos meus sonhos,
e pálidas fotografias que em agonia,
revela a face doce de um menino,
que se perdeu... roubaram-lhe a nitidez da inocência,
a limpidez da ingenuidade.
E desde então...
passei da fantasia, do imaginário à eterna luta.
Alterei tanto e de tamanha intensidade que perdi a essência primitiva,
e em sobrevivência adaptei-me aos combates,
entre as derrotas e as vitórias, apaixonei-me pelas duas.
Não desdisse as imposições do destino.
Não repudiei as lagrimas que salgadas,
desfilaram uma a uma para dentro do peito.
Nem neguei o riso quando tive coragem de ser feliz.
Combati a minha própria insegurança,
recusei a entrada do medo quando este me esmurrou,
rejeitei a duvida quando esta me invadiu,
isolou-me na negrura da incerteza,
e fez de mim solidão.
E relutei... sobrevivi a todas as asperezas da existência.
Sou um sobrevivente de mim mesmo.
Fiz da sagacidade um instrumento para suportar as adversidades,
e da elasticidade instintos de compreensão.
Alterei tanto... altero tanto,
que cada instante, procuro-me, e não me encontro.
Sou sempre recomeço, sou hoje, sou reinicio sempre,
reinvento-me todas as manhãs.
E só tenho de obsoleto, arcaico, antigo...
dentro desta alma...
amor.

Ari Mota

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

FUI CONDENADO A SER FELIZ


Ao longo da minha viagem fui acometido de solavancos,
vieram de forma imprevista,
e sucederam de maneira fugaz
e fizeram do meu existir um severo estremecimento...
sacudiu minha alma.
A minha travessia tem sido demasiadamente longa,
sempre tenho que firmar meus pés ao solo...
sem hesitação,
e meu caminhar sem perplexidade.
Às vezes o chão que piso, trepida como se fora abater-me,
intentam tirar-me o equilíbrio,
apossar-se da minha coerência,
e roubar-me a lucidez.
Às vezes detenho-me preso à fronteira do medo e da coragem,
meu andar leva-me aos confins e me entrego a duvida e a certeza.
Uma lagrima tênue escorre face abaixo embebendo o riso e a dor.
Em devaneios deparo com os descaminhos,
e realinho-me nos sonhos.
Desvencilho-me dos rancores,
ponho-me em paralelo aos amores.
E em vôos... suporto as turbulências do existir...
e resisto.
Recupero-me quando me amarrotam, tiram-me o original,
ofuscam-me o brilho... dissimulam-me o lustro.
Supero o adverso... insisto,
insisto tanto, resisto tanto,
que hoje sou prisioneiro das minhas vontades,
senhorio dos meus anseios, e independente no arbítrio.
E defronte de tudo isso, o destino...
fez de mim o que sou:
Fui condenado a ser feliz.

Ari Mota

terça-feira, 24 de agosto de 2010

UM LOUCO AMOR

Acreditem...
Todas as manhãs, desperto com uma algazarra de borboletas azuis,
fazendo festa no meu amanhecer.
E depois uma louca bailarina em fantasia,
vem num rodopio alegrar-me,
e dançar nas pontas dos pés... sorrindo para mim.
E em devaneios segreda em deleite à minha alma... que me ama,
me abraça,
e de assalto rouba-me um beijo e sai enlouquecida.
Extasio-me a este incitar de amor,
esta loucura desmedida, este disparate de paixão,
esta ardente declaração.
Acreditem...
De tudo nosso amor sobreviveu...
Dos vendavais impostos pelo cotidiano, aos terremotos ocasionais,
que arrasaram coisas, desfez sonhos, demoliram planos,
interromperam caminhos.
De tudo sobreviveu... o nosso amor.
Dos momentos tempestuosos, carregados de incertezas,
dos medos... do abandono, e do divergir da convivência.
Sobrevivemos às intempéries do existir...
E a cada instante tentávamos mais uma vez.
E tudo foi muito intenso, e tudo foi superação...
Reedificamos, reconstruímos tudo que o destino nos tirou,
recompomos e refizemos todas as trilhas que sumiram do nosso olhar.
Hoje... o destino não me permitiu ter castelos, nem uma princesa,
como não me permito ficar em desuso, nem obsoleto...
Em desvario virei poeta... só pra te conquistar.
E fazer de ti minha louca bailarina,
com amor.

