Relutei em decifrar o inevitável...
Mas hoje, diante do espelho da alma,
creio que finalmente entendi.
Contudo, me resta só saber:
Que essência me habita?
A verdade é que nunca foi sobre mim,
sempre foi sobre os “vários” que carrego,
essa legião de versões que atravessa os desertos comigo.
E sou esse
que recusa a desistir,
que não
está só passando pela vida,
mas, a
vive na sua plenitude.
E tenho um
pacto com tempo,
de um...
não olhar para outro,
evitamos o olhar direto, num acordo de
sobreviventes,
embora eu sinta o peso de cada hora que ele me
rouba,
e sei que ele a cada dia me deixa entardecido,
e desconstrói as certezas da minha juventude.
Mas que essência me habita?
De quem é essa gramática do espírito que me sufoca?
Esse mergulho no abismo interno que me apavora,
esse silêncio voraz que me devora
esses atalhos que prometem a chegada,
mas só entregam o vazio.
E o que a vida exige de mim?
Há quem diga que ela espera que eu me encontre,
que eu remende os retalhos...
suture os sentimentos
antes que se tornem feridas incuráveis,
e eu perca da vida... a leveza.
Que eu aprenda a suportar o peso do meu cansaço.
Que eu tenha a coragem de me reumanizar no isolamento.
Que a vida, em sua fúria, me intensifique,
e jamais me apequene.
Pois o que realmente dói não são as escolhas que
fiz...
é o latejar das cicatrizes que me esqueci de curar.
Às vezes, assusto-me com a minha própria força.
Percebo-me maestro da minha desordem:
- Outro dia, domei os fantasmas da minha mente,
não a queria estéril, mas fértil de sonhos,
ordenei que minhas pernas não desistissem da
estrada,
que meus braços não economizassem a ternura de um
abraço,
que meus lábios não se exilassem dos beijos que não
dei,
nem meus olhos desertassem do espanto de
contemplar.
Descobri, entre sobressaltos, que eu empunhava o
leme.
Mas que essência me habita?
Eu sou a alma em estado bruto.
Carrego comigo séculos de outras vidas.
Estou aqui apenas para resgatar os meus amores —
aqueles que, por distração ou medo,
os abandonei na solidão.


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