Ari Mota

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

TRAVESSIA


Todas as vezes que mudei de caminho, alterei o rumo,
busquei um novo trajeto, ou avistei outra travessia...
encontrei o esplendor do talvez, do acaso.
Todas as vezes que o inusitado fez-me companhia,
e o incerto bateu em minha porta, convidando-me à uma aventura...
saí... em vôo,
como uma águia solitária que ganha os céus em busca da descoberta,
fiz minhas escolhas, desfilo com minhas decisões,
meus tropeços,
coloco riso na sisudez do medo, e gracejo nos enganos,
tenho... é obvio, que conviver com a solidão,
e saltar profundamente nos abismos do imprevisto.
Mudo a cada instante, faço da ocasião o agora, aconteço de súbito,
altero-me na concepção, inquieto-me na imaginação,
sou metamorfose em delírios, resiliência em demasia.
A mudança é um balsamo que me alivia,
a duvida um deleite que me aquieta,
delicio-me com novos olhares, com novos encontros,
novos lugares.
Assumo o risco de não possuir ancoradouro, ou de não ter uma paragem,
e não ter onde guardar coisas, e não ficar refém delas.
Procuro rampas que possam impulsionar meus vôos,
plano inclinado que possa lançar-me em devaneios.
Procuro despenhadeiro que me dê vertigens,
e sensações irresistíveis ao temor da perda.
Procuro sempre outras travessias...
pelas estradas dos nãos, minha alma encontrou os sins.
Se me procurardes por aí...
fui buscar com minhas escolhas o que me pertencia...
amor,
e já volto.

Ari Mota

terça-feira, 17 de agosto de 2010

UM OUTRO FIM


O passado me fez uma breve visita, acomodou-se ao meu lado,
encostou-se ao meu ombro, afagou meus cabelos,
e suavemente beijou-me a face.
Lembrou-me das vezes que caí, sussurrou verdades que passei,
das mentiras que me impuseram, e das tantas vezes que levantei.
Fez vir à memória os medos que senti,
das vezes que quase me perdi,
dos calafrios de solidão,
da imensidão das incertezas, da duvida,
do receio do abandono, do perigo da escuridão.
Foi tamanha a lembrança que verteu pingos de dentro da alma,
e quase se fez pranto, choro em gotas...
desejo de voltar.
E o passado de forma acintosa, convidou-me a refazer a trajetória,
reparar erros que cometi, resgatar beijos que não dei,
reedificar desassossegos que consenti, abraços que abandonei,
restaurar amores que não declarei, camas que não esquentei.
Abriu a porta e pediu-me para entrar.
Permitiu-me retirar dele todas as minhas renuncias,
tudo que reneguei, tudo que senti, todos os preconceitos que tive,
todas as desconfianças que manifestei,
todos os desprezos que apresentei.
Mas, não tive coragem de extrair do passado nada que vivi,
tudo compõe a minha historia... que ainda não acabou.
Nada posso extirpar do meu existir,
nada posso arrancar da minha essência.
Não posso censurar-me pela inocência,
nem castigar-me pelo tempo que se é aprendiz.
Tudo foi alicerce... que hoje me transforma,
deixa-me melhor,
prepara-me para um outro fim...
com amor.

Ari Mota

sábado, 14 de agosto de 2010

A LUZ


Houve um dia em que o destino roubou-me o conforto,
subtraiu-me a delicadeza, fez de mim um caminhante,
sem direção,
tive que enfrentar a rudeza do cotidiano, o desamor dos homens,
saí para viver o dia, o convívio, encontrar amores, afetos,
desafetos,
saí para o combate... enveredei-me na conquista, no ter,
no possuir,
houve ausência de cores no meu existir,
assustei-me com a negrura da noite,
ao léu... vaguei desnudamente com os meus medos,
sem emoção.
Busquei pelas estradas, luz...
pelo existir... atalhos que luzisse clareza,
e luminosidade que viesse resplandecer meu caminho,
um sinal que realçasse trilhas, ofuscasse crepúsculos, cintilasse o sol,
e fizesse alvorada em todos os meus desejos,
em todos os meus sonhos,
brilhasse com fulgor meus devaneios,
minhas secretas loucuras.
Saí em busca do esplendor do brilho, do teatro iluminado...
do aplauso.
Fiz espera na esquina... de claridade para os meus passos,
para o meu andar, e sol a prumo para o meu viver.
De nada valeu a busca, de nada valeu a espera,
não deparei com um candeeiro ou uma vela a minha frente,
no meu caminhar.
Em silêncio... fugi para dentro de mim mesmo,
fiz das adversidades, geradores de energia, encontrei a luz,
na descoberta fiz da minha alma... brilho,
passei a iluminar o meu existir,
ter luz própria, revelar-se em deslumbramento,
ter vertigens de amor, encanto pelo encontro, embriagar-se de orvalho,
rir-se do nada,
seduzir-se pelo simples, pela fugacidade da vida.
De tudo que passei, tudo foi muito intenso, ou talvez muito pouco,
mais valeu.
Sobrevivi aos descaminhos do andar, tive que brilhar para mim mesmo.
E hoje as velas que acendo não são para pedir,
nem para clarear meu caminho,
já o percorri de olhos fechados...
hoje acendo velas...
para agradecer.

Ari Mota


quinta-feira, 12 de agosto de 2010

ESPERANÇA

Careci sonhar quando exigiram minha apresentação no palco da vida,
e tudo foi muito intenso, tudo foi muito repentino, teatral,
imenso.
Hesitei com as circunstancias, com o medo visceral da perda,
fiz do meu existir um teatro de incertezas, uma duvida banal.
Coube-me tão somente devanear em primazia, supor,
conjecturar.
Fiz das madrugadas... um cismar de menino, uma inocência,
pura fantasia.
Quis fabricar sonhos, e produzir realidades...
achei-me invisível dentro do meu mundo utópico,
minha imagem irrefletida perdeu-se no horizonte do meu destino,
quase fiquei pelos caminhos... em devaneios, em sonhos.
Ainda assim, minha alma reclamou ousadia,
fez-me ver o abismo entre sonhar, e a infinita necessidade de realizar.
E que também um dependia do outro, e que sonhar é preciso,
fundamental.
Mas, que tudo tem seu tempo, seu instante, tudo termina,
e que devemos aprazar até nossos sonhos,
para tudo continuar.
Passei a plantar grãos em pleno temporal, regar em manhãs de geada,
trabalhar ao sol, expor as fraquezas, o rigor da labuta,
passei a transitar no meu existir realizando os sonhos,
os fazendo acontecer... ser.
É um combate por minuto, travo uma batalha em cada segundo,
ressurjo em cada alvorada, ressurjo em cada sorriso,
em cada abraço,
em cada manifestação de afeto.
Ressurjo em cada desejo, em cada olhar,
em cada momento.
Tudo porque meu maior sonho é nunca perder a esperança,
de que tudo valeu, nada foi um vazio,
e que da dor se tira o riso,
e do riso... amor.

Ari Mota

terça-feira, 10 de agosto de 2010

DESARMADO


 
O destino fez de mim um guerreiro desarmado,
desaparelhou-me a espada, desguarneceu-me da fúria,
escondeu-me o ódio.
Adentrei nos campos de batalha sem a temeridade de um bruto,
e sem a avidez de um covarde.
Fui pelejando pelo existir...
empreguei em meus combates apenas, e tão somente... argumentos,
discerni o meu existir com a sutileza da razão, expus meu equilíbrio,
fiz do raciocínio a lógica da convivência, e do meu grito... silêncio.
Fugi da desinteligência coletiva... fiz do isolamento um recolher estratégico,
cresci com a solidão.
Pactuei com minha alma, negociar nossa intimidade com as diferenças,
e apossar-se de preposições evidentes que nos ofertassem... verdades.
Não sangrei a carne, nem afanei destinos e sonhos,
e jamais discrepei vôos, desejos e escolhas, nunca interrompi caminhos.
Fiz da minha voz... um canto suave... as lancei no espaço,
não quis ouvir eco, nem respostas,
e minhas palavras... as perpetuei em paginas vazias, invisíveis,
nunca convenci ninguém.
Falei pouco, olhei com prudência, espiei com reserva as aparências.
Negociei meu riso, minhas angustias, minhas ausências, meus medos.
Encontrei-me tomado de vazios, me vi invisível,
e quando se apoderava de mim o desconforto de existir,
minha alma resiliente tornava meus soluços em esperanças, força.
E de guerreiro desarmado, fez de mim um poeta,
deu-me em delírios... palavras...
que as escrevo,
com amor.
Para você.

Ari Mota

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

RISCOS


Houve um tempo em que escondi meus medos,
impus silêncio as minhas incertezas...
fiz calar meu grito,
atemorizei-me com o inusitado, distanciei-me do combate,
da disputa,
fiz do meu existir uma fuga, um esconder...
ocultei-me das circunstancias, esquivei-me da luta.
Houve um tempo em que o destino exigiu-me impetuosidade,
atrevimento,
tive que romper barreiras, destruir paradigmas,
lançar fora conceitos.
No limiar da minha descoberta... ousei mudar, alterar o rumo,
erguer-se em vôo.
Fiz da minha alma um fulgor latente, e a externei em tenacidade,
e ousadia,
fiz de mim um acontecimento, dos meus sonhos... riscos,
e da minha estrada a duvida... extasia-me o competir,
o irresoluto.
Perdi o medo de perder... obstino tentar sempre,
teimo em recomeçar, intento em arriscar.
Mudo todas as manhãs... todas as perspectivas.
Redescubro-me em novos sonhos, em novos amigos,
em novos amores.
Redescubro-me em novos perigos, em novas teimosias,
teimo em ser feliz.
Fiz resiliência em minha alma,
recupero e supero as adversidades,
mudo pelo prazer de recomeçar...
todos os dias... com amor.

Ari Mota

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O QUE CARREGO


Houve um tempo em que andei guardando coisas,
amealhando objetos,
guardava quinquilharias, conservava miudezas e o dourado dos metais,
depois passei a colecionar frivolidades, perdi a sutileza do encanto,
arrastava pelo meu existir... ressentimentos, magoas infundadas,
medos incompreendidos, olhares incertos, gestos inseguros...
perdido.
Houve um tempo em que guardei ninharias pelo caminho.
Esqueci de escolher, separar, dizer sim a mim... não aos outros.
Percorrer em silêncio as veredas do meu destino,
do desprender-se dos meus desejos, e o abrir-se das minhas fantasias,
e em delírios poetizar a ousadia dos vôos, e a imensidão do livre.
Voar desprendido das amarras, das cercas, dos muros,
e dos fins de estradas.
Mas, um dia a alma reclamou em alta voz, e aos gritos... jogou tudo fora,
fui perdendo coisas, foi ficando pelo caminho:
álbuns, magoas, canivetes,
copo de shop, selos, figurinhas, saldos de bancos,
moedas, medalhas,
incertezas.
Estou no tempo do desprendimento, da renuncia,
desapeguei ao frívolo, a futilidade do confronto,
a exacerbação do volúvel.
Estou no melhor do meu tempo... em crescimento, embora no final.
Hoje não arrasto pelo meu existir nada além do que meus sonhos,
não carrego bagagens, nem tão pouco... coisas,
só guardo dentro de mim...
amor.

Ari Mota

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O ÚLTIMO INSTANTE


Ontem confabulando singelamente com minha alma,
num canto do meu existir, divagamos ao acaso,
e em silencio.
Diligenciamos sobre o tempo, o que experimentamos...
o que sucedeu,
o que nos veio pelas mãos do destino, e o que tivemos que buscar,
às vezes em desespero, outras vezes em profunda luta,
ou em enormes desatinos.
Ontem eu e minha alma em retrospectiva, trouxemos à memória,
o que sentimos com toda a intensidade, todos os caminhos que passamos,
das vezes que nos perdemos, e das noites frias que nos achamos,
do riso nas vitorias, e dos soluços nas derrotas,
suscitamos a dor que a saudade produziu, o vazio que nos atingiu,
dos amores que perdemos, dos adeuses que não acenamos,
das despedidas que não provocamos.
Ontem eu e minha alma, em delírios...
tornamos solene nosso existir:
Sobrevivi ao medo de ser feliz, e a indiferença dos homens,
ninguém direcionou meu caminhar, nem tão pouco meus devaneios,
fiz de mim um aprendiz da minha própria essência, me descubro,
renovo... renovo tanto, que eu mesmo não me encontro,
nasço todos os dias, broto em cada gesto, em cada olhar,
em cada ensejo, e faço de todas as ocasiões... momentos de ternura,
uma oportunidade de amar,
vivo intensamente,
como se fora... o último instante,
o último fôlego,
a última expressão de amor.

Ari Mota

sexta-feira, 30 de julho de 2010

INTREPIDEZ


Se fores acometido por um temor exacerbado,
e deter-se espiando a porta,
a espera de uma desventura ou um infortúnio adentrar
e invadir seu existir,
e acercar-se de criaturas que cultuam a tragédia,
o desassossego, o fel,
e untar-se de sentimentos que obste os vôos,
o espontâneo e cerceie o riso,
e não mais que possível, e ainda, não gozar do desimpedido, do isento,
e não conseguir caminhar só,
independer-se das sentenças sociais,
resguardar-se das opiniões nefastas, acautelar-se do julgo gratuito,
e consentir que o medo impeça o caminhar,
e os outros ofusquem o seu sonhar.
Você precisa mudar...
Você necessita de uma reengenharia que possa realimentar a alma,
realinhar a esperança, expor toda a sua intrepidez,
permitir uma nova releitura da própria trajetória,
de si mesmo.
Redesenhar os planos do fim, redescobrir os começos.
A sutileza do silencio, rir sem gargalhar, ver sem olhar,
e, sobretudo redefinir a intensidade dos amores, do amar.
Se fores acometido por delírios indefiníveis,
e deter-se espiando para dentro, procurando respostas,
e perceber sua alma em festa... bailando com uma louca bailarina,
ao som de uma orquestra de borboletas azuis, ao luar.
Não... você não foi acometido por loucuras,
nem por devaneios de poeta.
A felicidade fez morada dentro de ti... e você não percebeu.
Só lhe resta o abandono do medo, o reaprender do amor
e a intrepidez para ser feliz.

Ari Mota

quarta-feira, 28 de julho de 2010

VENTANIA



Se o seu caminhar for interrompido abruptamente,
com o terminar da estrada,
e buscar em vão a bússola... não encontrar o norte,
e a noite chegar repentinamente,
e na diagonal do ombro, à tira-colo... portar ventania,
e em fúria fazer cair das nuvens águas intempestivas, gelar a carne,
sacudir, estremecer os ossos, fazer vazios.
E o destino cobrir de ébano sua visão do horizonte,
e seu olhar tornar-se ofuscado pelo medo,
e uma inquietação brotar de dentro, arrancando suas fragilidades,
expondo suas fraquezas, sua infinita vontade de voltar, de ter um colo,
e em prantos pedir socorro, implorar afeto, querer um carinho, um abraço,
e a alma em soluço vociferar que está sozinha,
que perambula pelo existir sem ninguém,
e que vagueia em devaneios pelas madrugadas a procura de esteio.
E dos olhos saltar gotas de solidão, doer o peito, e quase morrer em vão.
Não desista... cerre os olhos, vá ao encontro da própria alma,
abrace-a com ternura, leve-a a um lugar despovoado,
refugie-se no descanso, recolha-se no silencio,
retire-se do exposto, caminhe ao acaso... rume à interiorização de si mesmo.
Resista... se não conseguir suportar a ventania, nem as chuvas intempestivas,
graceje com a dor, divirta-se com o sozinho, encante com a ausência,
e faça da sua carência, um momento único do seu existir,
você terá apenas esta oportunidade... de viver esta vida.
Conceba  as ventanias... como forças... que fazem crescer,
evoluir, manter-se de pé, robustecer a essência, aprofundar o sentimento.
Arrisque ser feliz... outra vez... sempre, desmedidamente,
Se... preciso com amor,
se não precisar...
ame assim mesmo.

Ari Mota

segunda-feira, 26 de julho de 2010

SUPÉRFLUOS



Se perceberes que o fardo está pesando a cada passo, a cada andar,
e que as pernas não mais suportam... carregar o corpo, o existir,
e a alma em fadiga encarecer o caminhar, temer o horizonte,
dar indícios de parar.
E em prantos reclamar socorro, e ninguém lhe ouvir
ou nem lhe ajudar.
É hora de lançar pelo caminho... os supérfluos, os excessos, o fútil,
abandonar pelas margens todos os medos, angustia, e sofreguidão,
diligenciar a marcha, suavizar o vocábulo e dar ternura ao olhar,
desapegar da impaciência nas paragens... apartar-se da cobiça,
da solidão.
Se perceberes que carregas sentimentos que tiranizam seus sonhos,
obscurecem suas vontades, delimitam o bater de suas asas.
É chegada a hora de propor ao destino que lhe facilite:
Uma assepsia da alma...
Um retirar do desnecessário, da sobrecarga,
dos sedimentos que se alojaram no fundo de si mesmo,
enraizaram em forma de magoa, de rancor,
uma repugnância ao acaso, uma desesperança ao imprevisto,
um desacreditar no talvez, uma ausência de coragem,
um quase abandono, um quase fugir.
Se perceberes que dentro da alma... guardas supérfluos,
escondes ressentimentos... faça uma assepsia.
E guarde ali somente amor
e esperança.

Ari mota

sexta-feira, 23 de julho de 2010

VAZIO



Prepara-te para tornar-se maior, sobrepor ao que te faz pequeno,
cumprir o destino que te implora ser outro, desenvolver, crescer.
Faça sobrar talento, conquiste coisas, direcione sua vida ao sucesso,
fomente seu andar pelos caminhos do ascender, pelas estradas da fama,
suba nos degraus sociais, vá em direção ao cume, conceba o auge,
e com todo o esplendor desfile como uma celebridade.
Prepara-te para os aplausos, os holofotes, apresente seu intelecto,
sua infinita perspicácia, sua intensidade sagaz de raciocínio,
suas faculdades eruditas, e seus profundos desejos de enciclopedista.
Seja o melhor no que faz, na ação ardente que produz, no julgo do que busca.
Seja um laboratório fervescente de idéias, um inovador contumaz,
um inesperado descobridor do novo, do inusitado, brilhe como uma estrela.
Haverá todo um universo conspirando ao que conseguiu conquistar, ter.
Esta é lei... crescer, evoluir... se necessário recomeçar sempre.
Mas não te esqueça... nunca, de esquecer-se do amor.
De abrigar em sua alma os que te amam... e amá-los em simetria, por igual.
Expor o humano, oferecer afeto, abrigar no intimo a delicadeza e a doçura,
distribuir afagos... no âmago ser simples, menino.
Ser gentil com as pessoas, a natureza e consigo mesmo.
Amar... se necessário em demasia.
Prepara-te para tornar-se maior... mas não se esqueça de amar, sentir.
Se o destino transformá-lo em um autômato,
estarás construindo dentro de ti, um museu de fracassos.
Viverás... sempre com medo de amar,
ausente...vazio.

Ari Mota

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O MEU CAMINHAR


Quando os cabelos eram pretos e a pele aveludada,
e tinha a juventude como companhia,
a vida presenteou-me dois caminhos,
um deles na verdade era um atalho:
encurtava-me o andar, acelerava o tempo,
e oferecia-me o provável, o indubitável, impunha-me o evidente,
furtava-me a critica, dissuadia-me da duvida,
estorvava meus delírios, proibia minhas loucuras,
e em contra partida, também obstava meus vôos,
desviava de rota meu destino,
e ofuscava o meu olhar.
Por força dos meus desejos, e por ensejo das minhas vontades,
não atravessei o meu existir seguindo trilhas ou pegadas de alguém,
fiz fender-se a estrada ao meu caminhar, enveredei-me na descoberta,
nas escolhas solitárias, nos devaneios, nos medos de nunca se achar.
Não permiti a ingerência nos meus passos, nem nas minhas doces fantasias.
Minha alma percorreu incólume nas vitórias, e cresceu nas derrotas,
sobrevivi ileso a solidão que impus a mim mesmo.
E nem sequer uma gota desceu ilesa face abaixo...
transformei-as em orvalho nas minhas madrugadas,
aguardando o por do sol.
Decidi, escolhi... não atravessei atalhos.
Nenhum discurso me convenceu... dei a todos o direito de falar,
e a mim de acreditar.
Escolhi meus livros, minha fé, meus amores,
meu jardim, minhas musicas, meus ídolos, minhas flores,
até uma louca bailarina, e umas borboletas,
para celebrar minha passagem por aqui...
com amor.

Ari Mota

domingo, 18 de julho de 2010

COTOVELO NA JANELA



Não se detenha despercebido com o cotovelo na janela,
esperando a vida chegar,
nem fique na espreita em circunspecção avaliando alguém,
ou em acinte narrando inverdades,
avaliando coisas, e o que os outros têm.
Não se coloque com o cotovelo na janela,
conjecturando o sucesso dobrar a esquina e cair em seus braços,
e nem se posicione como se a vitória não lhe trouxesse cansaço,
e que os combates diários serão brandos, afáveis,
e o mundo complacente com você.
Não plante seu cotovelo na janela, mas... se o fizer,
que seja para ver quem chegou,
e abrir a porta aos amigos, ou a um grande amor.
Saia da janela... ela não é, e nem será o palco da sua vida,
deixe passar por ela apenas os raios de sol, propondo esperanças,
ou o vento a galope celebrando e aclamando seus sonhos de criança.
Tire o cotovelo da janela, saia para viver o grande teatro que é a vida,
encene seu papel, apresente sua face, seu riso, destile emoção,
combata suas intrigas intimas, suas próprias paixões perdidas,
sua busca incessante... da própria alma... encontre-se.
Mas que seja em campo aberto, na rua, nas avenidas, nas calçadas,
no palco da vida... e que pare de esconder de você mesmo,
de temer seus fracassos, os amores dissolutos, os beijos esquecidos.
Reinicie sempre, configure novos sonhos, novas lutas.
E ao aproximar da janela, que seja somente pelo lado de fora.
E que em serenata possa declarar o amor que tímido,
escondeu toda a sua vida... por ela.

Ari Mota

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O USUÁRIO



Bateu em minha porta um jovem em farrapos,
vazio,o conheci quando criança, o conheci quando ainda inocente,
quando ainda o luzir da esperança brincava em seus olhos,
e resplandecia em sua alma... vida, e festa em seu existir.
Havia esperanças de pais, e sonho ingênuo de filho,
toda uma vida de busca, de combate... ainda por acontecer.

Sem culpa, sem sentenciar... um dia desprendeu-se do nexo,
afastou-se da coerência, perdeu a conexão com a lógica,
e jamais conseguiu voltar para a casa.
Perdeu-se nos labirintos da dependência química,
e jamais encontrou o caminho de volta, perdeu-se no imaginário,
desperdiçou o aprimorar da consciência, o evoluir da essência,
encheu-se de nada, procura em vão o riso, e em desespero a si próprio.
Bateu em minha porta um jovem que perdeu sua primeira luta,
foi vencido pela droga.
Absteve de apresentar seus talentos, mostrar seus afetos,
romper a solidão, amar, virar poeta.
Inerte, vaga pelas ruas, pelos delírios químicos, pelas noites frias,
tornou-se um desnecessário, uma incerteza...
Incomodou-me... não consegui abrir a porta,
não consegui achar saída,
fiquei pequeno,
decresci,
morri mais um pouco,
não tive coragem de fazer por ele
o que faria por um filho.
Morrer.

Obs. E como se não bastasse (Elvis Presley, Jimi Hendrix e Janis Joplin)  
meus ídolos morreram de overdose...

Ari Mota



terça-feira, 13 de julho de 2010

SÓ NÃO SOBREVIVI AO AMOR



Sobrevivi à solidão que as diferenças impuseram ao meu olhar,
ao desalinho que pairou nas minhas esperanças, no meu caminhar,
ao desconforto dos que exigiram e tentaram direcionar minha fé,
e a insolência imposta pelos que queriam restringir meus vôos.
Sobrevivi aos meus medos, a minha inconstante dúvida, 
minha volúvel culpa, e a própria insensatez de se achar único.
Sobrevivi às arrogâncias sobrepostas nas estradas que passei,
as palavras que emudeceram... e em êxtase tinham que gritar aos céus,
todos os meus tormentos, todas as minhas angústias,
toda a indiferença.
Sobrevivi ao isolamento imposto dos que perceberam que mudei o rumo,
que descobri veredas que me levaram aos recantos da alma,
aos braços da sensatez, e as trilhas do equilíbrio,
da razão e do silêncio.
Sobrevivi ao desaguar das míseras regras sociais,
dos cerceamentos,
dos olhares de desdém, da soberba, dos abraços vazios,
e dos inverídicos beijos, e das falsas declarações.
Sobrevivi à estupidez do julgo... e da espontaneidade do ódio,
do desejo de possuir o que o outro tem,
deixei livre... todas as almas,
inclusive a minha.
Só não sobrevivi ao amor, não resisti as suas investidas,
sujeitei-me ao seu triunfo, subjuguei-me aos seus caprichos,
persuadiu-me a segui-lo eternamente, em suplica caí aos seus pés,
não sobrevivi ao amor.
Se necessário morro de amor todos os dias.
Amo intensamente a vida e o que ainda resta.
Amo você.

Ari Mota